Topo

CarnaUOL

Anderson Baltar


Imperatriz aposta no bom humor para voltar à disputa do título

Divulgação
Mário e Kaká Monteiro, carnavalescos da Imperatriz Leopoldinense Imagem: Divulgação
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

2019-02-14T17:04:02

14/02/2019 17h04

Veterano carnavalesco e cenógrafo, Mário Monteiro assumiu, em março do ano passado, ao lado de Kaká Monteiro, o barracão da Imperatriz Leopoldinense. A intenção foi clara: fazer a verde, branca e ouro de Ramos voltar a brigar pelas primeiras posições. Campeão em 1992 pela Estácio de Sá, Mário voltou para a agremiação onde trabalhou em 2013 disposto a fazer o público conhecer uma nova faceta: a outrora "certinha" e clássica agora virá para a Sapucaí com uma verve satírica e com fantasias e alegorias leves e criativas.

Com o enredo "Me dá um dinheiro aí", a Imperatriz será a penúltima escola a desfilar no domingo de Carnaval e, segundo o carnavalesco, está preparada para surpreender e divertir o público. O barracão, em adiantado estágio de conclusão de trabalhos, mostra uma Imperatriz bem diferente e disposta a reescrever sua história.

Em entrevista à coluna, Mário Monteiro relata como foi a elaboração do enredo e dá pistas sobre o que poderá ser visto na passagem da escola.

UOL - Você e Kaká estiveram pela última vez na Imperatriz em 2013, época em que a escola ainda tinha uma identidade muito tradicional. De lá para cá, a Imperatriz fez enredos pop como Zico e Zezé Di Camargo e Luciano. Você sente que a escola realmente tem uma nova cara?

Mário Monteiro - Apesar de todas essas novidades, a escola ainda é muito conservadora. Estou tentando mudar essa tradição de a Imperatriz ser uma escola certinha, de fazer enredos históricos e biográficos. Queria fazer algo mais leve e que tivesse ligação com o momento do país. Acho que estamos conseguindo, já que a reação do povo nos ensaios tem sido muito positiva. E a Imperatriz precisa voltar ao holofote: são 17 anos sem ganhar. Para isso, o presidente me chamou, já que em 2013 trabalhamos com o Cahê Rodrigues e tivemos um bom desempenho, ficando em quarto lugar. 

Qual foi a reação da comunidade quando você trouxe essa proposta de uma escola mais leve, tecnológica e divertida?

Senti que o pessoal recebeu com certa reserva. Inclusive os compositores tiveram dificuldade de fazer os sambas. Muita gente disse que esse enredo não tem a cara da Imperatriz, mas por isso eu acho legal, pelo desafio. Se a Imperatriz não mudar, não surpreender, não conseguiremos chegar lá no topo. Acho que vamos provocar uma boa surpresa no público.

Esse enredo já estava na manga?

O Luizinho [Drumond, presidente da escola] me chamou para conversar ,e eu até já tinha um outro tema, mais tradicional. Mas aí pintou o pensamento de fazer algo diferente. E, baseado no sucesso da Beija-Flor e da Tuiuti no ano passado, me veio a convicção de fazer uma coisa mais dentro do nosso cotidiano. Então, resolvi partir para um enredo mais satírico, com uma linguagem mais direta. Abordar a história do dinheiro, com um olhar sobre a realidade, sobre a situação da economia, sobre o desemprego. 

A linguagem visual é bem diferente.

Vocês verão uma Imperatriz mais leve. Fantasias mais estilizadas, modernas, contemporâneas. A ideia é ter uma escola bastante solta. O enredo pede isso: mais alegria. 

Você começou a fazer Carnaval nos anos 1980, quando os enredos críticos estavam na moda. Essa temática voltou para ficar? O Carnaval das escolas de samba vai voltar a ser a caixa de ressonância dos assuntos nacionais?

Esse é um movimento que vai vingar, por conta Carnaval do ano passado, em que os desfiles politizados tiveram sucesso de crítica, público e com os jurados. Neste ano, temos Mangueira e Tuiuti fazendo enredos políticos. O enredo do Paulo Barros (Viradouro) tem um quê de crítica também. Minha forma de fazer Carnaval é mais sutil, menos panfletária. Mas respeito muito os trabalhos do Leandro Vieira e do Jack Vasconcelos. 

Sua carreira na televisão é bem consolidada. E o Carnaval é cada vez mais feito para ser visto pelo telespectador. Como sua experiência de TV te ajuda nisso?

Como eu trabalho em TV, faço uma linguagem de alegoria diferente. Procuro fazer alegorias mais vazadas, com uma volumetria pensada para ser vista na TV. Talvez seja um vício de linguagem. Neste ano completo 50 anos de Globo. Meu trabalho tem uma linguagem para não ser vista apenas na avenida. E eu adoro fazer Carnaval. Na TV, eu sigo o que o diretor determina. Aqui, o diretor sou eu [risos].