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Anderson Baltar


Com clássico de Gonzaguinha, Império Serrano quer voltar a ser protagonista

O carnavalesco Paulo Menezes - Divulgação
O carnavalesco Paulo Menezes Imagem: Divulgação
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

26/02/2019 15h48

Uma das mais tradicionais escolas de samba cariocas, o Império Serrano, detentor de nove títulos do Carnaval, busca, com uma ideia ousada, recuperar o protagonismo no Grupo Especial.

Beneficiado pela virada de mesa do desfile do ano passado, quando ficou em último lugar e não foi rebaixado, o Império resolveu levar para a avenida um clássico da MPB: "O que É o que É?", de Gonzaguinha.

A ideia causou imensa polêmica no mundo do samba, com protestos da premiada ala de compositores da agremiação e estranheza dos torcedores de outras escolas.

O pai da ideia, o carnavalesco Paulo Menezes, vê nesse enredo a possibilidade de uma virada de chave na história da verde e branco de Madureira. Nesta entrevista exclusiva, o artista, que volta à escola em que assinou o Carnaval de 2006, dá detalhes sobre como foi a formulação do enredo e dicas do que o público verá no domingo de Carnaval (confira a programação dos desfiles do Rio de Janeiro). 

UOL - O Império está com uma proposta ousada de enredo, de adaptar um clássico da MPB para samba-enredo. Como surgiu a ideia?

Paulo Menezes - Eu tinha essa ideia há mais de dez anos. Lembro que, em 2009, quando fiz a Renascer de Jacarepaguá com o Paulo Barros, eu já falava sobre isso com ele. Neste ano, quando vim para cá, a escola me perguntou se eu tinha uma ideia ousada. Acho que não esperavam tanto [risos]. Algumas pessoas acham que esse enredo foi imposição minha, mas não foi. A escola comprou a ideia.

No início houve muita contestação dentro da escola, sobretudo da ala dos compositores. Como foi contornar essa situação?

Esse projeto está sendo realizado no Império Serrano, mas poderia ter sido em qualquer escola. Nunca tive a intenção de ferir a ala dos compositores. Até porque é uma ala que já me deu prêmios de melhor samba em 2006. Este projeto surgiu com a pretensão de ser único. Não será repetido. O clima dentro da escola nunca pesou. As pessoas de fora criticavam mais do que as de dentro. É claro que os compositores gostam da disputa de samba. Mas a escola já fez reedição em outras vezes e não houve competição. 

Por que "O que É o que É"? Qual é sua relação com a música?

Todas as vezes em que ouvi essa música eu achava que ela dava um enredo. A partir disso, fui desenvolvendo a ideia.

Você já tinha o enredo pronto quando sugeriu para a escola?

Não. Só tinha a ideia. Não adiantava chegar com o projeto pronto, porque cada escola tem sua identidade. Então, procurei fazer um enredo com a cara do Império Serrano. 

Como foi o processo de elaboração do enredo? 

Quando escolho um enredo, eu parto da pesquisa, que me dá vários caminhos. Esse não. Eu já tinha o samba. O compositor já tinha delimitado tudo. É mais difícil de trabalhar assim, quando já há uma ideia formada. Eu pesquisei sobre o que o Gonzaguinha pensou quando fez a música. Ele andava pelas ruas e perguntava para as para as pessoas o que era a vida para elas. E ele desenvolveu a letra em cima das respostas das pessoas. Eu fiz o mesmo. Comecei a perguntar a várias pessoas, de todas as camadas sociais. Fiz até posts em redes sociais provocando. E o interessante é que as respostas foram as mesmas de mais de 30 anos atrás, quando o país vivia outro momento e o mundo não era tão tecnológico como hoje. A essência humana não mudou. O que as pessoas queriam naquela época é o mesmo que elas querem hoje: ser feliz, ter amor. Pouquíssimas pessoas responderam pelo lado do ter e não pelo lado do ser. 

Você fez também um mergulho na obra do Gonzaguinha?

Não, porque ele é somente o compositor do samba. Ele "ganhou" o samba. Não haverá nenhuma menção ao Gonzaguinha no desfile. 

Esse é um tema que lida mais com os sentimentos do que as coisas palpáveis.

Nos meus outros enredos, sempre contei uma historinha. Desta vez, eu transformei o enredo em um conceito. Não é uma história com início, meio e fim. Eu arrumei os temas de forma que fique mais fácil entender. Se eu trocasse o segundo setor de lugar com o terceiro, a compreensão do enredo não seria prejudicada. 

Como a história será contada?

A gente começa com a visão da vida pela ciência e as formas que usa para explicar a vida humana. Depois, trago a visão religiosa da vida, como ela prende o seu fiel através da explicação da vida. Mostro, então, como o homem vê a vida, com vários momentos lúdicos. Para alguns a vida é um jogo, uma aventura, uma caixa de surpresas. Em seguida, trago a dualidade da vida, os caminhos que tomamos e que trazem consequências boas ou ruins. Teremos também o lado lúdico da vida: como nos deixamos levar pelo amor. E encerramos com o que esperamos da vida. Todos querem paz, amor e saúde. E o que o Império espera da vida? Quer voltar a ser protagonista da festa. Neste fim do desfile, homenagearemos Dona Ivone Lara. Afinal, o que fazemos em nossa existência nos faz cair no esquecimento ou atingir a imortalidade, como foi o caso dela. Toda vez que alguém canta uma música de Dona Ivone, ela renasce.