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Anderson Baltar


Em tempo recorde, Salgueiro realiza enredo dos sonhos de seus torcedores

Alex de Souza, carnavalesco do Salgueiro - Divulgação
Alex de Souza, carnavalesco do Salgueiro Imagem: Divulgação
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

27/02/2019 15h14

Profissional experiente do Carnaval carioca, Alex de Souza se acostumou com as adversidades ao longo de sua carreira de mais de 20 anos.

Trabalhou por muitos anos no Grupo de Acesso e, em sua estreia no Especial, em 2006, viu seu belíssimo desfile da Acadêmicos da Rocinha ser atingido por um severo temporal. Em 2011, na União da Ilha, perdeu grande parte de suas fantasias e alegorias por conta de um incêndio e as refez em menos de um mês.

Em seu segundo Carnaval pelo Salgueiro, foi surpreendido pela guerra jurídica pelo poder da escola entre a ex-presidente Regina Celi Fernandes e o atual, André Vaz. A disputa durou sete longos meses e prejudicou o cronograma de execução do enredo "Xangô". Apenas no final do dezembro, com a posse definitiva de Vaz, os trabalhos no barracão ganharam um ritmo mais consistente.

Após dois meses de trabalho, o Salgueiro está pronto para desfilar. Em entrevista exclusiva, o carnavalesco conta como foi o processo de criação do Carnaval da vermelha e branca da Tijuca.

UOL - Você está realizando o enredo dos sonhos do salgueirense e foi surpreendido com essa situação política da escola. Como foi realizar o Carnaval neste contexto?

Alex de Souza - Quando cheguei à escola, no ano passado, esse enredo era uma das propostas. Mas a então presidente Regina propôs o tema sobre as mulheres negras. Neste ano, procuramos patrocínio para alguns enredos e cheguei a desenvolver umas cinco ideias. E o Xangô estava esperando sua vez caso algum não se concretizasse. Como não fechamos nada, lançamos o enredo, que fui muito bem-aceito e deu um samba muito bom. Tivemos as dificuldades financeiras, como todas as escolas, e precisamos realmente agilizar o máximo possível a partir de janeiro. Vai todo o projeto para a avenida? Não sei. Era tudo planejado? Mais ou menos. Mudei algumas coisas para ganhar tempo -o que foi fundamental.

Por todas as circunstâncias, este é o Carnaval mais difícil que você já realizou?

Não. Eu já tive tantas dificuldades na minha carreira, que eu não posso dizer que este foi o pior. No ano passado tive entraves por conta do Ministério do Trabalho, que deixou o barracão parado por um mês. Cada ano é um desafio. Já passei por incêndio, por temporal. Comigo, só está faltando terremoto, tsunami e furacão [risos].

Você faz parte de uma geração de carnavalescos que vieram juntos do Grupo de Acesso, como Paulo Barros e Paulo Menezes. Depois de vocês, surgiram Jack Vasconcelos, Leandro Vieira, Jorge Silveira, dentre outros. Você acha que o Carnaval sobrevive artisticamente em momento de crise por conta de ter uma grande quantidade de artistas que aprenderam a fazer desfiles sem recursos?

Quem está acostumado a reciclar, a manter uma estrutura e a dar uma maquiada, consegue fazer qualquer coisa. Cansei de fazer Carnaval no Grupo de Acesso começando em janeiro. Era um mês só para fazer tudo. E de chover mais dentro do barracão do que do lado de fora. Parávamos tudo e colocávamos plástico para cobrir as alegorias com água pela canela. Você aprende a reaproveitar tudo. A dificuldade tem um lado bacana, humano, que é fazer seu raciocínio e poder de improviso mais aguçados. Mesmo no Grupo Especial, você tem que criar soluções em questão de segundos e readequar o projeto. Provavelmente essas pessoas passaram por isso muitas vezes. Mas, mesmo os medalhões que nunca fizeram o Grupo de Acesso, em algum momento da carreira fizeram escolas pequenas ou com baixo orçamento. Ou seja, todo o mundo já teve sua cota de sofrimento. 

Muitos diziam que o Salgueiro não desfilaria dignamente pelo curto tempo de preparação do desfile. Mas o barracão está pronto. Será que não chegou a hora de quebrar a banca e ganhar o campeonato?

Tomara. Desfilar no domingo é uma desvantagem, mas é um dia forte, tanto que a atual campeã, a Beija-Flor, desfilará nele [veja horários dos desfiles do Rio]. Só Deus sabe. Vamos ver o que acontece na hora. A escola tem que passar direitinho, sem buraco, sem correria, sem carro quebrar. Se passar certinho, sem erro, poderemos sonhar.

Como a história será contada na avenida?

A primeira parte trará o Xangô histórico, que existiu em carne e osso, como rei de Oyó. Contaremos a história desse rei, de um homem e seus feitos, que fizeram dele um mito, uma figura divina. Na segunda parte, o orixá e seus fundamentos e elementos. Lembraremos de Pernambuco, onde o Candomblé é conhecido como Xangô, tamanha a popularidade do orixá. No terceiro setor, falaremos do sincretismo religioso, da comemoração de Xangô na data de santos católicos por questão de identificação. O setor seguinte será em homenagem a Júlio Machado, que foi imortalizado como Xangô do Salgueiro. Lembraremos do Carnaval de 1969, "Bahia de Todos os Deuses", que foi a primeira vez em que ele desfilou. No último, lembramos que Xangô é o orixá da Justiça e trazemos todo esse contexto atual do país, em que precisamos muito que a justiça seja feita.

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