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Anderson Baltar


Em meio a dificuldades financeiras, Grupo Especial do RJ tem primeira noite

Quitéria Chagas no ensaio do desfile da Império Serrano, no Rio de Janeiro - Roberto Filho/Brazil News
Quitéria Chagas no ensaio do desfile da Império Serrano, no Rio de Janeiro Imagem: Roberto Filho/Brazil News
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

03/03/2019 09h38

Em meio a uma crise financeira e institucional sem precedentes, as escolas de samba do Grupo Especial começam, neste domingo, a disputar o título do Carnaval do Rio de Janeiro. Após mais um ano de relacionamento tenso com a prefeitura de Marcelo Crivella, as agremiações tiveram sua verba oficial reduzida de R$ 1 milhão para R$ 500 mil. E, mesmo assim, até o início da semana, haviam recebido apenas a metade do valor. Além disso, outros R$ 500 mil, provenientes de um aplicativo de transporte, foram suspensos. Não fosse o patrocínio intermediado pelo governo do estado há menos de um mês, muitas escolas não teriam conseguido colocar seus projetos na avenida.

O desfile também acontece em um momento em que a Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba) passa por seu pior momento. Com a credibilidade abalada por dois anos sucessivos de viradas de mesa que cancelaram o rebaixamento, a entidade presidida por Jorge Castanheira recebe críticas abertas de dirigentes de escolas como Beija-Flor e Mocidade Independente de Padre Miguel. Na pré-temporada, especulou-se que uma consultoria ligada ao Rock In Rio poderá apresentar um novo modelo de organização para a festa para 2020.

Em meio a este clima, as escolas se preparam para um dos desfiles mais indefinidos dos últimos anos. Não há uma favorita destacada. Nesta primeira noite, candidatas de peso estarão na Sapucaí, como a campeã Beija-Flor, o Salgueiro, e a Unidos da Tijuca. Imperatriz Leopoldinense e Viradouro podem surpreender. A Grande Rio virá disposta a se reabilitar do fracasso do ano passado e o Império Serrano, disposto a dar uma guinada em sua trajetória e voltar a ser protagonista.

Império Serrano

Uma das mais tradicionais agremiações do Carnaval carioca, o Império Serrano, com nove títulos em sua galeria, tentará permanecer no Grupo Especial com uma aposta ousada: a adaptação para samba-enredo de "O que é o que é", um dos maiores sucessos da carreira de Gonzaguinha. Última colocada em 2018 e salva pela anulação do rebaixamento, a escola de Madureira encara o desfile de 2019 como uma possibilidade de voltar a ser protagonista. Porém, os preparativos foram marcados pela falta de recursos. O barracão da escola foi um dos mais atrasados da Cidade do Samba.

Como trunfos, além da ousadia do enredo de Paulo Menezes, o Império conta com a popularidade de seu samba-enredo, que foi muito bem recebido pelo público no ensaio técnico. Outro trunfo é a bateria de Mestre Gilmar, sempre entrosada e moderna na medida certa.

Unidos do Viradouro

Campeã da Série A em 2018, a Viradouro volta ao Grupo Especial depois de três anos de afastamento. Campeã em 1997, a escola de Niterói tem como principal credencial a contratação de Paulo Barros, que retorna a comandar o barracão da agremiação depois de 11 anos e elaborou o enredo "Viraviradouro", que traz uma mensagem de resgate dos bons sentimentos perdidos na infância por meio dos contos de fadas. Além de Barros, a Viradouro repatriou Mestre Ciça, que volta a comandar a bateria após uma passagem premiada pela União da Ilha.

Com um forte investimento de seu patrono e patrocínio da prefeitura de Niterói, a Viradouro foi uma das poucas escolas que não teve problemas para cumprir seu cronograma de confecção de alegorias de fantasias. Escorada em um forte time, que conta com o intérprete Zé Paulo Sierra, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Julinho e Rute e a comissão de frente de Alex Neoral, a Viradouro dificilmente estará na parte de baixo da tabela. O objetivo é estar entre as primeiras colocadas.

Acadêmicos do Grande Rio

Penúltima colocada em 2018, a tricolor de Duque de Caxias escapou do rebaixamento em 2018 por conta da mudança no regulamento pedida por seus dirigentes - o que provou sua força nos bastidores da Liesa. Neste Carnaval, a Grande Rio espera dar a volta por cima com um enredo cujo mote é justamente a virada de mesa que a beneficiou. "Quem nunca...? Que atire a primeira pedra", dos carnavalescos Renato Lage e Márcia Lage traz uma mensagem de que a educação é fundamental para que as pequenas transgressões do cotidiano sejam coisa do passado.

O time da Grande Rio encontra-se bem modificado em relação ao ano passado. Para começar, a escola trouxe de volta Thiago Monteiro, o diretor de Carnaval que levou o Tuiuti ao segundo lugar em 2018. Para a comissão de frente, contratou o casal Hélio e Beth Bejani, que estavam no Salgueiro. Nos demais segmentos, promoveu uma renovação: a bateria agora é comandada por Mestre Fafá; a porta-bandeira é Taciana Couto e o intérprete é Evandro Malandro. O desafio da Grande Rio é apagar a má impressão do ano passado e tentar reencontrar seu caminho dentro do Carnaval carioca.

Acadêmicos do Salgueiro

A Academia do Samba passou por um pré-Carnaval conturbado. Durante sete meses viveu uma verdadeira guerra judicial pela sua presidência entre a ex-presidente Regina Celi Fernandes e o atual, André Vaz. A alternância de liminares e recursos travou os preparativos do Salgueiro. Os trabalhos começaram a andar efetivamente nos dois últimos meses, quando Vaz assumiu de vez o comando da escola.

O carnavalesco Alex de Souza comandou os trabalhos que ,em tempo recorde, conseguiu propiciar o desenvolvimento do enredo "Xangô", há muitos anos ansiado pelos torcedores da escola. Apesar dos percalços, a expectativa é de que o Salgueiro faça um bom Carnaval. Apoiado pelo samba-enredo, tido como um dos melhores do ano, tem um time bastante forte em todos os quesitos. E, a seu favor, ainda conta a mística. Historicamente, quando tem dificuldades em sua preparação, o Salgueiro se supera e conquista o título. Foi assim em 1993 e 2009, as duas últimas conquistas.

Beija-Flor

A campeã de 2019 entra na avenida, ao contrário de outras oportunidades, sem a aura do favoritismo absoluto. Após a vitória, perdeu o diretor de Carnaval e Harmonia Laíla, que foi para a Unidos da Tijuca. A azul e branca de Nilópolis pisará na Sapucaí disposta a mostrar que é capaz de manter o bom nível de desfiles sem o seu super-diretor.

Para se manter no topo, a Beija-Flor aposta no enredo "Quem não viu, vai ver... as fábulas de um Beija-Flor", desenvolvido pela Comissão de Carnaval e com a participação decisiva do coreógrafo Marcelo Misailidis. Ao longo dos cinco setores a história de 70 anos da escola será exaltada - o que, certamente, será mais um aditivo a um dos contingentes mais apaixonados e empolgados do Carnaval carioca. Com um time que joga junto há muitos anos, a Beija-Flor sempre é postulante ao título - apesar de nunca ter vencido quando desfilou no domingo.

Imperatriz Leopoldinense

A verde, branca e ouro de Ramos resolveu tomar um banho de loja para 2019. Sai de cena os temas históricos e desfiles luxuosos e entra o visual clean e a temática cotidiana com toques de irreverência. Com o enredo "Me dá um dinheiro aí", desenvolvido por Mário Monteiro e Kaká Monteiro, a Imperatriz pretende voltar a desfilar entre as campeãs - o que não ocorre desde 2016.

Com um samba-enredo irreverente, que teve um ótimo desempenho no ensaio técnico, a Imperatriz promete se livrar do rótulo de escola "certinha" e se comunicar com o público. Pode ser um contraponto interessante da noite, já que desfilará entre duas escolas que têm sambas-enredos de linha mais tradicional. A conferir.

Unidos da Tijuca

Após o acidente em seu desfile em 2017, a Unidos da Tijuca teve um Carnaval sabático em 2018. Passou de forma discreta e correta e ficou em sétimo lugar. Para este ano, as coisas mudaram. A Tijuca se qualificou e parte como uma das favoritas para reconquistar o título que lhe escapa desde 2014. A principal contratação foi a chegada do diretor Laíla, que, de cara, conseguiu definir como diretriz a escolha de um bom samba-enredo. Missão cumprida: o samba da Tijuca é tido como um dos melhores do ano.

Com um enredo sobre a relação da humanidade com o pão, com forte viés religioso e social, a Tijuca virá com uma estética um pouco mais aproximada com os tempos de Laíla na Beija-Flor. E isso se deve à chegada de Fran Sérgio na Comissão de Carnaval formada por Annik Salmon, Helcio Paim e Marcus Paulo. A Tijuca também aposta em revelações: trouxe a porta-bandeira Raphaela Caboclo, que estreou no Especial no ano passado pelo Império Serrano e tem a comissão de frente sob os cuidados de Jardel Augusto Lemos, que se destacou no Grupo de Acesso nos últimos Carnavais.