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Anderson Baltar


Mangueira e Vila Isabel se destacam na segunda noite do Grupo Especial

Bruna Prado/UOL
Desfile da Mangueira Imagem: Bruna Prado/UOL
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

Especial para o UOL, no Rio

2019-03-05T06:42:20

05/03/2019 06h42

Sem chuva e com arquibancadas lotadas, a noite de ontem confirmou a tradição e teve desfiles, num apanhado geral, de nível muito superior aos de domingo. Em um primeiro patamar, Estação Primeira de Mangueira e Unidos de Vila Isabel se credenciam com mais força para disputar o campeonato.

Portela e Mocidade Independente de Padre Miguel correm por fora. São Clemente, Paraíso do Tuiuti e União da Ilha também fizeram boas apresentações, mas apresentaram fragilidades, respectivamente, nos quesitos harmonia, evolução e samba-enredo.

São Clemente

Reeditando o samba do Carnaval de 1990, "E o samba sambou", a amarela e preta da Zona Sul fez uma crítica ao Carnaval dos tempos de hoje, excessivamente comercial e distanciado do povo. E conseguiu passar o seu recado de forma muito contundente. Desde a comissão de frente, que trazia os presidentes das escolas salvando a Grande Rio e o Império Serrano do rebaixamento no último Carnaval, até o último carro, em que os carnavalescos das escolas do Grupo de Acesso protestaram contra o corte de verbas, a São Clemente fez um desfile divertido e satírico na medida certa.

O enredo foi muito bem defendido e teve fácil leitura. As fantasias, leves, propiciaram uma evolução tranquila dos componentes. O ponto fraco do desfile foi a frieza do contingente da São Clemente, que poderia ter feito o desfile chegar a uma explosão que não ocorreu. De toda forma, a São Clemente sai da avenida com a missão cumprida e, nas condições normais de temperatura e pressão, completamente despreocupada em relação ao risco de rebaixamento.

Unidos de Vila Isabel

A Vila Isabel foi uma das escolas que mais investiram para este Carnaval. E a expectativa de um desfile grandioso se confirmou. Com um conjunto alegórico impressionante no gigantismo e na riqueza de detalhes, a Vila Isabel deslumbrou o público com muito luxo para contar a história da cidade de Petrópolis. O carro abre-alas, com três chassis, trazia carruagens descomunais. A alegoria que marcava a presença dos índios coroados, primeiros habitantes da região, chamou a atenção pelos movimentos faciais da escultura principal.

As fantasias, de porte e bem confeccionadas, dialogaram perfeitamente com as alegorias. Porém, a Vila Isabel teve problemas justamente nos quesitos em que costuma ser mais forte: harmonia e evolução. O samba  apenas mediano não contagiou a avenida. E, refém do gigantismo, os componentes não conseguiam sambar com desenvoltura. Na reta final, a escola precisou correr para chegar no tempo máximo de 75 minutos. E a missão não foi cumprida. A escola estourou o prazo em um minuto e perderá um décimo na apuração. Se as falhas podem prejudicar na disputa pelo título, dificilmente a Vila Isabel não estará em uma das primeiras posições.

Portela

Homenageando Clara Nunes, a Portela entrou na avenida nos braços do povo, que a aguardava ansiosamente. Porém, à medida que o desfile foi se desenrolando, o entusiasmo do público foi arrefecendo com a plástica modesta na comparação com a escola anterior e com os problemas de evolução. Extremamente pesado, o carro abre-alas teve dificuldades para se locomover ao longe de todo o desfile, formando várias vezes um buraco em relação à comissão de frente e ao casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marlon Lamar e Lucinha Nobre. Por sinal, nestes dois quesitos, a Portela saiu-se bem. A comissão, de Carlinhos de Jesus, arrebatou o público com a presença da cantora Mariene de Castro. Outro ponto alto foi o canto uníssono de seus componentes.

Os problemas de evolução foram uma constante no desfile da Portela que, por conta dos percalços com seu primeiro carro, ficou parada na pista por vários momentos e teve que acelerar a evolução no final do desfile. A plástica, irregular e com falhas de acabamento, também deverá causar danos na apuração. A Portela, que chegou com pinta de campeã, deverá adiar por mais um ano o sonho do campeonato solo.

União da Ilha

A tricolor apresentou as belezas do Ceará tendo pano de fundo as obras de Rachel de Queiroz e José de Alencar. Abusando de materiais rústicos, trazidos diretamente do Nordeste, a Ilha apresentou um visual agradável. O carro abre-alas, que representava a lenda do dragão de Ipu, impressionou pelo tamanho e a sua escultura principal chegou a ficar presa na torre de TV, sendo solta por um fotógrafo. A comissão de frente arrancou muitos aplausos com o surgimento de um componente representando Padre Cícero voando em uma plataforma pela pista.

O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Phelipe Lemos e Dandara Ventapane arrancou muitos aplausos do público com sua performance segura, que deverá conquistar boa pontuação para a escola. O ponto fraco do desfile foi a parte musical. O samba-enredo evidenciou sua fragilidade e proporcionou um desfile frio de uma escola caracterizada pela alegria e comunicação com o público. Porém, o desfile, tecnicamente, não apresentou nenhuma falha grave. A Ilha certamente ficará no pelotão intermediário, sem correr risco de rebaixamento.

Paraíso do Tuiuti

Uma das escolas mais aguardadas do desfile, a azul e amarela de São Cristóvão começou com uma das melhores comissões de frente do Carnaval 2019. Coreografada pelos estreantes Felipe Moreira e Élida Brum, divertiu o público ao trazer o povo sofrido do Ceará, cansado dos políticos tradicionais, elegendo o Bode Ioiô, tema do enredo, sendo eleito e empossado presidente. Abusando do bom humor em alegorias e fantasias, o carnavalesco Jack Vasconcelos manteve o padrão do Carnaval passado com um enredo de fácil leitura.

O samba teve bom desempenho e foi bem cantado pela escola. A bateria de Mestre Ricardinho potencializou ainda mais a animação da escola e fez o público vir abaixo com suas bossas. O Tuiuti trouxe, como de hábito, a crítica política em seu último setor, com uma ala em que coxinhas traziam armas em suas mãos. A escola se encaminhava para um final de desfile tranquilo quando o último carro teve problemas na concentração. A parte lateral da decoração foi destruída para que a alegoria conseguisse entrar na avenida. A demora fez surgir um buraco considerável entre a ala da frente e o carro, que entrou na pista em alta velocidade. Com isso, a escola teve que acelerar o passo para encerrar o desfile, comprometido nos quesitos evolução e alegorias e adereços. Mesmo assim, o Tuiuti é forte na briga para voltar no Sábado das Campeãs.

Estação Primeira de Mangueira

Com o samba mais badalado do Carnaval 2019, a Mangueira entrou na avenida com pinta de favorita. E, ao longo de sua apresentação, confirmou esta condição. Com um desfile de visual irrepreensível e evolução emocionada, a verde e rosa saiu da Sapucaí aos gritos de campeã. Desde os primeiros momentos, a Mangueira arrebatou o público. Na comissão de frente, assinada por Rodrigo Negri e Priscila Mota, os personagens da história oficial são anões e têm seus livros rasgados por índios e negros. A cantora mirim Cacá Nascimento, que participou da gravação do samba ainda nos tempos de disputa, surgiu com um livro novo, nas cores da Mangueira e abriu a palavra "presente", levando a plateia ao delírio. O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Matheus Olivério e Squel Jorgea, teve um desempenho irrepreensível.

A bateria de Mestre Wesley foi outro destaque e tem tudo para conseguir a nota máxima dos quatro jurados - o que não acontece desde 2003. Com uma bossa em que uma marcha militar vira um típico batuque africano, fez as arquibancadas explodirem em delírio. Ao final, um bandeirão do Brasil nas cores da escola, carregado por ativistas, clamava pela igualdade. Com um desfile competente e emocionante, a Mangueira está muito forte na briga pelo título.

Mocidade Independente de Padre Miguel

Encerrando o desfile, a Mocidade tinha a missão ingrata de não ser o anti-clímax após o desfile da verde e rosa. E se desincumbiu muito bem desta tarefa. Com um enredo sobre a relação do ser humano com o tempo, a verde e branca da Zona Oeste fez um desfile muito competente, com os componentes cantando e flutuando pela pista da Sapucaí. O samba-enredo, um dos melhores do ano, contagiou os componentes e foi turbinado pelo ótimo desempenho da bateria de Mestre Dudu.

O enredo foi bem descrito em alegorias e fantasias e deve garantir boas notas, assim como o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marcinho e Cristiane Caldas. Uma das marcas dos últimos desfiles da escola, a comissão de frente, de Jorge Texeira e Saulo Finelon, arrancou aplausos com a encenação de uma máquina do tempo. O calcanhar de Aquiles da Mocidade foi o acabamento de alegorias e fantasias. Com os preparativos atrapalhados por problemas financeiros, a escola fez um verdadeiro mutirão com seus torcedores no barracão para concluir seu desfile no tempo certo. Conseguiu, mas sem o capricho necessário. Apesar dos pesares, a Mocidade sai da Sapucaí de cabeça erguida e deverá voltar no Desfile das Campeãs.
 

Qual foi a melhor escola da segunda noite de desfiles no Rio de Janeiro?

Resultado parcial

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Júlio César Guimarães/UOL
17,30%
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