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Anderson Baltar


São Clemente levará "o conto do vigário" para a Sapucaí em 2020

Divulgação
Imagem: Divulgação
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

2019-04-23T14:36:55

23/04/2019 14h36

A caminho de seu terceiro Carnaval na São Clemente, Jorge Silveira mostra-se realmente disposto a recuperar a identidade da amarela e preta de Botafogo. Dando sequência ao desfile de 2019, o carnavalesco promete aprofundar a verve satírica que deu fama à escola nos anos 1980. Com o enredo "O conto do vigário", lançado no último domingo (21), a São Clemente pretende, com muito bom humor, relatar a condenável prática de aplicar golpes que, infelizmente, até hoje perdura.

Cacifado por um desfile aclamado por público e crítica, apesar de detonado pelos jurados, Jorge Silveira parte para 2020 com vontade redobrada de, além de honrar as tradições da escola, conduzir a São Clemente a um bom resultado. "Infelizmente, ainda há muita má vontade com a gente. Mas, isso só me motiva a fazer ainda mais. Esperem um desfile ainda mais engraçado e mordaz do que o de 2019", promete.

Você apostou todas as suas fichas no Carnaval de 2019 como resgate da identidade da São Clemente. Qual o balanço que você faz?

Ao colocar na balança o Carnaval de 2019, vejo mais os aspectos positivos. O maior tesouro que a escola carrega para 2020 é mudar a percepção que martelava na cabeça dos haters da internet de que a São Clemente entra na avenida para ser apedrejada e a de que o público não a queria ver no Grupo Especial. Entre o desfile e a apuração, recebi mais de 2,5 mil mensagens nas minhas redes sociais dizendo que a São Clemente era uma escola necessária e seu discurso era fundamental. Então, a idenficação do público com o desfile é o maior legado que a escola carrega.

Mas aconteceram muitas críticas pela escolha pela reedição. Você acha que virou esse jogo?

Ao reconectar a São Clemente com ela mesma, a escola deu uma resposta muito positiva na avenida. A escola comprou o barulho. Levar o enredo foi muito difícil porque a tinha gente na própria escola, no começo, com preconceito e achando que não daria certo. E eu os convenci de que a São Clemente era a única escola que poderia, com esse samba, botar o dedo na ferida e expor os problemas do Carnaval. E só assim, a São Clemente poderia seguir o seu caminho, fortalecendo a sua identidade mais profunda. Graças a Deus, conseguimos dar o nosso recado.

A São Clemente, para muitos, poderia ter voltado nas campeãs. Mas terminou em 12º lugar. Como você encara as notas e as justificativas dos jurados?

Com mais calma, a gente colhe lições do que lê. Mas, por mais que me esforce para me entender, ali tem coisas que não são verdades. É um peso muito exagerado em cima da São Clemente. Por exemplo, um jurado da primeira cabine disse que o elemento da comissão de frente estava inacabado ao mesmo tempo que o da última disse que estava irretocável. E estava tudo pronto uma semana antes do Carnaval. Passamos o pente fino em tudo e não tínhamos como perder pontos nisso. Um jurado de mestre-sala e porta-bandeira tirou pontos porque usamos o Michael Jackson e a Madonna nas fantasias. Ele não entendeu a ironia da desvalorização do sambista que queríamos mostrar. Eu fico triste, mas a vida continua e preciso pensar em 2020.

Você acha que há má vontade com as escolas de menor peso político?

Sem dúvida. Pegaram pesado com a gente e com a União da Ilha. Eu tenho a sensação de que, todo ano, tenho que fazer um desfile digno de voltar nas campeãs para poder ficar no grupo. É muito injusto. Com todo o respeito, fizemos um Carnaval para voltar entre as seis e não fomos avaliados.

O que você já pode adiantar sobre o enredo de 2020?

É uma crônica de costumes brasileiros, com fatos documentados pela imprensa ao longo dos anos, mostrando como a boa fé pode ser explorada pelos golpes. Existem muitas versões para o surgimento do termo "conto do vigário". Mas escolhemos partir da história que é contada em Ouro Preto. Uma imagem de Nossa Senhora foi doada à cidade no século 18 e estava sendo disputada por duas paróquias. E, para definir onde a imagem seria abrigada, um dos vigários deu uma ideia. Ele propôs que se amarrasse a imagem da santa em um burrinho e, para onde ele fosse, a igreja seria escolhida. So que o povo não sabia que o burrinho era dele. A partir de então, segundo essa teoria, de que quando alguém é enrolado, caiu no conto do vigário. Isso abre toda a coleção de vigarices que contaremos nos cinco setores do desfile, até chegar aos dias atuais.

Nesta semana, a Acadêmicos de Vigário Geral, escola que acabou de ascender para o Grupo de Acesso, divulgou o mesmo enredo. Como você se sentiu com isso?

Tudo começou porque divulgamos que iríamos anunciar o enredo no domingo, mas, durante a semana, uma coluna de jornal publicou. A informação vazou e não sabemos como. No dia seguinte, a Vigário Geral lançou o enredo. Coincidência. Sim. Mas, com certeza, posso afirmar que a pesquisa já havia começado há um bom tempo. Encontrei um livro ("Os contos e os vigários", de José Augusto Dias Júnior) e, a partir dele, comecei a encontrar outras fontes e histórias. A sinopse está pronta e será lançada no dia 11 de maio, assim como as fantasias já estão sendo desenhadas. Não tem problema esse enredo passar mais de uma vez. Tem vigarice demais para vários enredos (risos).