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Anderson Baltar


Candidato à presidência da Liesa defende Grupo Especial com 14 escolas

O empresário Rodrigo Pacheco, candidato à presidência da Liesa - Eduardo Hollanda
O empresário Rodrigo Pacheco, candidato à presidência da Liesa Imagem: Eduardo Hollanda
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

05/07/2019 18h08

Como consequência direta da terceira virada de mesa consecutiva no Carnaval carioca, o presidente da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba), Jorge Castanheira, anunciou, no dia 3 de junho, que renunciará ao cargo.

Ainda sem definição oficial sobre a situação do rebaixamento da Imperatriz Leopoldinense - uma Assembleia Geral está marcada para a próxima quarta-feira - o mundo do samba assiste ao despontar dos primeiros postulantes à vaga de Castanheira.

Vice-presidente da Mocidade Independente de Padre Miguel, o empresário Rodrigo Pacheco, 34 anos, lançou sua candidatura ao comando da entidade. Nesta entrevista exclusiva, Pacheco fala sobre suas principais propostas e sobre o momento das escolas de samba cariocas.

Por que você quer ser presidente da Liesa?

Acho que o Carnaval precisa ser repensado. Isso não é de hoje. Tenho total condição de acrescentar bastante para um caminho mais moderno e que hoje o mercado exige muito. Precisamos de uma força-tarefa para um melhor posicionamento no mercado. O Carnaval é tido como o maior espetáculo da Terra e não tem feito jus a esta fama.

Como modificar uma marca abalada por três viradas de mesa consecutivas?

Tiro muito como exemplo o que fizemos na Mocidade. Assumimos aqui em 2014 a 23 dias do Carnaval. A marca estava totalmente desacreditada, tínhamos fornecedores que sequer queriam vender à vista para a gente. E hoje a marca é consolidada e só cresce. Isso tem que ser pensado para o coletivo. O Carnaval tem que ser repensado para um novo caminho e isso é possível. O Carnaval do Rio é muito forte e está esquecido, sem seu potencial usado. Tenho alguns projetos para colocar em prática para que a Liesa se desenvolva.

Quais as principais ideias que você pode adiantar?

Por exemplo, a venda de ingressos por fax. Ah, mas há um TAC (Termo de Ajuste de Conduta) com o Ministério Público. Então, vamos lá conversar e mostrar que não há mais condições de se vender frisa por fax, que ninguém mais usa. Virou motivo de piada. Esse ponto precisamos mexer. O julgamento precisa de um curso mais aprofundado, com a presença de quem é julgado. É importante que os profissionais saibam como será avaliado e o julgador precisa entender o que pode ser penalizado. Temos que padronizar o julgamento. E também não podemos esperar um mês para digitalizar e divulgar as justificativas. No máximo na semana seguinte à apuração as justificativas serão divulgadas, para dar transparência ao resultado.

A escolha dos jurados continuaria ser uma prerrogativa do presidente da Liga?

A princípio não vejo problemas nisso, até porque sempre achei muito coerente o posicionamento do Jorge Castanheira (presidente da Liesa) quanto ao corpo de jurados.

Te faço essa pergunta porque você, ao contrário do Castanheira, é uma pessoa identificada com uma escola. E já tivemos, na história do Carnaval, momentos em que o presidente da Liga pertencia a uma escola e os resultados eram contestados.

De forma alguma isso aconteceria. Buscaria um diálogo com as escolas. Hoje já funciona assim e as escolas tem poder de veto. Não adianta trazer um júri novo. Temos ótimos jurados, bem qualificados e que atingiram a maturidade para fazer o trabalho. Eu só quero padronizar os critérios de julgamento para cada quesito, porque temos um ou outro que descontam pontos por coisas subjetivas. Precisamos dar mais conhecimento técnico aos julgadores. Casais de mestre-sala e porta-bandeira, carnavalescos, coreógrafos, diretores de bateria precisam ter contato com os jurados e entender o que deve ser feito para atingir a nota 10.

A Rede Globo é uma parceira importante do Carnaval. Você acha que é possível buscar outras parcerias que não colidam com os interesses da emissora?

Confesso que para 2020 ficaria em cima, mas precisamos de pessoas qualificadas para fazer um estudo aprofundado de como podemos implementar isso. A Globo tem um formato padrão e que nunca foi discutido. Temos que buscar algo próximo ao Rock In Rio, que tem seus patrocinadores e a Globo faz a transmissão e tem suas marcas atreladas. Podemos evoluir bastante nesta discussão. A Globo é uma parceira fundamental, não só pelo financeiro, mas pelo alcance e visibilidade. Mas hoje, o formato que nos é entregue não deixa que as escolas explorem isso. Por exemplo, quando uma escola negocia um patrocinador e só pode oferecer a camisa do empurrador de carro como mídia, ela tem muitas dificuldades em fechar. Precisamos criar novidades, como uma área de mídia no final da avenida, onde os integrantes das escolas seriam entrevistados e os patrocinadores das escolas poderiam usar suas marcas. Placas de publicidade poderiam ser colocadas nas pistas. Existem várias possibilidades. Temos que melhorar as condições para que as escolas possam captar. E tenho certeza de que poderemos encontrar um acordo com a Globo.

Como presidente da Liga, você exigiria a transmissão do desfile acontecesse na íntegra?

Com certeza. Acho que conseguiríamos um acordo, nem que fosse com uma transmissão da primeira escola pela internet. A Globo é uma grande parceira, queremos estreitar essa parceria, mas não podemos aceitar tudo que é colocado. Precisamos conversar mais com a Globo. Ela pode dar uma cobertura maior das escolas, podemos fazer eventos em parceria e isso hoje não é explorado.

Assumindo a Liga, você terá pouco mais de seis meses para tocar o Carnaval. Você conta com alguma espécie de verba da prefeitura?

Não. Está muito claro que ela não quer apoiar.

Há tempo de se buscar algum esquema que possa suprir essa lacuna?

Há. No ano passado, o Gabriel David (filho do presidente de honra da Beija-Flor, Anísio Abraão David) trouxe uma proposta de parceria com uma empresa de marketing para captar verbas para as escolas. Nós e várias escolas foram favoráveis, mas o projeto não andou porque o presidente Castanheira não quis. Precisamos buscar parcerias com grandes empresas para que o espetáculo não seja afetado. Nenhuma escola quer ser dependente de verba pública, mas as condições atuais não são favoráveis. No último Carnaval conseguimos botar o desfile na rua por causa da parceria com a Light, buscada pelo governador Witzel. Precisamos retomar essa conversa para ver se este patrocínio se repetirá para 2020. A prefeitura fala em privatizar a passarela. Isso é bom ou ruim? A passarela precisa de reformas, a experiência para o público não é boa. O governo tem dinheiro para fazer as obras? De repente, a privatização do espaço pode ser um caminho. Precisamos participar desta conversa. Há muita coisa a se fazer, mas a Liesa está parada.

A Liesa está parada por conta do imbróglio que envolve a Imperatriz Leopoldinense. Em 2017, você votou contra a virada de mesa. Agora, mudou de posição. Por quê?

Não é mudança de posição. Estou seguindo a mesma linha de raciocínio. Em 2017, fui contra, sozinho, e falei que o fato abriria um precedente perigoso. Porém, penso: por que a Imperatriz tem que ir para o Grupo de Acesso se as outras, nos anos anteriores não foram?

Mas, se for assim, nunca mais haverá rebaixamento...

Só que precisa se pensar em um outro formato de regulamento para deixar isso amarrado de forma interna.

Qual formato?

Das 14 escolas, por exemplo. A Cidade do Samba tem 14 barracões e neste ano tivemos 14 escolas. Por que ficar remando contra a maré rebaixando duas para chegar a 12 porque a Globo acha que tem que ser 10? Quem determina o tamanho do nosso espetáculo somos nós. Temos que fechar o Grupo Especial com 14 escolas, com o rebaixamento de uma.

E se a Mocidade, no ano que vem, ficar em último lugar? Será rebaixada?

Vai descer. O regulamento será discutido e colocado em prática. O que tem acontecido nos últimos anos para evitar problemas? Nada. O regulamento é o mesmo, com mudanças superficiais. Em 2017, a Mocidade teve um problema por conta do regulamento e o título foi dividido. O que foi feito no regulamento para evitar que aquilo se repetisse? Pouca coisa. Se colocou uma palavra a mais no texto. Internamente, precisamos trabalhar mais. A Liga fica um bom tempo sem discutir tudo aquilo que surge como problema perto do Carnaval e aí não tem mais tempo hábil para resolver. Temos que atuar logo depois do desfile para solucionar as falhas de regulamento. Não houve uma mudança de posicionamento por conta do rebaixamento. Em 2017, fomos contra a virada de mesa, mas, nos anos depois, fomos a favor por conta do direito adquirido. Concordo que isso tem que parar, mas tem que ser acertado internamente na Liga.

Se essa movimentação para salvar a Imperatriz tivesse ocorrido pela São Clemente, você acha que teria prosperado?

Digo por mim. Não vejo qualquer distinção entre qualquer uma das escolas. São todas grandes. Falo de direito adquirido. Te digo: se fosse com a Mocidade, eu brigaria também.

Todos citam o caso de São Paulo, onde o Vai Vai acabou de ser rebaixado. Isso não será um estigma que o Carnaval do Rio levará anos para se livrar?

Claro! Por isso digo que temos que pensar em um reposicionamento de marca. A Liga perdeu toda a credibilidade por conta disso tudo. Mas faço questão de registrar que isso não acontece de agora, mas vem de 2017 e ocorre porque a Liga não tomou as providências para que isso não acontecesse. Precisamos de uma mentalidade nova, um trabalho novo, que consiga apresentar a mudança.

Mas a Liga ainda tem muita gente da velha guarda, que ainda é muito influente. Como lidar com isso em um momento em que está rachada?

Quando o Gabriel David trouxe o projeto de marketing, o pessoal da velha guarda topou. Eles sabem que o Carnaval precisa estar reposicionado no mercado. Eles enxergam que as coisas precisam evoluir. Ele viram isso tudo crescer e sabem que é importante se adaptar aos novos tempos. E eu vou sentar com todos, ouvir e conversar. Uma administração mais moderna será a solução para mudar a forma como a Liga dialoga com o público. Precisamos investir em comunicação, em redes sociais.

O presidente da Liesa, Rodrigo Pacheco, banca a Imperatriz no Grupo Especial em 2020?

Banco um Carnaval com 14 escolas daqui para a frente. Hoje, o foco da discussão é coletivo. Temos que começar a planejar o Carnaval 2020 com a TV e todas as outras instâncias. O caso da Imperatriz é superado. Ao discutir se a Imperatriz desce ou não desce, vamos gastar energia e não vamos resolver os problemas do Carnaval.

Como presidente da Liga você terá que pagar os R$ 750 mil de multa do TAC assinado com o Ministério Público.

Deveria ter sido pago. Descumprir uma cláusula contratual causa isso. O Ministério Público está certo em cobrar. Mas queremos conversar para evitar que não se mexam mais na regra depois do jogo jogado. Inclusive quero trazer o MP para acompanhar a discussão sobre o novo regulamento.

Ficando a Imperatriz no Grupo Especial, como convencer o mercado a investir e garantir que as regras serão obedecidas?

Através de um regulamento repensado, reformulado e que estabeleçam regras claras e de forma coerente. Sempre com diálogo. O problema é o seguinte: perdeu-se o diálogo dentro da Liga. Por que ele se perdeu? Porque em 2017 se permitiu a virada de mesa. Na época eu disse que era para ser analisado pelo Departamento Jurídico e discutido. Mas não foi assim, fizeram de afogadilho.