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Ensaio de "cores trocadas" da Rosas tem pedidos contra discriminação

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL, em São Paulo

10/01/2019 12h41

As polêmicas de Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do Governo Bolsonaro, promoveram involuntariamente ao menos uma escola de samba. Afinal, azul e rosa são exatamente as cores da Rosas de Ouro. 

A agremiação da Zona Norte paulistana abriu as portas na noite desta quarta-feira (09) para um ensaio de Carnaval diferente. Pelo menos em relação aquilo que Damares aparentemente pensa sobre vestuário. A escola pediu que os homens fossem de rosa e as mulheres de azul e, fora um ou outro desavisado (ou sem peças nestas cores disponíveis no armário), o público aderiu ao pedido. 

A iniciativa pode parecer uma simples jogada espirituosa, mas esconde uma questão mais séria. Um dos motivos que fez a direção da Rosas de Ouro promover o ensaio foi a preocupação com componentes realmente amedrontados pela fala da ministra. "A gente lida com algumas pessoas muito simples. Gente que pode realmente acreditar que essa história de menino ter que usar azul e menina usar rosa é verdade, que é uma lei. Chegaram a me perguntar isso. Ou seja, não é piada, é uma coisa muito séria", diz a presidente da escola, Angelina Basílio. 

Simon Plestenjak
Angelina Basílio, presidente da Rosas Imagem: Simon Plestenjak
Ela fala sobre o assunto enquanto folheia um caderno com ilustrações dos personagens que desfilarão pela escola este ano. A Rosas de Ouro contará a história da Armênia, e Angelina para em uma página com o desenho de um guerreiro. "Olha isso. Um dos nossos personagens será um guerreiro rosa. Como é que a gente pode concordar com um negócio desse (a fala da ministra)?".  

"Dentro do nosso enredo, ele é um guerreiro assírio. E é rosa, bem mais rosa do que está aí no papel", explica André Machado, carnavalesco da Rosas de Ouro. "A ministra Damares acabou sem querer colocando nossa escola em evidência."

Um dos mais indignados era Ricardo dos Santos. Ele chegou a mandar um áudio para Angelina quando o vídeo de Damares veio à público. Exaltado, questionou que história era aquela. Hoje com 31 anos, gay assumido desde os 15, para ele "já não basta termos um presidente que idolatra um torturador, agora temos uma ministra que discrimina."

Frequentador assíduo de escolas de samba tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, onde tem parentes, Santos acredita que o Carnaval promove o ambiente perfeito para combater a discriminação. "Sempre me senti acolhido nesse meio, nunca tive problemas."

O que ele faria se encontrasse Damares? "Sambaria na frente dela até acabar com o preconceito."

Dona do primeiro trio elétrico a sair na parada gay de São Paulo, e de um bloco de rua, a drag queen Salete Campari sabe como o Carnaval pode ajudar na discussão da inclusão. Sobre a ministra, ela só espera que Damares perceba que o Brasil tem "problemas maiores" do que a cor das roupas e que, "independentemente de ela ser evangélica, é preciso atuar de forma laica". 

"Se eu encontrasse a ministra aqui no ensaio, a aconselharia a tratar as pessoas igualmente, não importa a religião ou orientação, e a se cercar de pessoas que saibam trabalhar."