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Blocos de rua


Para fugir da muvuca, blocos secretos não divulgam os dias de desfile

Foliões iluminam as ruas do Rio de Janeiro no bloco Minha Luz É de Led - Marco Antonio Teixeira/ UOL
Foliões iluminam as ruas do Rio de Janeiro no bloco Minha Luz É de Led Imagem: Marco Antonio Teixeira/ UOL

Michel Alecrim

Colaboração para o UOL, no Rio

26/01/2019 04h00

A origem de quase todos os blocos parece igual. Amigos, vizinhos e parentes se reúnem, geralmente numa conversa de bar, e decidem criar uma agremiação para extravasar a alegria e a irreverência durante o Carnaval. Mas a grandiosidade que a festa tomou no Rio de Janeiro nos últimos anos levou uma parte desses grupos a tomar um caminho próprio. Eles fogem das multidões, preservam um caráter mais intimista e até exclusivo, sem deixar de desfilar nas ruas. Os foliões participantes fazem segredo com relação a locais, datas e horários de desfiles, ou às vezes só os divulgam na hora H.

O fenômeno é mais comum nas ruas do centro e da zona sul do Rio, onde há maior concentração de foliões. Nessas regiões, as vias públicas ficam tomadas de pessoas que passam o dia entre uma batucada e outra, procurando sempre onde está mais animado, onde as fantasias são mais divertidas e até os pontos de melhor "azaração". Do nada, uma banda pode atrair milhares de adesões.

Justamente no meio desse fervo, surgiu o bloco Desce Mas Não Sobe, formado por moradores de uma ladeira entre os bairros do Catete e da Glória. No início, há dez anos, o desfile era praticamente familiar e acontecia numa rua estreita formada só de casas e prédios pequenos. Mas, no Carnaval de 2012, o sossego acabou. O espaço foi tomado por uma massa incontrolável, carros foram depredados, pessoas subiam nas janelas e urinavam nos cantos.

A partir de então, o bloco entrou para o rol dos secretos, e a comunicação entre os membros se dá pelo celular. Apesar disso, uma parte do cortejo entra pela via principal e atrai muitos desavisados que o acompanham até a Praça Paris. Não falta pressão para a divulgação, mas os integrantes ainda preferem o segredo.

O Minha Luz É de Led adotou a mesma estratégia. O bloco se destaca pelo uso de fantasias iluminadas, grande parte delas compostas por luzes compradas no Saara, tradicional área de comércio popular do Rio. A batida eletrônica também diferencia o som do grupo, que, apesar da fama já conquistada, não tem recursos para gerir a invasão das multidões. Segundo os organizadores do bloco, encabeçado por sete DJs com atividades paralelas, "ficou inviável divulgar hora e local com antecedência, pois não seria possível dar a experiência que o público do LED merece".

O grupo costuma fazer ensaios em locais fechados com boa divulgação, até para arrecadar fundos, mas vai continuar no sigilo durante o Carnaval deste ano ou só dará as coordenadas do desfile pouco antes de sair. "Trabalhamos para dar o máximo de qualidade sonora para a multidão, mas essa multidão tem limite, pois nossa produção ainda é quase 100% independente", afirmaram os organizadores por e-mail. 

Boi Tolo desfila pelas ruas do Rio - Luciola Villela/UOL
Boi Tolo desfila pelas ruas do Rio
Imagem: Luciola Villela/UOL

Enquanto ser grande é a meta de muitos blocos, ter tamanho restrito é questão de resistência para esses que seguem sem disparar a agenda aos quatro cantos do mundo. O Boi Tolo, que costuma desfilar no centro, orgulha-se de não ter tomado as dimensões de outros que nasceram na mesma época, há cerca de dez anos.

Para abarcar todas as adesões, normalmente é preciso estrutura de carro de som, banheiros químicos, segurança, o que quase inevitavelmente exige o recurso ao patrocínio e a aplicação de uma gestão quase empresarial. O estilo mais comunitário, em que até as decisões são tomadas em grupo, acaba não combinando com esse Carnaval de resultados que tomou conta dos grandes blocos.

"O Boi Tolo é um bloco mais espontâneo, e ele funciona de acordo com o que os foliões e músicos preferem no momento e das condições da cidade durante o Carnaval, por isso não há divulgação prévia", defende uma participante que preferiu não se identificar.

Com pouco tempo de existência, o Charanga Talismã, que surgiu há dois anos, também tem a preocupação com uma eventual invasão fora do controle. Mas garante que não faz segredo sobre seus ensaios nem sobre seu desfile. No entanto, um certo mistério sempre é feito até que seja disparado o aviso pelos grupos de WhatsApp e pelas redes sociais pouco antes. O Charanga também faz eventos na zona norte, e os locais são os mais variados possíveis, com apresentações de atores, bailarinos e artistas circenses. É uma verdadeira festa, mas a grana do grupo não banca estrutura para milhares de pessoas, apesar de haver apoio de uma marca de cerveja e de uma loja de roupas.

Folião no bloco Pérola da Guanabara, que acontece na Ilha de Paquetá -  Bruna Prado/UOL
Folião no bloco Pérola da Guanabara, que acontece na Ilha de Paquetá
Imagem: Bruna Prado/UOL
Essa estratégia funcionou muito bem também para o Pérola da Guanabara, cujo Carnaval é feito na Ilha de Paquetá, um recanto bucólico em plena Baía de Guanabara. Mas, no ano passado, mesmo com todos os pedidos para que a imprensa não divulgasse a data e o horário, e com o anúncio na internet pouco antes da hora, houve uma invasão com gente saindo pelo ladrão nas barcas que fazem o transporte de passageiros para o lugar. O público foi estimado em 15 mil pessoas, por conta do boca a boca. 

Crescer ou ficar na surdina?

"Como podemos ser chamados de secretos atraindo tanta gente? Hoje em dia, com o WhatsApp a comunicação está muito rápida e não tem como um bloco pequeno se responsabilizar com o que possa acontecer. Acho que o poder público deveria dar um suporte melhor para o Carnaval", afirma o publicitário Guilherme Pecly, 34 anos, um dos organizadores do Pérola, que corre o risco de não participar da folia neste ano por conta da falta de estrutura.

Crescer e aparecer ou continuar na surdina? Esse é o dilema dos blocos secretos que, de alguma forma, ganharam fama no Carnaval carioca. Por alguns anos, o Amigos da Onça bem que tentou se esconder, digamos, mas acabou ficando conhecido demais. A alternativa foi se oficializar e começar a arrecadar também com shows e ensaios. Pode ser o destino de outros, como o Bunytos de Corpo, Saymos do Egyto e Sereias da Guanabara, que estão entre os mais concorridos e descolados do Carnaval carioca. 

A saída mais radical, por outro lado, é mudar de nome a cada ano, até para não ter problema com as autoridades. É assim todos os anos com o grupo que costuma invadir o saguão do Aeroporto Santos Dumont e que já chegou a esbarrar com o prefeito Marcelo Crivella (PRB). O bloco já se chamou Se Melhorar Afunda, Epa Rei, Oh Menage e até Sincreto. Em tempos de acirramento dos ânimos políticos, o segredo também é a alma do negócio numa festa onde a crítica social e às autoridades sempre imperou. No fim das contas, por debaixo dos panos, o Carnaval pode ser mais divertido.

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