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Fantasia não tem a ver com Hitler nem Bolsonaro, diz presidente da Águia

Ismael Toledo/FISESP
Fantasia de Walmir Sparapane, que causou polêmica na Águia de Ouro Imagem: Ismael Toledo/FISESP

Mateus Araújo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2019-02-04T20:09:48

04/02/2019 20h09

A imagem do ator Walmir Sparapane, integrante da Águia de Ouro, vestindo uma fantasia que em muito se assemelhava a Hitler, com uma faixa presidencial do Brasil, tem dado dor de cabeça à escola de samba paulista, ameaçada de boicote nas redes sociais. Internautas usam o vídeo feito durante ensaio técnico, sábado (2), no Anhembi, para acusar a agremiação de ofender o presidente Jair Bolsonaro, associando-o ao nazismo.
 
Segundo o presidente da Águia de Ouro, Sidnei Carrioulo, a situação foi lida de forma errada e distorcida. "Não tem nada a ver com Hitler nem com Bolsonaro", afirma. "E se a pessoa observar com atenção vai ver que a suástica [estampada no braço direito da fantasia do integrante] tombava ao contrário e tinha uma tarja de proibido."

Carrioulo diz que não esperava o que aconteceu e nem havia percebido a fantasia antes da repercussão. "As pessoas não querem saber que são mais de 3.000 integrantes [desfilando na escola de samba]. Simplesmente acharam que a gente estava falando de Bolsonaro, mas nem nos ouviram", reclama. "Escolhemos esse tema para o Carnaval desde maio, antes das eleições, e nem sabíamos quem seria o presidente", completa. O integrante, no entanto, será afastado. 

Vencedora do Grupo de Acesso do Carnaval de 2018, a Águia de Ouro volta ao Grupo Especial neste ano (confira a programação dos desfiles) com o enredo "Brasil, eu quero falar de você! Que país é esse!", uma crítica à exploração das riquezas do país e à corrupção. "Não falamos no nome de ninguém, mas mostramos as falcatruas que vêm desde Cabral até 2018", explica o presidente. 

O Carnaval da escola da Pompeia (zona oeste) é assinado por Fran Sérgio, Beth Trindade, Sérgio Caputo Gal e pelo carioca Laíla, da Unidos da Tijuca, no Rio.

Para Sidnei Carrioulo, a "leitura distorcida" da fantasia é "uma caça a petista". Como muita gente achou que a fantasia de Sparapane era crítica ao presidente Jair Bolsonaro, logo apareceram suposições de que a escola teria ligação com a oposição. "Começaram a dizer que somos petistas. Eu não sou petista, mas respeito a democracia. Não posso arrancar, por exemplo, quem é petista da escola; mas o pessoal hoje parece que quer queimar e matar petista", afirma. "E repito: se [a crítica do enredo] fosse algo direcionado a Bolsonaro, eu não ia fugir [de assumir]."

Sparapane era responsável pelo último carro alegórico da escola. "Geralmente, o pessoal das alegorias vai mais produzido. Tem mulheres que vão de vestido, com algum acessório. E ele foi com essa fantasia", conta o presidente. "Como ele estava no final do desfile, deu problema porque, quando eu vi, nem deu mais tempo que fazer alguma coisa."

Sem discriminação

Em um vídeo postado nas redes sociais, o ator Walmir Sparapane reitera a fala do presidente da Águia de Ouro quanto à leitura feita da sua fantasia, que, segundo ele, foi mal interpretada. "Eu vestia uma roupa da época do regime militar, usando essa suástica dentro do símbolo de proibido -o que não foi divulgado e faz toda diferença, porque ficou aparecendo uma apologia à época do nazismo e do fascismo", frisa.

Há 20 anos fazendo caracterização nas alegorias da Águia de Ouro, como ator, figurinista e maquiador, Sparapane garante que as críticas e ofensas a ele e à escola são "infundadas" e "incabíveis". "Eu jamais faria algum tipo de ofensa ou qualquer tipo de discriminação e intolerância a raça, cor, opção sexual ou religiosa. Não é do meu caráter", afirma. "A cada obra como artista -e acho que toda obra é política- eu tento deixar bem clara a minha indignação a qualquer tipo de ditadura. Desde 'mulher de rosa' e 'homens de azul' até as demais crueldades e intolerâncias que a gente vê por aí contra os seres humanos e os direitos humanos."

Em resposta aos comentários do vídeo, Walmir Sparapane voltou a pedir desculpas e disse que Carnaval para ele "não é diversão". "A gente tenta ser jornalístico e retratar a história. Fui o primeiro Jesus a desfilar num sambódromo. Na comissão de frente da Mancha [Verde, no desfile de 2006]. Eu achava que ia ser preso do fim do desfile. Vida de artista tem riscos também. A censura nunca deixou de existir. Isso é ditadura."

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