Topo

CarnaUOL

São Paulo


Vídeo com ritmista da Vai-Vai bomba e a transforma em celebridade do samba

Grabriela Cais Burdmann/UOL
Jady Silva, ritmista da Vai-Vai Imagem: Grabriela Cais Burdmann/UOL

Soraia Gama

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2019-02-11T04:00:00

11/02/2019 04h00

"Vamos mostrar a força feminina da nossa bateria", disse mestre Tadeu antes de começar o ensaio na quadra da Vai-Vai, na semana passada. Jady Silva, 23 anos, foi lá e fez um solo no repinique para chamar o samba. Quando acabou o ensaio, a moça ligou o celular e teve uma surpresa: "Chegava uma mensagem atrás da outra. WhatsApp, Facebook... Tinham feito um vídeo meu e estava todo o mundo comentando e compartilhando", conta a percussionista que toca repique (ou repinique) desde os 4 anos.

"Meu pai era mestre em uma escola pequena no bairro onde morávamos e fui aprendendo e me inspirando com ele. Hoje, ele tem o maior orgulho", diz, com um sorriso meio tímido.

Pouco antes do ensaio técnico da Vai-Vai no sábado (9), mestre Tadeu levou Jady para dar uma volta no sambódromo e confirmou sua suspeita: a moça virou celebridade. Todo o mundo gritava o nome dela e muitos a chamavam para fazer fotos. A frase mais ouvida era: "Ela é a melhor". "Só tenho a agradecer. Ela é disciplinada e sabe tudo de instrumentos. Ela nasceu para isso", elogia o mestre da Pegada do Macaco.

Até a publicação desta reportagem, o vídeo solo de Jady tinha 5.400 comentários, mais de 70 mil compartilhamentos e 3,5 milhões de visualizações no Facebook. Tudo isso mais os compartilhamentos via WhatsApp, que não são possíveis de contabilizar.

"Recebi comentários e elogios de pessoas de vários estados do Brasil e até da Argentina e do Uruguai. Algumas estão reclamando que eu não as aceito no Face, mas é que chegou no limite, não posso mais", lamenta Jady ao mesmo tempo em que comemora o sucesso. "É inexplicável essa sensação. É muito bom ser reconhecida pelo meu trabalho", diz a menina. Sim, aos 23 anos e com aparelhos nos dentes, Jady carrega o sorriso de uma criança.

Zero preconceito por ser mulher

Jady já tocou na Barroca Zona Sul, na Império de Casa Verde e na Tom Maior, antes da Vai-Vai, onde chegou em 2016. Em nenhuma dessas escolas diz que sentiu preconceito por ser mulher. "Sempre fui muito bem-vinda em todas elas. Na Tom eu fiquei por seis anos, mas me afastei quando a minha mãe morreu", conta a caçula e única menina de quatro filhos.

"Foi meu irmão Kawan [ele toca caixa na bateria da Vai-Vai] que me convidou. Meu coração já era Vai-Vai antes e agora não vou sair mais", garante.

Dos 310 percussionistas na escola do Bexiga, aproximadamente 50 são mulheres -um número ainda pequeno, mas em crescimento. Um exemplo é a própria turma do repinique. Entre todos que tocam esse instrumento, a percussionista Lua é a segunda presença feminina, além de Jady.

Grabriela Cais Burdmann/UOL
Com Jady, parte da turma masculina do repinique da Pegada do Macaco: Cléber, Alex, Leandro, Lucas, Kayodê, Adriano e Neto Imagem: Grabriela Cais Burdmann/UOL

É o quarteto posicionado no centrão da bateria, formado por Jady, Pupa, Thiago e Bongos, que dá a condução e o andamento do samba. É o chamado "ripa bossa", quando a bateria faz uma paradinha repentina ou acelera o samba. 

Com um enredo que diz não ao preconceito e defende a igualdade de raças, a Vai-Vai também entrou forte com o discurso contra a violência à mulher durante o ensaio de domingo (9). Ainda mais após a grande repercussão após o episódio em que um diretor da escola agrediu uma integrante na pista do sambódromo

Mais São Paulo