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Blocos de rua

Músicos, taxas e bailes: Veja quanto custa para montar um bloco de Carnaval

Danilo Verpa/Folhapress
Imagem: Danilo Verpa/Folhapress

Ed Wanderley

Colaboração para o UOL, em São Paulo

23/02/2019 04h00

Com uma expectativa de receber 5 milhões de foliões, entre 23 de fevereiro e 10 de março, e com uma multiplicação no número de bloquinhos - dos 516 que desfilarão nos próximos dias, 102 são estreantes -, não há mais como negar que Carnaval em São Paulo é coisa séria. E justamente por isso, não dá para conceber sair nas ruas batendo panelas ou com caixinhas Bluetooth penduradas no pescoço. A folia de grupos de amigos sempre começa como brincadeira inocente, mas muitos passam a arrastar milhares de pessoas, o que exige organização e, sim, investimento.

O Bloco Fodástico Arrianu Suassunga, de Pinheiros, representa bem a trajetória média dos blocos de São Paulo, normalmente frutos da animação de amigos que, quase sempre, têm instrumentos musicais à disposição. No primeiro desfile, em 2015, a orquestra de alfaias utilizou R$ 600 em seu estandarte e economizou cerca de R$ 3,7 mil em recursos - referentes a alfaias, gonguês, uma caixa e um abê - por montar o grupo fundamental de baque virado exclusivamente com músicos que dispunham de instrumentos musicais próprios para entoar maracatu, samba e diversos outros ritmos.

"No primeiro ano, tivemos 15 músicos e cerca de 100 pessoas acompanhando. Hoje, a estimativa é de 5 mil pessoas e os gastos são outros, porque tudo cresceu", explica o mestre do bloco, o músico e coreógrafo Ângelo Madureira, 44. Entre cenografia, adereços, fantasias, manutenção e carregadores de instrumentos, os custos chegam em R$ 5 mil. "Fazemos ensaios e damos aula para quem quer aprender a tocar esses instrumentos o ano inteiro. Então, cada integrante paga uma taxa mensal de R$ 30 e os oito organizadores do núcleo, R$ 100. Isso viabiliza apresentações pagas em casas de show antes do carnaval, com as quais levantamos os recursos, que, até hoje, nunca faltaram", completa. O Arrianu Suassunga desfila neste sábado (23), às 14h, a partir do Largo do Batata.

O bloco Arrianu Suassunga desfila em Pinheiros - Facebook/Reprodução - Facebook/Reprodução
O bloco Arrianu Suassunga desfila em Pinheiros
Imagem: Facebook/Reprodução

Nem todo mundo toca

O grupo de pernambucanos "desgarrados" do Carnaval de Olinda do Olha o Sucesso queria uma forma de curtir o frevo recifense em terras paulistanas, mas ninguém sabia tocar qualquer instrumento. A saída encontrada foi lançar um financiamento coletivo para que conhecidos investissem na contratação de uma orquestra de metais, a confecção de camisas e brindes do bloco, bem como o estandarte, tudo somando o valor de R$ 5 mil.

A brincadeira teve desfile de estreia em 2016 para 100 pessoas e, em seu quarto ano, espera reunir 500 foliões, neste sábado (23), na região dos Jardins. "A gente percebeu que precisa de muita organização, por isso, dividimos as tarefas. Somos cinco na organização e cada um fica responsável por uma área", afirma o engenheiro da computação, e financeiro do bloco, Marcelo Nunes, 36. 

Além de ir atrás de apoios para o desfile, o grupo promove festas ao longo do ano, conciliando a organização com as vidas pessoais e profissionais de cada integrante. "Fazemos um baile pré-Carnaval, mas também uma festa de São João e um terceiro encontro, visando arrecadas fundos, além de sempre firmar parcerias com bares por onde o bloco passa e com músicos, como a Orquestra Multicultural Brasílica, de Deca Madureira, que está com a gente num carnaval sem carro de som, no chão mesmo, como a gente gosta", conta.

23.jan.2016 - A praça Dom José Gaspar, no centro de São Paulo, foi tomada por confetes, espuma, glitter e flores durante o desfile do bloco Agora Vai. Os foliões se divertiram ao som de marchinhas e até músicas internacionais - Cris Fraga/Fox Press Photo/Estadão Conteúdo - Cris Fraga/Fox Press Photo/Estadão Conteúdo
Detalhe do desfile do bloco Agora Vai
Imagem: Cris Fraga/Fox Press Photo/Estadão Conteúdo

5 mil é o número mágico

O bloco de artistas Agora Vai, da Barra Funda, reforça que a marca ideal para fazer e dar continuidade a um grupo de festejos carnavalescos é de R$ 5 mil. Com desfile programado para estimados 8 mil foliões, a agremiação faz uma série de festas e apresentações ao longo de seis meses que antecedem o Carnaval para garantir o desfile. Se, de início, normalmente o gasto maior é com confecção de estandartes, compra de instrumentos ou contratação de músicos, uma vez tornando-se grande, o desafio é garantir um som bom e suficiente para uma multidão.

"Carro de som é caro e é preciso garantir música para todo mundo. Temos cinco pessoas se revezando no cavaco, 8 cantores, 100 pessoas na bateria e todo mundo faz para brincar mesmo, ninguém recebe cachê. É na raça", garante a atriz e cantora Paula Flecha Dourada, 42. "Nosso primeiro desfile foi para resgatar o Carnaval na Barra Funda. Tinha 20 pessoas só. No segundo ano, subimos o Minhocão e foram 2 mil. Aí percebemos que tínhamos que nos organizar", lembra.

Apadrinhado pela escola de samba Camisa Verde e Branco, o bloco investe em ensaios abertos todas as terças-feiras nos dois meses que antecedem o seu desfile, quando "passam o chapéu" com os apoiadores, bem como apresentações em casas de show da capital paulista. "Nos ensaios, ainda usamos som emprestado, fazemos esforço, mas nunca faltou o dinheiro do desfile. Até hoje, sempre deu certo e, todos os anos, estamos entre amigos", conclui Paula. O Agora Vai desfila na terça gorda, às 14h, a partir do Bar do Chagas.

Folia infantil? O desafio é maior

Incluir as crianças na folia gera as mais belas fotos, fantasias e grandes passeios em família, mas o desafio de viabilidade financeira é ainda maior com os blocos infantis. Em seu sexto desfile, o bloco Urubózinho, que derivou do tradicional Urubó, da Freguesia do Ó, reúne cerca de 1,5 mil pessoas no entorno da igreja do Largo da Matriz em dois dias de folia - este ano, nos dias 2 e 3 de março.

11.fev.2017 - Bloco Spantinha, a edição infantil do Spanta Neném, reuniu pais e filhos neste sábado (11) na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio - Marco Antonio Teixeira/ UOL - Marco Antonio Teixeira/ UOL
Bloco Spantinha, a edição infantil do Spanta Neném, no Rio
Imagem: Marco Antonio Teixeira/ UOL

Apesar de contarem com músicos voluntários do bloco adulto, a organização ainda precisa contratar três profissionais de metais, contam com caixas de som adquiridas ao longo dos anos anteriores, gastam mais de R$ 1 mil em decoração e sempre contratam ao menos três personagens infantis para animar os pequenos foliões, um investimento que chega a quase R$ 7 mil. 

"Esse ano, vamos apostar no tema de brincadeiras de antigamente, como amarelinha, corda e etc. Isso nos fez cortar custos de piscina de bolas, pula-pula e outros brinquedos que também contratávamos, porque todos os anos é difícil fechar a conta. Tudo é custeado por nós mesmos, pelos amigos, pela vizinhança, que abraça o projeto", diz a administradora Renata Jonke, 37. 

Os integrantes apostam em parcerias e patrocínios que vão de bebidas lácteas a fantasias para continuar promovendo os bailinhos de Carnaval. "A gente gosta dessas tradições bairristas", garante Renata, ao acrescentar que o bloco foi fundado justamente para contemplar mães e crianças que não tinham condições de acompanhar o bloco adulto e, desde então, envolve pessoas com ou sem filhos na região.

O que é preciso saber antes de montar um bloco?

Segundo a Secretaria Municipal de Subprefeituras, um em cada cinco blocos faze sua estreia no Carnaval 2019. O órgão publica seu guia de regras para o Carnaval com uma série de exigências e recomendações para quem deseja fundar uma nova agremiação.

Foliões chegam fantasiados ao bloco Dalí Saiu Mais Cedo, realizado no Rio de Janeiro - Marcelo de Jesus/UOL - Marcelo de Jesus/UOL
Tamanho do bloco é importante para o tipo de permissão na prefeitura; na foto o bloco Dalí Saiu Mais Cedo, no Rio
Imagem: Marcelo de Jesus/UOL

De acordo com a publicação, os bloquinhos devem se registrar na instituição, normalmente no mês de outubro, já definindo data, hora e trajeto do desfile, para que seja possível a autorização de bloqueio das vias - em caso de coincidência, a preferência sempre é dada a grupos mais antigos.

Há limite de altura para uso de carro ou trio de som. Uma vez excedida a altura de 4,2m, já contando estrutura montada e pessoas embarcadas, o desfile só passa a ser autorizado em vias com no mínimo 7,2m de largura.

Por fim, em caso de desfiles que já nascem grandes, é preciso estar atento. Para concentrações superiores a 5 mil foliões, é obrigatória a contratação de bombeiros civis, seguranças e apontar equipe de produção. Também podem ser cobradas taxas de limpeza de resíduos e das vias e praças públicas e taxa pela CET. 

Este ano, agremiações para até 4 mil foliões e com no mínimo três anos de história também puderam solicitar apoio técnico, incluindo ambulância para acompanhar o desfile. 

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