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Abençoado por Marielle, bloco afro Ilu Inã celebra força negra em SP

Bloco afro Ilu Inã desfila na região central de São Paulo - Edson Lopes Jr./UOL
Bloco afro Ilu Inã desfila na região central de São Paulo Imagem: Edson Lopes Jr./UOL

Miguel Arcanjo Prado

Colaboração para o UOL, em São Paulo

26/02/2019 12h04

Abençoado pelo olhar de Marielle Franco pintada em um grande mural, um verdadeiro tapete negro cobriu as ruas do bairro de Campos Elíseos, na região central de São Paulo, durante o desfile de Carnaval do bloco afro afirmativo Ilu Inã, na noite desta segunda (25)

Nem mesmo a forte chuva que caiu no começo e no fim do cortejo conseguiu esfriar os vocalistas ou a efervescente bateria, que atraiu uma multidão pelas ruas. Celebrando a força negra, este foi o terceiro ano que o bloco presidido por Fefê Camilo fez seu cortejo no Carnaval paulistano.

Apadrinhado pelo tradicional bloco afro baiano Ilê Aiyê, o Ilu Inã teve concentração que começou no fim da tarde ainda ensolarada, em frente ao centro cultural Aparelha Luzia, na rua Apa, número 78, onde seus integrantes se arrumaram e fizeram pinturas tribais afro nos rostos.
 

O lugar é chamado de "quilombo urbano" e foi idealizado pela educadora, artista e mestre em estética e história da arte Erica Malunguinho, mulher negra e trans que fez história nas últimas eleições ao ser eleita deputada estadual em São Paulo pelo PSOL. 

No desfile, Malunguinho esteve no mesmo posto que ocupa desde a primeira saída do Ilu Inã em 2017: o de rainha à frente da potente bateria percussiva, dançando passos de ijexá. Outras personalidades da comunidade negra como o ator Sidney Santiago, o cantor Gê de Lima e o poeta Allan da Rosa também participaram do cortejo.

Harmoniosamente ritmados, os tambores celebraram os orixás e a ancestralidade das religiões de matriz africana, sob comando do mestre Fernando Alabê. Ele investiu também em instrumentos de sopro, que trouxeram nuances sofisticadas à musicalidade do bloco.

Em entrevista ao UOL, Fernando Alabê disse que o Ilu Inã faz "Carnaval e resistência". E contou que o tema este ano foi "Onã Inã: Nossas Matrizes Abrindo Caminho", com a celebração três orixás: Exu, Ogum e Yemanjá, todos representados no cortejo. 

Alabê explicou ainda que os orixás festejados representam arquétipos da comunicação, da tecnologia e da consciência: "Elementos que nós, como negros, precisamos dominar", ponderou.

Sobre como é comandar a bateria de um bloco afilhado do lendário Ilê Aiyê, ele definiu como sendo "uma honra e uma chancela", mas ressaltou a identidade própria do bloco afro paulistano: "A negritude é diversa e plural". 

No meio da bateria, Júlio Cesar, era um dos mais requisitados para fotos. Com a pele pintada de vermelho e fumando um charuto, ele representou pelo terceiro ano consecutivo Exu no desfile do Ilu Inã, orixá que é o guardião do bloco.

"Fazer essa representação mexe muito com a liturgia negra e a história de nossa diáspora", falou, antes de complementar: "O bloco sai em prol da nossa existência antes mesmo até da resistência. Precisamos de respeito no início, no meio e no fim. Esse é nosso recado", declarou.

Vestido de Ogum, Nelson Marques, por sua vez, afirmou "ser fantástico" fazer tal representação no Carnaval. "O orixá é vida. Ter a responsabilidade de representar Ogum me mostra que a vida é muito mais do que pensamos ou podemos. Damos nas ruas um recado de resistência. Porque precisamos resistir, acima de qualquer coisa. Resistir sempre", pediu.

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