A reviravolta do funk 150bpm

Queira ou não, você já ouviu muita putaria acelerada neste verão

Matias Maxx Colaboração para o UOL, no Rio Andre Vieira/MCT/MCT via Getty Images

O funk é hoje uma das maiores expressões de cultura urbana do Brasil. Já faz um tempo que o gênero fixou sua marca entre os mais tocados das plataformas de streaming, especialmente sobre o público jovem. Com quatro décadas passadas desde sua origem nos bailes black da zona norte carioca, o funk é hoje sinônimo de festa seja numa quebrada do Brasil profundo ou numa festa de casamento da elite. Já se passaram muitos Carnavais com o funk influenciando as paradinhas de bateria dos desfiles da Sapucaí e as melodias do hit da estação mimicadas pelos naipes de sopro de blocos de rua e trios elétricos pelo Brasil. Não adianta se no verão você ficou na cidade ou se escondeu numa praia ou montanha, o funk estava lá. Seu grave forte se propagando do alto-falante de um carro ou uma caixinha "cebruthis" qualquer, impregnando o ambiente de melodias dissonantes e batidas cada vez mais aceleradas.

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A retomada carioca

A última década viu uma reviravolta na cena funk com a explosão do canal Kondzilla revelando ao país o sotaque e estética diferente do funk da baixada santista. Duráveis ou descartáveis, MCs paulistas emplacaram dezenas de hits. Um atrás do outro. No entanto, de três verões pra cá, o funk tem se reorganizado na sua terra natal, através da volta a essência desse movimento, que é a exaltação do baile de favela, com seus paredões de equipe de som. Nesta retomada carioca, muitas vezes o DJ ou Produtor se sobressai ao MC como figura principal. E o estilo ficou conhecido como "funk 150 bpm", já que o ritmo foi acelerado de 130 a 150 batidas por minutos, tornando-o ainda mais dançante, conquistando de vez uma juventude periférica e cada vez mais consciente dos seus corpos e gêneros fluídos.

Leo Justi: "Tendência é a melodia"

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A origem do ritmo louco

A internet ajudou a propagar o ritmo, mas é nos bailes funks de comunidade que as canções se criaram. Uma geração de DJs/Influencers como FP do Trem Bala, Iasmin Turbininha e Rennan da Penha se encarregam de divulgar para seus milhões de seguidores no YouTube o novo estilo de produção que vem pegando nos bailes, mais ou menos do verão de 2016/2017 pra cá. Esse período de retomada do funk carioca coincide com o fracasso das políticas de Unidade de Polícia Pacificadora, instalada no início da década para, através da ocupação militar permanente de favelas, tentar garantir a ordem durante os grandes eventos de 2014 e 2016. A tocha olímpica mal tinha sido acesa e o projeto já estava em colapso e sucateado. O que pouco se fala é a respeito do impacto que essa política teve nesse patrimônio imaterial da favela que é o funk. Durante sua vigência os comandantes das UPPs negavam a autorização para realização dos bailes. Em alguns casos a perseguição foi até simbólica. O baile da Chatuba, na Penha, um dos maiores do período anterior das UPPs, não só foi proibido como a quadra onde ele acontecia foi transformada na base da UPP Chatuba.

Como no Rio de Janeiro todo o negócio do baile funk sempre centrou-se nos bailes de favela, muitos que dependiam desse negócio, dos artistas aos vendedores de cerveja, ficaram desempregados. Um dos bailes que resistiu por mais tempo as ocupações é o mesmo que em 2016 ressurgiu com o "Ritmo Louco", quando os DJs começaram a subir o pitch das músicas, deixando-as mais aceleradas (e eventualmente com "vocais de Pato Donald") dando espaço para passinhos e reboladas mais frenéticas. O DJ Polyvox (na foto ao lado) foi o primeiro a produzir músicas com batidas em 150 BPMs, introduzindo o "Tambor Coca-Cola", cuja ideia veio depois que resolveu gravar seu filho batucando numa garrafa pet.

O produtor Leo Justi, que já trabalhou com grandes nomes como MIA, Emicida e MC Carol, lançou este ano pelo seu coletivo Heavy Baile "Maconha e Pente" com MC Rebecca e "Pique Selvagem" ambas em 150 bpm. Ele ressalta que uma das características do gênero não são só as batidas aceleradas como a tendência de melodias, "algo que veio do funk de São Paulo e estava abandonado no Rio. O Rio estava muito mais focado em montagens, num outro pique, e basicamente agora o 150 vem focando em melodias, em canções simples. E isso funcionou muito."

Felipe Vasconcelos/Divulgação Felipe Vasconcelos/Divulgação
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Tu tá na gaiola

O "Baile da Gaiola" é certamente hoje o mais famoso do Brasil, com inúmeras músicas em sua homenagem. Como manda a tradição, as canções costumam ter duas versões, a "light" e a "proibidona". Numa das versões do hit "Tu tá na Gaiola", Kevin o Chris conta que vai pro baile, "na intenção de beber", na outra a motivação é "fuder" mesmo. Da mesma maneira, "cheiro de perfume bom" e "cheiro de marola boa", viram "lança da bom" e "maconha boa". A grande estrela do notório Baile da Gaiola é o DJ Rennan da Penha, conhecido por tirar fotos sempre com a linguinha de fora. Órfão do baile da Chatuba, Rennan começou a tocar no "Bar da Gaiola", na rua Aymoré. O bar tinha esse apelido por ser cercado de grades. Sábado após sábado, a festa foi crescendo a ponto de se transformar no Baile da Gaiola, com várias equipes de som atraindo dezenas de milhares de pessoas, avançando a madrugada, muitas vezes até o meio-dia. Rennan costuma entrar por volta das 5h da manhã, normalmente depois de já vir de algumas apresentações pela cidade. Ele é hoje um DJ requisitado, com programa toda segunda-feira na rádio FM O Dia e uma agenda concorrida de shows por todo país.

Rennan mantém uma presença forte na internet, publicando dezenas de histórias e tweets por dia. No final do ano passado, um vídeo que mostrava mulheres trans dançando de peito de fora na gaiola viralizou, gerando uma reação homofóbica contra a Gaiola. Em resposta, Rennan convocou em dezembro uma edição especial LGBT do baile, com atrações como Viviane Araújo e Mulher Pepita (que no passado se apresentava como Transnitta). No início de fevereiro produziu com Ludmilla "Vem Amor Bate Não Para", música de sua autoria originalmente gravada pela MC Mazzoni, mas que ganhou versão de Ludmilla após pedido dos fãs. Em março foi lançado o clipe de "Eu Vou Passar", produção de Rennan com Mazzoni, "essa música tem uma coreografia ilustre que todo mundo tá fazendo no baile, quero que cheguem vídeos de não sei quantas pessoas dançando a coreografia da música."

Durante o Carnaval, Rennan tocou na Bahia e Minas Gerais, além de um camarote da Sapucaí. Mas seus hits e remixes ecoaram muito além. Os versos em exaltação a "Gaiola" foram entoados por gente bombada e siliconada cujo contato mais próximo de uma favela é através do muro acústico da linha vermelha no caminho do aeroporto. Os moradores da Penha já não tiveram a mesma sorte, visto que o baile já não acontece há algumas semanas, por conta de operações policiais.

"Não tem como ficar parado", diz o DJ Pedro Sampaio

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Bigodinho fininho, cabelinho na régua

O hit da estação já tem nome: "Vamos pra Gaiola". Produção de FP do Trem Bala com o monstro MC Kevin o Chris, sobre mais uma noite louca no baile da Penha. A música foi cantada não só por legiões de pessoas alcoolizadas nos blocos de Carnaval, como pelo menino Neymar no palco de sua luxuosa festa de aniversário ao lado de Wesley Safadão, Mbappé, Gabriel Medina e Daniel Alves.

Simpático e bonachão, Kevin o Chris é cria de Caxias na Baixada Fluminense e, como muitos, ainda menor de idade saía de casa escondido para ir aos bailes. Ele se impressionou com o jeito dos DJs tocarem usando tablets. Aprendeu a produzir e soltou hits atrás hits como o já citado "Tu Tá na Gaiola" e "Dentro do Carro", esta última usando sampler de "Day Tripper" dos Beatles, confirmando que o funk carioca não tem limites. Outro divertido exemplo da apropriação do funk 150 bpm sobre outros estilos é "Final de Semana" do MC Roger e Rennan da Penha, que usa a melodia de "Anna Julia" dos Los Hermanos para narrar os preparativos para curtir um baile destinado a a "acabar em putaria". O novo single de Kevin o Chris, "Ela é do Tipo" é uma ode à uma "novinha" onde o MC abusa de um vocal melódico romântico que não esconde um sorriso bem-humorado.

Alto, magro e conhecido por fazer uma coreografia característica com os braços, o DJ FP do Trem Bala nasceu em Ilhéus, mas já mora no Rio há 9 dos seus 22 anos. Sua história começou há três anos, no YouTube, onde divulgava suas músicas favoritas. "A rapaziada que produz posta lá no SoundCloud. Nós do Youtube pegamos a música e se gostamos lançamos no canal ". Com mais de 2 milhões de seguidores, o divulgador virou DJ, ganhou o hit "DJ FP Toca Aquela" em sua homenagem e embarcou numa agenda extensa de apresentações e finalmente passou a assinar algumas músicas. Seu novo hit, "Se Tá Verão Tá Quente", com MC Niel, chegou a marca de 1 milhão de views em seis dias do lançamento. No pré-Carnaval, FP tocou em cima de um trio elétrico na Barra da Tijuca, com Kim Quaresma (DJ do Baile da Colômbia) e MC Théo. Animadíssimo com o carinho dos fãs desabafa, "pessoal do Rio tá sempre animado, sempre abraçando o funk daqui. O funk de São Paulo tava dominando por falta de organização aqui no Rio, mas com essa revolução do 150 bpm tá tudo mudando, várias coisas novas, estamos atingindo um público que não atingimos antigamente."

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"Cai de boca que tá muito bom"

Embora a hipersexualização das letras do funk sempre tenham gerado polêmica, dentro do movimento há mulheres que conquistaram espaço como em nenhum outro gênero musical popular. Diferente do pagode, ou mesmo o sertanejo que só recentemente viu explodir uma cena feminina, o funk teve em toda sua história grandes vozes e personagens femininas como Verônica Costa, MC Cacau, Tati Quebra Barraco, Deize Tigrona, MC Sabrina e Valesca Popozuda dentre muitas outras, para não citar as divas Anitta e Ludmilla que migraram do funk para o pop. Com o 150 não podia ser diferente, e uma de suas divas é a jovem MC Rebecca, assim como Mazzoni, pupila da Ludmilla.

Com apenas 20 anos de idade, MC Rebecca dava dicas de maquiagem e cabelo no YouTube quando sua amiga Ludmilla lhe presenteou com a letra de "Cai de Boca" ("que tá muito bom" na versão light e "no meu bucetão" na versão proibida). A música foi produzida pelo DJ Zebrinha e entregue a Rennan da Penha, que comprovou seu sucesso tocando na Gaiola. São apenas seis meses de carreira como MC, mas os palcos e holofotes não eram exatamente novidade para Rebecca que foi passista do Salgueiro desde os dez anos de idade, sendo eleita rainha das passistas por três anos, "foi uma escola pra mim, toda uma preparação o pra palco, público também. Na época eu não cantava agora eu canto e escolhi essa carreira musical." Rebecca lamenta não poder ter desfilado ou assistido os desfiles este ano, mas fica feliz em ter trabalhado trocando em Minas Gerais, Mato Grosso e Belém do Pará.

Na esteira de "Cai de Boca" veio "Coça de Xereca", "Ao Som de 150" e mais recentemente "Revezamento" com Gabily e o produtor Rick Joe, cujo clipe mostra um bloco de Carnaval e traz o bem-humorado refrão "Não é chifre, é só revezamento". Questionada sobre o impacto de suas letras picantes Rebecca explica "hoje em dia está bem mais leve, as pessoas estão entendendo o que eu quero passar, não é só chegar lá e cantar o proibidão, tem que ter uma mensagem, um contexto."

Invasão e reação

Como é natural com todo ritmo que faz sucesso, o funk 150 bpm ganhou o Brasil, não só seus DJs e artistas estão com agenda cheia em todo país, como artistas de outros gêneros incorporaram seus hits. Wesley Safadão gravou uma versão ao vivo de "Dentro do Carro" de Kevin o Chris. Os baianos do La Furia e Psirico incluem em seus repertórios várias musicas de Rennan da Penha e Kevin o Chris. Márcio Victor, frontman do Psirico, explica sua admiração pelo gênero. "Esse meu encontro da Bahia com a Penha meu, veio quando eu conheci Rennan da Penha, eu trouxe ele pra Salvador, pra gente realmente descobrir ritmos, coisas que fossem modernas e vi nele toda essa potência, e ele me mostrou o 'Arrocha da Penha' usando instrumentos de percussão e eletrônicos aqui da Bahia, já botando os bpms lá pra frente. Então quando eu ouvi esses funk 150 chegando e eu vi logo que era Rennan da Penha, porque a Penha tá num momento muito acelerado de criadores, assim como outras periferias do RJ, de Salvador, de SP, ou seja a periferia do Brasil inteiro está dominando o mercado. Como eu sempre disse a periferia daqui dialoga com o mundo todo, aí os DJs ficam loucos, os cantores logo vão levar pra fora e dizer que é deles como sempre."

Estamos no início de uma nova transformação no funk. Onde houver uma caixa de som e conexão à internet, ele vai estar lá preenchendo o espaço. Queiram ou não queiram.

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