Pesquisa teórica é inútil? Veja como a ciência muda sua vida

Fernando Cymbaluk

Do UOL, em São Paulo

A polêmica é antiga no mundo da ciência. Afinal, a investigação científica deve ter fins práticos ou pode ter apenas questões abstratas, sem compromisso com aplicações diretas no mundo concreto?

A briga entre defensores da chamada pesquisa "pura" ou "básica" e da pesquisa "aplicada" é tão velha quanto a ciência. Começou na Grécia Antiga, com a defesa do "saber pelo saber" feita por Sócrates, Platão e cia. E a disputa continua até hoje. O governador Geraldo Alckmin disse, em reunião recente com seus secretários, que a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) gasta dinheiro com pesquisas "sem utilidade prática". Na ocasião, Alckmin criticou o incentivo a pesquisas de sociologia. 

Pesquisadores que atuam na fronteira do conhecimento e da inovação, contudo, defendem a pesquisa básica. "A pesquisa teórica pode dar respostas importantes do ponto de vista prático", diz a geneticista Mayana Zatz, que coordena o Centro de Pesquisa em Genoma e Células Tronco da USP. Ela dá como exemplo os resultados alcançados pelos estudos do genoma humano, em que o pesquisador debruça-se sobre o sequenciamento do código genético.

"Com o avanço das pesquisas, conseguimos diagnosticar inúmeras doenças que antes não conseguíamos, evitando exames invasivos, e realizar tratamento preventivo e de sintomas. Além disso, é possível determinar riscos de repetição de doenças na família", diz Mayana. Tais avanços, segundo ela, só são possíveis devido ao estudo teórico. "É muito importante frisar a importância da pesquisa básica."

Já para o presidente da Fapesp, José Goldemberg, os estudos nas áreas sociais são importantes por produzirem políticas públicas. "Basta citar os trabalhos de Florestan Fernandes sobre a questão racial na sociedade brasileira e os estudos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre a teoria da dependência", cita.

Há na história do conhecimento diversos exemplos de pesquisas abstratas que se desdobraram em invenções ou deram origem a teorias. Nada parece linear no mundo da ciência, e as grandes descobertas podem estar onde menos se espera. O UOL preparou uma lista com exemplos de pesquisas mais teóricas, mais práticas, ou que mesclavam as duas coisas.

Teoria e aplicação ontem

Wikipedia
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Pirâmides de Gizé: a "ciência aplicada" antes da ciência

Sem a geometria aplicada, dificilmente os egípcios conseguiriam construir as Pirâmides de Gizé ou reorganizar as propriedades rurais após as cheias do rio Nilo. Sem uma astronomia empírica, feita pela observação, os babilônicos não teriam feito previsões sobre eclipses da Lua e do Sol
Silva Junior/UOL
Silva Junior/UOL

Pasteur: das bactérias ao desenvolvimento de vacina

Estudando o fenômeno do qual é o descobridor, a fermentação por bactérias, Louis Pasteur se interessou também pelo desenvolvimento de métodos que evitassem a deterioração do vinho e da cerveja e prevenissem doenças. A pesquisa teórica e prática andam juntas nos estudos de Pasteur, que desenvolveu o método de pasteurização, a primeira vacina contra a raiva e se torna um dos pais da bacteriologia e da microbiologia
Tony Gentile/Reuters
Tony Gentile/Reuters

Keynes e o plano Roosevelt para economia

John Maynard Keynes buscava formas de solucionar a miséria crescente resultante da crise de 1929. Seus estudos, ao mesmo tempo, ampliam a compreensão sobre o funcionamento da macroeconomia e dos agregados econômicos. As conclusões de Keynes viraram políticas econômicas adotadas pelo presidente dos EUA Franklin Delano Roosevelt. E seus estudos abriram grande campo de análise na teoria econômica
Thinkstock
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Do estudo da molécula à lâmpada

Ao mesmo tempo que se empenhava em desenvolver estudos sobre reações químicas nas superfícies dos materiais, o que lhe rendeu o Nobel de Química em 1932, Irving Langmuir trabalhava em empresas como a General Electric aperfeiçoando dispositivos eletrônicos. A busca pela aplicabilidade fez com que direcionasse sua pesquisa teórica, podendo compreender a interação molecular e aprimorar a lâmpada incandescente, inventada décadas antes.
Divulgação
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Thomas Edison: lâmpada levou à eletroestática

A maior preocupação do inventor da lâmpada elétrica era desenvolver um sistema de iluminação a eletricidade que fosse viável comercialmente. Seu objetivo era o sucesso prático da pesquisa, mas desdobramentos teóricos foram inevitáveis. Os resultados alcançados por Thomas Edison, fundamentais para o avanço técnico, ampliaram conhecimentos e possibilidades de estudos em áreas da eletroestática e do eletromagnetismo.
Arnd Wiegmann/Reuters
Arnd Wiegmann/Reuters

Mineiros criam a locomotiva

Há na história da tecnologia exemplos de como a inovação pode surgir do nível mais prático. George Stephenson e Richard Trevithick eram de famílias de mineiros de carvão. Conhecedores do trabalho nas minas, desenvolvem veículos que andavam sob trilhos e eram impulsionados por máquina a vapor. Estava inventada a locomotiva e pavimentado o caminho para novos estudos de engenharia de transportes e de motores.

Pesquisas brasileiras e suas aplicações

Mopic/Fotolia
Mopic/Fotolia

Projeto Genoma

O estudo que busca sequenciar o código genético de organismos vivos possui diversas aplicações na área da biogenética, e é um desdobramento da descoberta teórica da estrutura de dupla hélice do DNA feita por James Watson e Francis Crick. Já há vários impactos no campo da saúde. Um exemplo é a pesquisa conduzida pela geneticista Mayana Zatz, que avançou no entendimento da distrofia muscular de Duchenne -doença que provoca enfraquecimento progressivo do tecido muscular-, permitindo novos tratamento. Segundo a pesquisadora, em breve haverá resultados de pesquisa com pessoas idosas saudáveis, o que deve lançar "muita luz sobre quais são os fatores para o envelhecimento saudável".
Tuca Vieira/Folhapress
Tuca Vieira/Folhapress

Estudo sobre as cidades

As pesquisas nas áreas da sociologia e políticas públicas dos grandes centros urbanos têm ganhado relevância. Em São Paulo, o Centro de Estudos da Metrópole, ligado à Fapesp e ao Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), investiga fenômenos relacionados a desigualdades, como o fluxo de refugiados. Tais estudos, que envolvem também teorias sociológicas e da ciência política, ajudam na criação de indicadores para mapear a situação das grandes cidades e seus problemas, e permite a formulação e o aperfeiçoamento de políticas públicas.

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