Conferência internacional na África do Sul impulsiona combate à Aids

Joanesburgo, 18 Jul 2016 (AFP) - Dezesseis anos depois da mensagem de Nelson Mandela que fez deslanchar a mobilização contra a Aids, especialistas e políticos se reúnem nesta segunda-feira na África do Sul na 21º conferência internacional sobre o vírus para impulsar uma batalha que vem perdendo fôlego.

Cerca de 18.000 cientistas, médicos, militantes, juristas e financiadores estão na cidade costeira de Durban (leste) para avaliar, até sexta-feira, os avanços na luta contra a doença, que já provocou mais de 30 milhões de mortes.

"A mensagem dirigida ao mundo inteiro neste ano em Durban será que é muito cedo para cantar vitória. O caminho ainda é longo", disse à AFP o presidente da Sociedade internacional sobre a Aids, Chris Beyrer.

A África do Sul - com uma das taxas de infecção mais altas do mundo - já recebeu a conferência bienal, em 2000, mas com um viés mais político que científico.

O então presidente sul-africano, Thabo Mbeki, causou polêmica ao negar, meses antes, a relação entre o vírus da imunodeficiência humana (HIV) e o avanço da Aids. Mbeki defendia que, nos países subdesenvolvidos, a doença se devia à desnutrição e à falta de higiene, e não ao vírus.

"Foi um momento muito lamentável", disse Chris Beyrer.

Finalmente, com o impulso do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, que descreveu a epidemia como "uma das maiores ameaças para a humanidade", a conferência superou uma etapa essencial ante a falta de consciência oficial do governo.

Revelou também a desigualdade no acesso ao tratamento entre os países ricos e pobres, e possibilitou a redução dos preços dos remédios.

Hoje, 16 anos depois daquela conferência, ainda não há vacinas contra a Aids. Os pacientes dependem de tratamentos antirretrovirais, com efeitos colaterais e preços elevados.

A ONU estabeleceu como objetivo pôr fim à epidemia em 2030. Porém, depois da grande redução registrada em 2010, a tendência começou a se reverter em algumas regiões, principalmente na Rússia.

Cerca de 36,7 milhões de pessoas sofrem de Aids no mundo, principalmente na África subsaariana. E apenas 17 milhões recebem tratamento.

"Devemos chegar aos 20 milhões restantes, e isso requer meios", disse Chris Beyrer.

Geração sem Aids?A francesa Françoise Barré-Sinoussi, prêmio Nobel de Medicina por ter participado na descoberta da Aids, insiste na necessidade de financiamento.

"Este ano é crucial. Precisamos (...) fazer todas as mudanças necessárias para evoluir até uma geração sem Aids. Mas não estamos prontos", adverte.

"A incidência da infecção em muitos países não diminui", afirmou Barré-Sinoussi à AFP. "Devemos investir de novo na pesquisa, pois se requer instrumentos suplementares de prevenção e tratamento", acrescentou.

No mundo, os avanços são desiguais. Os casos de novas infecções pelo HIV caíram 6% desde 2010, de 2,2 milhões para 2,1 milhões, e as mortes relacionadas com a Aids diminuíram quase pela metade desde os 2 milhões de casos registrados em 2005.

A África do Sul administra o programa de tratamento mais importante do mundo. "O mundo já não nos olha como párias", afirmou o ministro sul-africano da Saúde, Aaron Motsoaledi. Mas a batalha está longe de ser vencida, com 300.000 novos contágios nesse país em 2014-2015, e cerca de 2.000 jovens infectados a cada semana.

No Brasil, o número de pessoas com Aids aumentou, passando de 700.000 em 2010 para 830.000 em 2015, com cerca de 40.000 novos casos e 15.000 mortes a cada ano, de acordo com dados da Onuaids, o programa das Nações Unidas para combater a doença.

O número de infecções também vem aumentando no norte da África e no Oriente Médio, região onde a epidemia mais avança.

Na Rússia, onde o número de infecções atingiu quase um milhão no ano passado, o governo resiste a organizar programas de prevenção para os homossexuais e os toxicômanos.

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