Gelo do Mont Blanc, um instrumento para a ciência do futuro

Chamonix, França, 26 Ago 2016 (AFP) - A 4.300 metros de altitude, no maciço do Mont Blanc, cientistas vestidos de alpinistas manipulam cuidadosamente o gelo. Em alguns dias, extraíram várias toneladas deste "ouro branco" destinado à ciência do futuro.

No grande planalto nevado da montanha Dôme du Goûter, nos Alpes franceses, os alpinistas que escalam o telhado da Europa (4.810 m) observam este acampamento formado por três barracas, uma zona perfurada e uma grande tenda laranja onde as amostras de gelo são embaladas.

Em um cartaz destinado aos curiosos, os cientistas russos, franceses e italianos escreveram: "Projet Ice memory". Trata-se de um projeto que consiste em extrair gelo do Mont Blanc para conservá-lo em um "congelador natural" na Antártica.

O gelo, ameaçado pelas mudanças climáticas, é uma matéria-prima de grande qualidade. Como se formam graças à neve, as geleiras aprisionam pequenas bolhas de ar e impurezas, que são testemunhas da atmosfera de dezenas ou centenas de anos atrás.

Foi assim que os glaciólogos estabeleceram o vínculo entre as temperaturas e os gases do efeito estufa, e estudaram a evolução da poluição e da atividade industrial.

Dentro de alguns anos, os progressos técnicos permitirão, sem dúvida, novas descobertas - contanto que reste gelo para ser analisado.

Amostras de 120 metros"Entre três e quatro toneladas de gelo vão descer este ano" do Dôme, diz Patrick Ginot, glaciólogo do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD) e coordenador da operação.

Serão extraídas três amostras, ou "núcleos de gelo", de 10 cm de diâmetro e mais de 120 m de comprimento. Uma delas será analisada em um laboratório de Grenoble (centro-leste da França) para constituir uma base de dados aberta a todos os cientistas. As outras duas deverão ser incorporadas em 2020 a uma caverna de neve na base franco-italiana Concordia, na Antártica.

Os cilindros de gelo são extraídos em pedaços de um metro cada. Depois são escovados, medidos e embalados em plástico filme. Em seguida, são colocados em caixas isotérmicas e armazenados na neve, antes de serem trasladados em helicóptero.

Um trabalho minucioso que permite extrair 50 metros de gelo por dia, se as condições meteorológicas forem boas e não houver incidentes técnicos.

Projeto similar na BolíviaNo fim de semana passado, caíram 30 cm de neve no Dôme. "Quando o tempo está ruim, é duro. No sábado, chovia muito, e trabalhamos o dia inteiro. E a roupa não seca", conta Bruno Jourdain, pesquisador do laboratório de glaciologia de Grenoble.

Na segunda-feira, os pesquisadores passaram o dia limpando o acampamento, soterrado pela neve.

"À noite faz muito frio (...), mas a paisagem é maravilhosa", conta François Burgay, estudante de doutorado italiano na Universidade de Veneza.

Dois núcleos de gelo de 126 e 129,7 metros de comprimento já foram transportados, e o terceiro será na segunda-feira que vem. Serão armazenados em um depósito frigorífico perto de Grenoble, e de lá partirão para a Antártica, onde a temperatura média é de -50°C.

Uma operação similar será realizada na montanha de Illimani, na Bolívia, a 6.300 metros de altitude, em maio de 2017. Dessa vez, os blocos de gelo serão levados para baixo a pé, em condições muito difíceis.

O projeto do Mont Blanc é parte de um programa da agência da ONU para a ciência e a cultura, a Unesco, financiado por patrocinadores privados. Ainda falta arrecadar um milhão de euros para bancar a análise e o transporte de gelo até o continente branco.

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