Nobel: grandes esperanças residem em minúsculas máquinas

Paris, 5 Out 2016 (AFP) - As máquinas moleculares, que renderam aos seus inventores o Prêmio Nobel de Química nesta quarta-feira, são cerca de mil vezes menores do que a espessura de um fio de cabelo humano, mas fortes o suficiente para moverem coisas que superam o seu tamanho em 10.000 vezes.

Os dispositivos diminutos ainda têm de encontrar usos práticos na nanoengenharia, mas os cientistas aguardam ansiosos o dia em que motores microscópicos ou veículos de entrega sejam onipresentes, seja no corpo humano ou em um microchip.

Alguns usos potenciais das máquinas moleculares:

- Medicina -Inspirados nas proteínas naturais que atuam como "máquinas" biológicas dentro das células, os nanorrobôs sintéticos podem ser estimulados pela luz ou por alterações na temperatura para produzir movimentos mecânicos.

A sua utilização para a entrega localizada de medicamentos é "provavelmente a aplicação mais realizável no curto prazo", de acordo com Nicholas White, da Escola de Pesquisa em Química da Universidade Nacional Australiana.

As pequenas máquinas, construídas a partir de grupos de moléculas, podem ser usadas para proteger o corpo humano contra a exposição aos efeitos tóxicos de certos medicamentos e tratamentos, como a quimioterapia.

Uma substância química para tratar o câncer, por exemplo, poderia ser escondida dentro de uma nanomáquina e enviada a um tumor específico. Em seguida, ela seria estimulada com um sinal de luz para soltar a sua poderosa carga.

De acordo com Mihail-Dumitru Barboiu, diretor do instituto de pesquisa CNRS, na França, as máquinas moleculares também poderiam ser usadas como válvulas em reservatórios de fármacos implantados, liberando uma dose pré-programada quando acionadas e voltando a se fechar em seguida.

- Biomimética -Jacques Maddaluno, um pesquisador de química do CNRS, imagina um mundo em que nanorrobôs imitem a função de células ou mesmo de órgãos humanos.

"Nós poderíamos tentar fazer uma célula artificial - máquinas moleculares que fazem a mesma coisa que as células vivas", disse à AFP.

"Poderíamos fazer cópias artificiais de estruturas biológicas, que poderiam funcionar inclusive fora do corpo humano, como um filtro feito de células artificiais para desintoxicar o sangue", em uma imitação do fígado, acrescentou Maddaluno.

Alguns especialistas esperam que as nanomáquinas possam ser utilizadas em próteses, por exemplo, movendo membros artificiais.

Pela sua natureza, as máquinas moleculares já imitam a função muscular, expandindo ou contraindo em resposta ao estímulo.

- Eletrônica - Os minúsculos dispositivos também podem fazer com que os eletrônicos e hardwares de computadores fiquem cada vez menores, dizem os especialistas.

"Veremos 'bits' de memória (atualmente a menor unidade de armazenamento de dados) reduzidos ao nível molecular", disse Barboiu.

"Na mesma superfície de armazenamento onde hoje você tem 10 nanopartículas, teremos uma centena de máquinas moleculares, o que significa que seremos capazes de armazenar muito mais" dados, acrescentou.

Para White, as máquinas moleculares poderão um dia substituir componentes eletrônicos, como interruptores em placas de circuito.

"Os componentes de produtos eletrônicos poderiam ser muito menores e você poderia ter, portanto, eletrônicos muito mais poderosos", disse, embora advertindo que ainda "estamos muito longe" de chegar a esse ponto.

As nanomáquinas ainda são muito difíceis de construir - precisando de "várias pessoas trabalhando por vários anos" para produzir apenas uma delas de um tipo complexo, disse White.

"É difícil colocar um prazo, mas nos próximos anos nós veremos uma aplicação real disso, sendo comercializada e colocada em uso", completou.

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