Clima: após euforia com acordo de Paris, nervosismo com Trump

Paris, 28 dez 2016 (AFP) - Depois da euforia gerada pelo acordo de Paris, assinado em dezembro de 2015, ambientalistas que atuam no combate ao aquecimento global acompanham com nervosismo a chegada à Casa Branca de Donald Trump, conhecido pelas suas posições céticas em relação às mudanças climáticas.

As boas notícias tinham marcado 2016, desde o pacto para eliminar os gases HFC até as resoluções do transporte aéreo para limitar suas emissões de carbono, tudo isso enquanto o acordo de Paris entrava em vigor em um tempo recorde, ratificado por 117 Estados.

Mas a eleição de Donald Trump, em plena conferência anual da ONU (COP22), foi como uma ducha d'água fria para os defensores do clima.

"Estamos esperando. Qual será a verdadeira política da presidência de Trump? Como as demais potências reagirão?", questionou-se Thomas Spencer, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Relações Internacionais (Iddri), sediado em Paris.

Os Estados Unidos, segundo maior emissor mundial de gases de efeito estufa, atrás da China, não vão necessariamente se retirar do acordo de Paris, como ameaçou Trump durante a campanha.

O presidente eleito pode, porém, frear a aplicação do pacto, que por si só já é complicada, visto que implica uma redução significativa do uso de carvão, petróleo e gás, que são responsáveis por 80% do aquecimento.

É difícil ignorar que o governo que está se formando em Washington está repleto de "gente que passou sua vida adulta promovendo as energias fósseis", indica o editorialista do New York Times, Thomas Friedman.

Rex Tillerson, nomeado por Trump para conduzir o Departamento de Estado, é CEO do gigante petroleiro ExxonMobil, além de empresário de laços fortes com a Rússia, que não pretende ratificar o acordo de Paris antes de 2019 ou 2020, como indicou um conselheiro do Kremlin.

Um freio, não um desastreA eleição de Trump "talvez não seja um desastre, mas acabará freando o processo" opina Michael Oppenheimer, professor em Princeton e especialista em políticas energéticas.

As emissões de CO2 nos Estados Unidos diminuíram nos últimos anos. Mas os principais impulsionadores desta mudança não foram o governo federal, senão o mercado e os estados, e estas forças provavelmente dominarão o setor, independente do que Trump fizer, dizem os analistas.

"Trump terá pouco efeito sobre as tendências da indústria de energia dos Estados Unidos, onde o carvão está sendo rapidamente substituído pelo gás natural e as energias renováveis", disse William Sweet, especialista em energia Tandon School of Engineering da NYU.

Investir em novas usinas a carvão - um setor que Trump prometeu revitalizar - já não faz sentido economicamente, disse Sweet.

A dinâmica do mercado, no entanto, não é suficiente para vencer a corrida para manter o aquecimento global abaixo de +2°C em relação à época pré-industrial, como foi estabelecido no tratado de Paris.

E Trump poderia, por outro lado, retirar certas ajudas que permitem a aplicação da lei de Obama sobre a poluição do ar, ou fazer concessões aos fabricantes de automóveis, que desejam uma flexibilização das normas sobre emissões.

Esta desaceleração também "provocará dúvidas em outros países", como a Índia, o quarto maior emissor mundial "e ainda ambivalente sobre a importância" do esforço contra o aquecimento do planeta, alerta Oppenheimer.

"É um teste fascinante", ressalta Thomas Spencer. "O acordo de Paris servirá para algo? Ele pode estabilizar a ação quando o contexto é menos favorável? Os sinais enviados pela China e Índia indicam que se importam" com o acordo, devido a seus interesses particulares (luta contra a poluição, aposta na inovação, etc) acrescenta o especialista.

Mas quem poderá dar o impulso a estas frágeis e longas negociações internacionais? Alguns apostam na chanceler alemã, Angela Merkel. Outros consideram que a próxima reunião do G20, em julho em Hamburgo, será determinante.

Surpresas da naturezaNa COP22, realizada em novembro, a comunidade internacional reafirmou seu compromisso a favor do clima, em uma "declaração de Marrakech".

Pascal Canfin, diretor-geral do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) na França, lamenta no entanto que "toda a energia política da COP22 serviu para resistir ao potencial terremoto" político nos Estados Unidos, e não permitiu reforçar os compromissos ambientais.

Por enquanto, os planos nacionais encaminham o planeta para um aumento de +3°C, o que seria catastrófico para várias populações.

A concentração de CO2 no ar atingiu um nível recorde, embora graças à China as emissões procedentes de combustíveis fósseis foram estáveis pelo terceiro ano consecutivo.

E os cientistas acabam de lançar um alerta sobre o 'boom' do metano, gás do efeito estufa 28 vezes mais potente que o CO2.

Enquanto isso, outras constatações inquietantes proliferaram em 2016, como os registros de temperaturas recorde no Ártico ou a evidência de que a camada de gelo da Groenlândia, que poderia elevar o nível do mar em seis metros, é muito mais sensível ao aquecimento do que se pensava.

Por isso, a margem de ação se reduz, já que esperamos tempo demais para agir, resume Myles Allen, climatologista na Universidade de Oxford. "E a natureza ainda nos reserva muitas surpresas", adverte.

cho-mh/alu/ia/me/jz/mb/db/mvv

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos