Instituto Vavilov de São Petersburgo, o guardião da biodiversidade vegetal

São Petersburgo, 12 Jan 2017 (AFP) - Em um edifício que remonta à era czarista, em pleno centro de São Petersburgo, um instituto zela por uma coleção de valor inestimável: são centenas de milhares de variedades de sementes, capazes de fazer reviver ou redescobrir as plantas esquecidas.

O instituto Vavilov, criado há cem anos, é um guardião da biodiversidade vegetal. Sobreviveu aos sobressaltos da História e houve quem tivesse dado a vida para salvar o patrimônio.

"Na Europa, quase todas as variedades desapareceram por causa da Segunda Guerra Mundial e da industrialização. As espécies locais que existiam depois da guerra foram destruídas por variedades mais produtivas, importadas dos Estados Unidos", resume o diretor do Instituto Vavilov, Nikolai Dziubenko.

"Mas, graças à nossa coleção, o mundo tem uma oportunidade de recuperar espécies esquecidas", afirma.

A coleção inclui tanto grãos europeus quanto sementes mais exóticas, como a de uma variedade de trigo etíope desaparecido devido às guerras civis nos anos 1970.

- 'Caçadores de genes' -Este trigo voltou aos campos da Etiópia quando o país africano pediu à União Soviética o envio de amostras coletadas pelo fundador do instituto, Nikolai Vavilov, durante uma expedição realizada por volta de 1930, explica o agrônomo e professor do centro, Igor Loskutov.

Vavilov, um geneticista e botânico russo nascido em 1887, fez expedições por todo o mundo, que lhe permitiram criar um banco com mais de 250.000 sementes em 1940, ano em que foi detido, vítima dos expurgos stalinistas.

Sua coleção perdurou e conta atualmente com 345.000 espécies vegetais, das quais 80% são únicas no mundo.

Vavilov chefiou o instituto de 1921 a 1940, realizando expedições em 64 países para coletar espécies silvestres ou cultivadas.

"Ele e seus colaboradores foram verdadeiros caçadores de genes", conta Igor Loskutov.

"Vavilov não se interessava por plantas exóticas, mas pela biodiversidade vegetal, as espécies locais. É o que dá importância científica à nossa coleção", explica.

Hoje a coleção do Instituto ocupa três salas. O primeiro armazém, de 50 m2, mantém a aparência da época. As sementes são guardadas em pequenas caixas de ferro, a temperatura ambiente.

- 'Ideologia burguesa' - "Não parece muito moderno, mas é muito seguro. A coleção conservada aqui não depende da eletricidade, nem do equipamento", afirma Loskutov. No entanto, os grãos não podem ser conservados por mais de cinco ou sete anos.

Os outros dois armazéns guardam grãos e enxertos congelados, que podem ser conservados por até 50 anos. É preciso regenerá-los regularmente e a cada ano, 10% são semeados para que as plantas cresçam e possam ser recolhidas.

"Contra tudo e todos, os cientistas do Instituto mantiveram esta coleção até a nossa época. Alguns deles sacrificaram sua vida por isso", acrescenta Igor Loskutov.

O agrônomo mostra os retratos de colaboradores do instituto, mortos de fome durante o bloqueio imposto pelos nazistas a Leningrado (antigo nome de São Petersburgo) entre 1941 e 1943.

Nikolai Vavilov morreu na prisão em 1943 após ter sido acusado de traição e de "ideologia burguesa".

O instituto leva seu nome desde 1964.

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