Urbanização selvagem de Houston na mira após inundações históricas

Washington, 2 Set 2017 (AFP) - A urbanização selvagem de Houston e seus arredores agravou as devastadoras inundações provocadas pelo furacão Harvey, segundo especialistas em planejamento urbano, que alertam sobre o aumento destes fenômenos devido ao aquecimento global.

A explosão nestes últimos anos de construções residenciais e locais comerciais, instaladas inclusive em zonas inundáveis, reduziu a capacidade dos solos de absorver água da chuva, explicam os especialistas.

A população da grande Houston aumentou 42% entre 1995 e 2015, chegando a 4,4 milhões de pessoas. Para se adaptar a este rápido crescimento demográfico, 10.000 hectares de zonas pantanosas e de pradarias selvagens foram urbanizados, segundo um estudo da universidade A&M do Texas.

A maior perda dos espaços de absorção de água da chuva ocorreu no condado de Harris, que abrange Houston, a quarta maior cidade do país, onde cerca de 30% desses espaços úmidos desapareceram.

O conjunto da aglomeração portuária de Houston e arredores, situado a em média 13 metros acima do nível do mar, perdeu a capacidade de absorver os 15 bilhões de litros de água de uma tempestade tropical, segundo este estudo.

Harvey provocou 56 trilhões de litros de água, algo nunca visto antes.

Além disso, o sistema de drenagem desta aglomeração do Texas em plena expansão, que consiste em uma rede de depósitos, canais, pântanos e rotas, não foi concebida para lidar com tempestades tropicais desta amplitude.

- Individualismo texano -"Há um grande número de indústrias em Houston que geram muitos postos de trabalho e que atraem muita gente, mas sem um limite para a construção na zona (...), uma abordagem do desenvolvimento que não é sustentável", explicou à AFP Joel Scata, especialista da ONG Natural Resources Defense Council.

Desde 2010, pelo menos 7.000 edifícios residenciais foram construídos no condado de Harris em terrenos identificados como inundáveis pelas autoridades federais.

Os representantes da prefeitura de Houston e do condado de Harris resistem há anos a adotar normas de construção mais estritas.

Os residentes, por sua vez, votaram em três ocasiões contra a adoção de um código de urbanismo.

No entanto, Houston é afetada frequentemente por tempestades tropicais e inundações, como as de maio de 2015 e abril de 2016, que deixaram oito e 17 mortos, respectivamente.

Alguns projetos criados após a passagem do furacão Ike em 2008, destinados a controlar melhor as inundações em nível regional, também não obtiveram resultados.

"Não há um plano regional amplo e coordenado que inclua as atividades de Houston, do condado de Harris e de todas as comunidades vizinhas", lamenta Gerry Galloway, professor de engenharia civil da Universidade de Maryland que trabalhou no Texas.

- Conscientização -Se não ocorrerem mudanças, esta urbanização selvagem vai continuar aumentando o risco de inundações, "um problema que vai piorar com as mudanças climáticas", alerta o professor Galloway.

Segundo ele, as populações mais afetadas pelas inundações de Houston são as mais vulneráveis economicamente, que não têm meios para adquirir seguros.

Neste contexto, o governo federal que adjudica os fundos de reconstrução tem que desempenhar um papel-chave para impor normas de construção que aumentem a proteção contra o risco de inundação, afirma o professor.

"Espero que Harvey provoque uma conscientização nos Estados Unidos sobre o desenvolvimento urbano" perante estes riscos, aponta Joel Scata.

O especialista lamenta que o presidente Donald Trump tenha revogado, há duas semanas, o decreto das normas federais de proteção contra as inundações que foi implantado por Barack Obama após a passagem do furacão Sandy, em outubro de 2012, que devastou a costa de Nova Jersey e inundou uma parte de Nova York.

A decisão de Trump poderia impedir a aplicação dessas regulamentações nas zonas urbanas devastadas pelo Harvey, teme Scata.

Estas normas estipulam que, além dos hospitais, sejam reconstruídos casas de repouso e outras infraestruturas essenciais em terrenos com baixo risco de inundação quando os fundos procedam do governo federal.

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