Elementos apontam para relação entre furacões e mudanças climáticas

Paris, 12 Set 2017 (AFP) - Muitos cientistas estão convencidos de que as mudanças climáticas estão por trás da descomunal magnitude dos furacões Harvey e Irma, mas, tecnicamente, ainda não podem bater o martelo sobre essa hipótese.

Os elementos de comprovação podem ser verificados: aumento do nível do mar, "boom" das temperaturas oceânicas, mudanças atmosféricas, modelos informáticos que confirmam a tendência, entre outros.

No entanto, ainda falta um dado conclusivo em ciência do clima: a observação de ciclones durante um período suficientemente longo.

Em resumo, é como se todos os elementos apontassem para o acusado de um crime, mas faltassem suas impressões digitais sobre a arma.

"É muito frustrante", considera Dann Mitchell, especialista em circulação atmosférica da Universidade de Bristol, na Grã-Bretanha.

"Ainda não podemos dizer com 100% de certeza que o que reforçou a intensidade do Irma foram as mudanças climáticas, enquanto que, para outros fenômenos, como as ondas de calor, já podemos", acrescentou.

- Calor, fonte de energia dos furacões -"A física é muito clara: os furacões alimentam sua energia destruidora com o calor do oceano", ressalta Anders Levermann, professor da Universidade de Potsdam, na Alemanha, que lembra que as temperaturas do planeta aumentam devido "às emissões de gases causadores do efeito estufa ligadas à combustão do carvão, do petróleo e do gás".

O professor de Ciência Atmosférica James Elsner, da Universidade Estadual da Flórida, argumenta que, "em nível mundial, observamos que nesses últimos 30 anos as tempestades mais fortes ganharam força, devido ao aquecimento dos oceanos".

Os especialistas também dispõem de um acompanhamento em nível mundial dos oceanos, cujo nível aumentou em média 20 cm desde os anos 1880 e o início da Revolução Industrial.

"Sabemos que o nível do mar sobe e que continuará subindo com as mudanças climáticas", argumenta o especialista em furacões Chris Holloway, da Universidade inglesa de Reading.

Este aumento intensifica a capacidade destruidora dos furacões, ao reforçar as ondas que agravam as inundações.

- Até os polos -Embora haja evidências razoáveis, esses argumentos não são medidas diretas sobre os furacões e, por isso, os cientistas dizem que os estudos ainda não são conclusivos.

"A maior intensidade das tempestades é uma consequência esperada das mudanças climáticas, mas é muito cedo para dizer que esse furacão em particular foi reforçado por este fenômeno", disse Mitchell, referindo-se ao Irma.

Os cientistas não têm dados suficientes, porque os superfuracões - de categoria 4, ou 5, na escala de Saffir-Simpson - são pouquíssimo habituais se comparados com as ondas de calor, ou com as secas.

Uma amostra tão pequena impede estabelecer tendências, sobretudo, ao se considerar que os dados sobre furacões são apenas de algumas décadas.

Além disso, trata-se de "fenômenos 'ruidosos'", segundo Mitchell. Isso significa que é necessário poder diferenciar entre os "ruídos" das flutuações meteorológicas naturais e os sinais de mudanças climáticas.

"É como tentar escutar alguém que está sentado ao seu lado, enquanto toca uma música de fundo a todo o volume", ilustra Sally Brown, pesquisadora da Universidade de Sothampton, na Grã Bretanha.

"Eu teria que pedir a ela que repetisse várias vezes o que disse para ter certeza de que eu entendi", completou.

Apesar dessas limitações, os cientistas conseguiram medir algumas tendências, destacando, especialmente, o trabalho do pesquisador Jim Kossin, da Agência Americana Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês).

Em 2014, Kossin demostrou de maneira irrefutável que, há pelo menos 30 anos, todos os ciclones tropicais no mundo se aproximam dos polos, a um ritmo de 50 a 60 km por década. Algo que pode se dar apenas pelas mudanças climáticas, segundo este especialista.

"Os dados históricos são escassos, a maioria limitada ao Atlântico, e não são muito bons", resume Kerry Emanuel, do MIT de Boston.

"A genialidade de Kossin consistiu em descobrir que a latitude das tempestades em seu ponto crítico era facilmente detectável", comentou.

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