COP23: EUA apoiam energias limpas, seja qual for sua origem

Bonn, 16 Nov 2017 (AFP) - Os Estados Unidos reafirmaram nesta quinta-feira, na conferência do clima da ONU, em Bonn, que seguem seu próprio caminho e que recorrerão a qualquer tipo de energia limpa, enquanto cerca de 20 países prometeram que abandonarão o carvão na próxima década.

"Queremos apoiar as fontes de energia mais limpas e eficientes possíveis, seja qual for sua origem", declarou a subsecretária de Estado interina para assuntos ambientais, Judith Garber, na COP23.

Foi a primeira intervenção do governo de Donald Trump em uma conferência do clima desde que ele decidiu abandonar o histórico Acordo de Paris, assinado em 2015 para lutar contra as mudanças climáticas.

Sua intervenção recebeu poucos aplausos entre os representantes de 196 países.

"Independentemente do nosso ponto de vista sobre o Acordo de Paris, os Estados Unidos continuarão sendo um líder em energia limpa e inovação", assegurou Garber.

Essa liderança passa por utilizar os enormes recursos que os Estados Unidos ainda têm em matéria de combustíveis de origem fóssil, como o petróleo de xisto, ou o próprio carvão.

Para Washington, os avanços tecnológicos conseguiram transformar o carvão, o maior responsável pelo aquecimento global, em um recurso "limpo", algo contestado pelos especialistas em mudanças climáticas.

"Nossos princípios são o acesso universal à energia barata e confiável e mercados abertos e competitivos", disse.

Trump decidiu abandonar, em junho, o histórico Acordo de Paris porque considera que este prejudica os interesses energéticos de seu país.

Mas isso não significa, assegurou Garber, que os Estados Unidos renunciem a recursos como a energia solar, ou a "ajudar" os países em desenvolvimento a transformar seus setores energéticos.

Para isso a Casa Branca, que enviou seus próprio conselheiros à COP23, à margem da delegação do Departamento de Estado, organizou, na segunda-feira, uma apresentação sobre essas energias "limpas" que despertou protestos de ambientalistas.

"É construtivo fazer uma apresentação sobre o carvão? Obviamente não!" - declarou o ex-negociador do clima americano Todd Stern à AFP.

Cerca de 20 países, liderados pela Grã-Bretanha e Canadá, anunciaram uma "Aliança para o Abandono do Carvão".

Formada pela Bélgica, Costa Rica, El Salvador, Finlândia, França, Itália e México, entre outros, essa aliança quer eliminar definitivamente essa fonte energética, o mais tardar em meados do século - que é também o prazo previsto pelo Acordo de Paris para que o aquecimento global seja limitado abaixo de 2ºC.

Segundo as previsões atuais, o planeta não atingirá este objetivo, o que terá consequências devastadoras.

Ao abandonarem o Acordo, os Estados Unidos não contribuirão positivamente, seja qual for seu modelo energético, segundo um estudo publicado na quarta-feira.

O texto indicou que, no ritmo atual, o aquecimento chegará a 3,2ºC, meio grau centígrado acima do previsto, devido à decisão de Trump.

Outra aliança, liderada pelo Brasil, foi apresentada depois do discurso americano, para aumentar o uso de biocombustíveis.

No total, 19 países, entre eles Argentina, China, Índia e Uruguai, prometeram estabelecer objetivos coletivos para aumentar o uso dos biocombustíveis, a fim de lutar contra as mudanças climáticas.

- 'Decepção' -Oficialmente, os Estados Unidos não podem abandonar o Acordo de Paris até novembro de 2020. Enquanto isso, os enviados de Washington continuam participando das negociações de Bonn, que terminam na sexta-feira, e que buscam desenvolver o regulamento do Acordo de Paris.

"Os Estados Unidos participaram das negociações", explicou a repórteres o chefe negociador brasileiro, José Antônio Marcondes, falando em nome do grupo de países recentemente industrializados Basic (Brasil, África do Sul, Índia e China).

"Todos nós dos países Basic deixamos claro a nossa decepção", acrescentou.

Falando em nome de 134 países em desenvolvimento e da China (G77), a chanceler equatoriana María Fernanda Espinosa alertou sobre "a falta de progresso em temas financeiros, a falta de vontade de certos países e a aplicação de medidas unilaterais".

O projeto de regulamento deveria estar pronto para a próxima COP, que deve ser realizada daqui a um ano na Polônia.

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