"Estou feliz por ter a chance de morrer", diz cientista australiano de 104 anos

Em Basiléia

  • Sebastien Bozon/AFP

    Na véspera de seu suicídio assistido, cientista australiano David Goodall diz não pretender desistir da ideia

    Na véspera de seu suicídio assistido, cientista australiano David Goodall diz não pretender desistir da ideia

Um cientista australiano de 104 anos desatou a cantar nesta quarta-feira (9) quando disse, em uma sala cheia de jornalistas, que estava ansioso para finalmente ter autorização para acabar com a sua vida.

David Goodall não tem uma doença terminal, mas diz que sua qualidade de vida piorou significativamente nos últimos anos e que ele quer morrer.

"Eu não quero mais continuar com a vida", disse Goodall às dezenas de jornalistas e equipes de televisão que lotaram uma pequena sala em um hotel na cidade de Basiléia, no norte da Suíça, para ouvi-lo falar.

"Estou feliz por ter a chance amanhã de terminá-la, e agradeço a ajuda da profissão médica aqui para tornar isso possível", acrescentou.

Quando perguntado se ele havia escolhido alguma música para ouvir em seus momentos finais, disse que não havia sobre nisso.

"Mas se eu tivesse que escolher alguma coisa, eu acho que seria o movimento final da nona sinfonia de Beethoven", disse ele, antes de cantar um verso da Ode à Alegria, em alemão, e receber um forte aplauso.

Goodall foi impedido de procurar ajuda para pôr fim à sua vida na Austrália, então foi obrigado a viajar para a Suíça, algo que ele disse que ressente.

"Eu preferiria tê-la (terminado) na Austrália, e lamento muito que a Austrália esteja atrás da Suíça" quando se trata de leis sobre o direito de morrer, afirmou.

O cientista de 104 anos disse que espera que o interesse generalizado em seu caso estimule a Austrália e outros países a repensarem suas legislações.

Um instrumento de mudança? 

"Eu gostaria muito de ser lembrado como um instrumento para libertar os idosos da necessidade de perseguir sua vida sem distinção", disse.

O pesquisador associado honorário da Universidade Edith Cowan de Perth deixou a Austrália há uma semana e parou em Bordeaux, na França, para ver a família antes de chegar a Basel, na segunda-feira.

Ele falou ao lado de Philip Nitschke, o fundador da Exit International, que o ajudou a fazer sua última viagem, e Moritz Gall, da Eternal Spirit, a fundação suíça que concordou em ajudá-lo a morrer.

Goodall garantiu rapidamente um encontro com a fundação depois que tentou cometer suicídio por conta própria, mais cedo neste ano.

"Teria sido muito mais conveniente para todos se eu tivesse conseguido, mas infelizmente falhou", disse sobre a tentativa de suicídio.

Mas ele disse que estava feliz por terem lhe oferecido a "opção suíça", já que ele pôde ver a maior parte de sua grande família, que está espalhada por vários países, durante a preparação para seu último dia.

O suicídio assistido é ilegal na maioria dos países e era proibido na Austrália, até que o estado de Victoria se tornou o primeiro a legalizar a prática, no ano passado.

Mas essa legislação, que entrará em vigor em junho de 2019, só se aplica a pacientes terminais de mente sadia e com uma expectativa de vida inferior a seis meses.

De acordo com a lei suíça, entretanto, qualquer pessoa que tenha uma mente sã e que tenha, durante certo período de tempo, expressado um desejo consistente de encerrar sua vida, pode solicitar a chamada morte voluntária assistida.

A Eternal Spirit, uma das várias fundações da Suíça que ajudam pessoas que querem pôr fim às suas vidas, disse nesta quarta-feira que Goodall passou por duas visitas médicas com profissionais diferentes desde que chegou à cidade.

Sem hesitação

"Esta noite a diretoria da fundação estudará os documentos e também julgará o desejo de morrer de David Goodall", disse por e-mail Erika Preisig, chefe da Eternal Spirit, acrescentando que a resposta "provavelmente" seria sim.

Mas Gall enfatizou aos repórteres que até o último minuto Goodall teria a opção de voltar atrás, caso mude de ideia.

Perguntado se ele tinha alguma hesitação ou dúvida, o homem de 104 anos disse: "Não. Nenhuma".

Na morte assistida, a pessoa deve ser fisicamente capaz de realizar a ação final por conta própria.

A maioria das fundações suíças pede aos pacientes para beberem pentobarbital sódico, um sedativo eficaz que, em doses fortes o suficiente, faz com que o músculo cardíaco pare de bater.

Como a substância é alcalina e queima um pouco quando engolida, a Eternal Spirit optou por infusões intravenosas.

Um profissional prepara a agulha, mas cabe ao paciente abrir a válvula que permite que o barbitúrico de curta duração se misture com uma solução salina e comece a fluir em sua veia.

Goodall disse que espera que sua morte aconteça por volta do meio-dia de quinta-feira.

A Exit International e a Eternal Spirit estão defendendo que todos os países introduzam sistemas semelhantes ao da Suíça, permitindo que as pessoas escolham morrer "com dignidade".

"Este é um direito humano, poder tomar uma decisão feita por um adulto racional para dar esse passo", disse Nitschke.

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