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Mundo é chamado a 'não trair' as gerações futuras diante da mudança climática

2018-12-03T18:52:00

03/12/2018 18h52

Katowice, Polónia, 3 dez 2018 (AFP) - Os países mais ameaçados pelos efeitos devastadores da mudança climática chamaram, nesta segunda-feira na Polônia, os mais ricos a se comprometerem seriamente na luta para deter o aquecimento, sob pena de "trair" as gerações futuras.

Apesar das evidências irrefutáveis da mudança climática, o mundo "não está indo na direção correta" para frear seus efeitos catastróficos - advertiu o secretário-geral da ONU, António Guterres, no segundo dia da 24ª Conferência do Clima da ONU (COP24), realizada em Katowice.

Para "muitas pessoas, regiões e até mesmo países já é uma questão de vida ou morte". Portanto, "é difícil entender por que nós, coletivamente, ainda estamos nos movendo tão lentamente, e na direção errada", acrescentou Guterres durante a Conferência, marcada por ausências de importantes chefes de Estado e de governo.

Mas para os países em desenvolvimento já afetados pelas secas, inundações e aumento do nível do mar, são os países ricos que devem fazer mais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e ajudar o Sul a se preparar diante das catástrofes.

"Temos a sensação de que estão nos punindo por erros que não cometemos. A comunidade internacional deve agir para que se faça justiça", declarou a presidente do Nepal, Bidhya Devi Bhandari, aludindo em particular ao degelo das geleiras do Himalaia.

"Aos que ainda estão arrastando os pés, digo simplesmente: 'façam'", declarou o primeiro-ministro de Fiji, Frank Bainimarama, presidente da COP23.

"Se ignorarmos as provas irrefutáveis, seremos a geração que traiu a humanidade", alertou.

O Acordo de Paris busca limitar o aquecimento global a +2°C e, se possível, a +1,5°C, em comparação com a era pré-industrial.

O último informe do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês) mostra, porém, as claras diferenças da incidência entre esses dois objetivos e destaca que seria necessário permanecer abaixo de +1,5ºC para poder reduzir as emissões de CO2 em cerca de 50% até 2030, em relação aos níveis de 2010.

- 200 bilhões de dólares -Para ajudar os países em desenvolvimento a reduzirem suas próprias emissões e se adaptarem aos impactos das mudanças climáticas, os países do Norte prometeram elevar em 2020 seu apoio financeiro a 100 bilhões de dólares por ano.

Mas embora os fluxos estejam aumentando, a meta ainda não foi alcançada e, além disso, segundo a OCDE, esta soma é insuficiente para cobrir as necessidades colossais destes Estados.

Nenhum dos países mais poluentes do planeta estava representado no mais alto nível em Katowice. A Suíça anunciou uma ajuda de 120 milhões de dólares.

Em um contexto internacional pouco propício a novos compromissos, financeiros ou de outro tipo, o Banco Mundial anunciou o desbloqueio de 200 bilhões de dólares entre 2021 e 2025 para ajudar na redução de emissões e na adaptação à mudança climática, o "dobro" em relação ao período anterior.

"Cada um deve fazer o que pode contra as mudanças climáticas. Do contrário, nossos filhos e netos não nos perdoarão", alertou a diretora-geral do Banco Mundial, Kristalina Georgieva, referindo-se, comovida, ao futuro que aguarda sua neta de oito anos.

- Leis da física -"Os líderes políticos devem começar a questionar os interesses que perpetuam a crise climática", pediu Baron Divavesi Waqa, presidente da ilha de Nauru, em alusão às energias fósseis. "Os poderosos sempre jogaram com outras regras, mas não podem escapar às leis da física".

Convidado surpresa da cúpula, o ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger também denunciou o uso das energias fósseis.

"Eu gostaria de ser o Exterminador na vida real para viajar no tempo e pôr fim às energias fósseis quando foram descobertas", declarou o ator.

"O mal absoluto são as energias fósseis, o carvão, a gasolina, o gás", insistiu ante o presidente da COP24, Michal Kurtyka, cujo país continua defendendo sua indústria do carvão.

A Polônia quer promover uma "transição justa" para uma economia baixa em carbono, mas alguns temem que seja apenas uma desculpa para desacelerar a passagem para uma economia de baixo consumo de carbono.

"Não podemos nos permitir políticas climáticas contrárias à vontade da sociedade e em detrimento das condições de vida", disse o presidente polonês, Andrzej Duda, aludindo à crise dos "coletes amarelos" na França, que começou com a rejeição popular a uma taxa ecológica sobre os combustíveis.

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