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Como o cérebro grava para sempre a língua materna

BBC
Imagem: BBC

04/02/2015 15h15

Como crianças que são criadas longe de seu país de origem e perdem contato com seu idioma nativo têm muito mais facilidade para falá-lo anos – ou décadas – mais tarde?

A resposta está no cérebro. Os padrões neurais criados pelo idioma ouvido nos primeiros anos de vida permanecem guardados na memória.

E esses padrões são mantidos ao longo do tempo, mesmo que a pessoa não volte a entrar em contato com a língua que ouviu logo quando nasceu.

Essa é a conclusão de um estudo publicado recentemente pela revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.

É por causa desse "rastro" deixado pela língua abandonada que crianças adotadas por pais de outra nacionalidade, por exemplo, têm maior facilidade para aprender seu idioma nativo.

Mandarim e francês

"Nos estágios iniciais do desenvolvimento da linguagem, as crianças aprendem a distinguir independentemente do idioma – quais sons são importantes e significativos", afirmou à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Lara Pierce, da Universidade McGill, no Canadá, e autora do estudo.

"Ele deixa uma espécie de representação no cérebro, que as crianças usam para construir sua língua nativa", acrescenta.

O objetivo do estudo foi analisar se essas representações foram mantidas ao longo da vida ou desapareceram quando a criança deixou de ouvir sua língua nativa.

Para conduzir a pesquisa, Pierce e sua equipe realizaram uma série de exames de ressonância magnética de 44 meninas entre 9 e 17 anos, enquanto escutavam gravações em mandarim.

Um grupo era formado por garotas nascidas na China, adotadas por uma família francesa antes de complementarem três anos de idade, que só falavam francês.

O segundo grupo era composto por crianças que falavam fluentemente francês e mandarim.

E um terceiro grupo incluía meninas francófonas que não falavam ou entendiam o mandarim.

Linguagem e som

Ao ouvir a gravação, os cérebros das meninas que tiveram algum contato prévio com o mandarim – as que falavam e as que não falavam o idioma - mostraram atividade no hemisfério esquerdo, onde a linguagem é processada.

Nas meninas que só falavam francês, foram ativadas regiões do hemisfério direito, envolvido no processamento dos sons.

"Ficamos surpresos que o padrão de ativação cerebral das meninas chinesas que foram adotadas e perderam completamente o contato com a língua coincidiu com as meninas que falavam chinês desde o nascimento", explicou Pierce.

"As representações neurais que embasam esse modelo só poderia ter sido adquirida durante os primeiros meses de vida", acrescenta a pesquisadora.

Variações

O experimento também avaliou crianças menores de seis meses, e nelas também se pôde comprovar padrões cerebrais criados logo após o nascimento.

"No entanto, vimos que há uma relação entre a idade de adoção e a intensidade da resposta do cérebro", afirmou Pierce.

"Quanto mais essas crianças ouviram mandarim nos primeiros meses, mais se ativou essa região do cérebro".

"A partir dessa conclusão, podemos afirmar que se a exposição à língua nativa dura pouco tempo, menos de seis meses, o efeito é menos forte", acrescenta Pierce.

Segundo os autores, o estudo sugere, embora não de forma conclusiva, que, mesmo se não falarmos um determinado idioma, se formos expostos a ele precocemente, podemos reaprendê-lo mais tarde com mais facilidade.

Além disso, no campo da teoria da aprendizagem de línguas, a pesquisa reforça o argumento de que as representações neurais pré-existentes no cérebro não são perdidas se não forem usadas, ou mesmo desaparecem com a aprendizagem de uma nova língua, mas apenas se tornam mais difíceis "de serem acessadas".

O próximo passo, diz Pierce, será investigar se essas representações neurais afetam a forma como o cérebro aprende uma segunda língua e analisar em detalhes o processo de aprendizagem da língua esquecida.