O pássaro que escapou de um 'monstro marinho' pré-histórico

Robin Wylie - Da BBC Earth

No início da década de 1960, paleontólogos que escavavam na região rural de Dakota do Sul, nos Estados Unidos, descobriram o osso fossilizado de uma pata dehesperornis , pássaro aquático parecido a um pinguim e que viveu na época dos dinossauros.

À primeira vista, o fóssil não tinha nada de especial. Cientistas demoraram mais de 50 anos para reconhecer a significância histórica do osso. Ohesperornis em questão tinha sobrevivido ao ataque de um plessiossauro, réptil marinho maior que um humano. Trata-se de apenas o segundo fóssil encontrado até hoje com sinais de ataque de um plessiossauro.

Mordida

A descoberta foi feita por David Burnham, da Universidade de Kansas. Ele e sua equipe estavam embalando o osso para armazenamento quando notaram marcas incomuns na superfície. A parte do osso que se conectava à pata tinha uma aparência irregular - ossos normais, mesmo depois da fossilização, apresentavam um perfil mais liso. Osso em questão sugeria que algum tipo de trauma ocorrera.

  • Leia também: Como a descoberta de uma nova espécie pode explicar o poder do Tiranossauro Rex
  • Siga a BBC Brasil no Facebook e no Twitter

Isso fez com que a equipe de Burnham examinasse o fóssil mais atentamente. O time descobriu três pequenas indentações, espaçadas regularmente e posicionadas de forma discreta na parte debaixo do fóssil.

O hesperornis tinha sido mordido por alguma coisa. Mas para provar que as marcas tinham sido feitas pela mandíbula de um predador, os cientistas precisavam identificar que predador marinho tinha dentes que se encaixavam nessas marcas. E não havia escassez de suspeitos.

O hesperornis viveu há 80 milhões de anos, em uma era conhecida como Cretáceo. Não era a melhor época da história para ser um pássaro aquático: os mares da Terra estavam repletos de criaturas que poderiam curtir um jantar à base de carne de aves - incluindo tubarões e répteis grandes como mossassauros e plessiossauros.

Identificar o predador ficou mais fácil porque a coleção de fósseis da Universidade do Kansas tem espécimes de muitos desses predadores, então pesquisadores puderam comparar suas mandíbulas com as marcas no fóssil. De cara, o formato arrendondado das mordidas descartou o ataque de um tubarão, pois esses peixes têm dentes achatados. Nenhum dos fósseis de mandíbulas de mossassauro chegou perto de alinhar com as marcas no osso dohesperornis.

  • Leia também: Cientistas brasileiros tentam desvendar como foi verão na Antártica há 80 milhões de anos

Foi aí que os cientistas usaram a caveira de um jovem plessiossauro. O tamanho e o espaçamento dos dentes encaixou-se direitinho com as marcas. "Houve uma margem de erro de um milímetro", explicou Burnham.

Os cientistas acreditam que o hesperornis escapou do ataque. Exames no osso da ave levaram à conclusão de que o animal sofreu uma infecção, provavelmente causada pela mordida do plessiossauro, o que representaria prova da sobrevivência.

Quando paleontólogos encontram marcas de mordidas em fósseis, normalmente é impossível dizer se o animal foi mordido antes ou depois de morrer, mas este caso foi diferente. Antes deste achado, havia poucos exemplos de fósseis com marcas curadas de ataques. E havia apenas um exemplo incontestável de mordida de plessiossauro: o de um crocodilo com um dente de plessiossauro encravado em seu crânio. O osso tinha crescido em volta do dente.

Um pouco mais de investigação revelou ainda mais sobre o momento em que ohesperornis foi atacado: com base na orientação da mordida do plessiossauro, Burnham e outro cientista, Bruce Rotschild, conseguiram reconstituir a direção do ataque. "Pela orientação da mordida, o plessiossauro veio pela lateral e teria conseguido colocar a perna inteira do pássaro em sua boca", diz Burnham.

  • Leia também: Quatro coisas que mudam com a criptografia no WhatsApp - e por que ela gera polêmica

A descoberta pode mudar o que conhecemos sobre os hábitos alimentares do plessiossauro. A mandíbula que "encaixou" nas marcas na perna dohesperornis veio de uma espécie relativamente pequena do réptil, que tinha um pescoço curto e uma cabeça longa, com uma boca repleta de pequenos e afiados dentes. Anteriormente, muitos pesquisadores presumiam que plessiossauros usavam essas atributos para pegar pequenas e velozes presas como peixes.

As novas descobertas sugerem que os plessiossauros tinham uma dieta mais diversa. "Esse estudo mostra evidência bastante convincente de que plessiossauros podem ter sido predadores oportunistas", diz Tom Stubbs, da Universidade de Bristol, no Reino Unido. "Muitos especialistas não consideravam aves marinhas como fontes de alimento para plessiossauros. Essa é a mais direta evidência que temos de ataques diretos e sugere que os pássaros estava no cardápio dos plessiossauros".

  • Leia a versão original dessa reportagem (em inglês) no site BBC Earth .

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos