Lisboa usa vaquinhas virtuais para promover projetos de cidadania e melhorias na cidade

Cartaz da Boaboa

A plataforma estimula a criação de projetos que tenham um impacto no desenvolvimento social de Lisboa

A prefeitura de Lisboa criou uma espécie de vaquinha virtual para bancar projetos de desenvolvimento social.

Intitulada Boaboa, a plataforma de financiamento coletivo funciona como um site de "crowdfunding", nos quais projetos previamente aprovados pela prefeitura são apresentados à população, que pode investir um determinado valor naquele com que mais se identifica.

São aceitos projetos de cidadãos que morem em Lisboa ou que contemplem a cidade e tenham impacto direto na vida da capital portuguesa. Até agora, a prefeitura já recebeu projetos que vão da construção de parques infantis até a confecção de roupas e brinquedos destinados a crianças carentes.

"A população muitas vezes quer ajudar, mas não sabe ao certo como fazê-lo. Com a plataforma, basta escolher um projeto e fazer a doação", diz Fernando Monteiro, funcionário da Câmara Municipal de Lisboa e responsável pela plataforma de financiamento.

Segundo ele, "as pessoas se sentem seguras em doar, pois sabem que há uma fiscalização que garantirá que o montante arrecadado será utilizado naquilo a que foi prometido".

Para transformar a própria plataforma em realidade, a Câmara Municipal firmou parceria com entidades locais: a Calouste Gulbenkian, fundação sem fins lucrativos que promove a cultura, o Banco Montepio e o escritório de advocacia Vieira de Almeida e Associados, responsável por fiscalizar a aplicação do dinheiro arrecadado.

"Nosso objetivo foi desenvolver uma plataforma que complementasse a administração da cidade. A 'Boaboa' possibilita transformar em realidade iniciativas e ideias que raramente sairiam do papel pelas mãos do Estado, principalmente por falta de recursos", afirma Monteiro.

A capital portuguesa aposta em dois fatores para impulsionar a plataforma e fazer dela um instrumento de desenvolvimento: o primeiro deles é a facilidade para a transferência de recursos doados, em contraponto à habitual burocracia para se aprovar um projeto pelas vias tradicionais.

"Quando o projeto é aprovado, o dinheiro angariado é transferido em no máximo dois dias aos idealizadores", afirma Monteiro.

O segundo fator é o engajamento da própria população local.

Veia empreendedora

Elsa Serra posa com livros em sua casa

A escritora Elsa Serra busca financiamento para o seu projeto de estimular a leitura entre os idosos

Nos últimos anos, Lisboa tem promovido o empreendedorismo e criado inciativas para atrair novos investidores à cidade. Mas, para as autoridades, ainda faltava uma maneira de canalizar os frutos colhidos deste esforço para a melhoria da capital portuguesa.

"O projeto surgiu pelo fato de Lisboa ter dedicado especial atenção ao empreendedorismo nos últimos anos. A Câmara Municipal e nossos parceiros entenderam que faltava uma plataforma que pudesse tirar proveito dessa veia empreendedora para promover o desenvolvimento social", explica Monteiro.

Para garantir que os projetos vão gerar algum tipo de retorno a Lisboa, a "Boaboa" foi definida como uma plataforma de financiamento coletivo de viés territorial, a primeira com essa característica em toda a Europa. Por isso que apenas cidadãos de Lisboa ou projetos que tenham impacto na cidade são aceitos.

"Isso garante que a nossa cidade vai se beneficiar do que for aprovado".

Vestidos ou um parque infantil

Monteiro esclarece que já foram recebidos projetos com diferentes fins.

"Um exemplo do potencial do crowdfunding social está numa empresa que apresentou seu projeto na nossa plataforma. Eles estão em um bairro social de Lisboa, chamado Ameixoeira, nas cercanias do aeroporto. Esta empresa produz bijuterias e vestidos, o que não parece ser nada demais. Mas, no fundo, ela está gerando trabalho aos moradores da comunidade, o que faz com se sintam integrados a toda a cidade", destaca.

Triciclo de Santo Antônio

Projetos incluem um triciclo para transportar imagem de Santo Antônio pela cidade

Outra iniciativa, chamada de "Na rua com histórias - Uma biblioteca para todos", foi criada com o objetivo de levar a leitura para idosos que vivem nos bairros mais antigos de Lisboa. O projeto está em fase de captação de financiamento na "Boaboa" e visa criar um veículo capaz de transportar livros pela cidade.

"Passei dois anos praticamente sozinha enquanto concebia este projeto. A 'Boaboa' tem sido importante para que eu possa divulgá-lo", diz à BBC Brasil Elsa Serra, criadora do "Na rua com histórias".

Além de impulsionar quem está começando, a plataforma lisboeta tem sido utilizada por iniciativas já consolidadas na capital portuguesa. Fundada em 2007, a Orquestra Geração é um programa de inclusão social de crianças e jovens pela música e conta com cerca de 130 alunos.

Nos últimos meses, a Orquestra utilizou a plataforma para ajudar uma de suas alunas mais promissoras. Aos 12 anos, o talento de Sara no violoncelo foi reconhecido com a aceitação em uma escola de ensino especializado em música, mas ela utilizava um instrumento emprestado pela própria instituição.

Sara e seu violoncelo

Um projeto possibilitou que Sara, de 12 anos, comprasse o violoncelo que precisava para estudar em uma escola de música

A Orquestra Geração conseguiu então, em poucos dias, ultrapassar a meta de 1,5 mil euros (R$ 5,5 mil) na Boaboa para comprar um instrumento. O violoncelo que estava emprestado a Sara servirá para que outra criança dê os primeiros passos na música.

"Foi uma bela forma de sensibilizar a colaboração da população para projetos desenvolvidos na sua cidade, promovendo uma cidadania ativa. Para financiamentos relativamente pequenos é uma forma eficaz, desde que haja bastante iniciativa por parte dos promotores da campanha", opina Helena Lima, assessora da direção da Orquestra Geração.

Mas Lima diz que a Boaboa deve manter-se focada em pequenas iniciativas de viés social, e não ser encarada como uma substituta do papel social do poder público.

"(O projeto) pode ser mais atrativo para os contribuintes, mas não deve nunca substituir a intervenção e responsabilidade do Estado, a quem compete a definição das políticas e a distribuição das verbas dos impostos", defende.

Em quatro meses de existência, a plataforma aprovou quatro projetos: a compra do violoncelo para Sara, a confecção em Lisboa de vestidos para serem enviados a meninas carentes na África, a publicação do livro Sobre a alma e o pó dela, da escritora Soraia Ribeiro, e um projeto de estudantes locais para construir uma embarcação movida a energia solar e participar de competições internacionais.

Outros 20 projetos serão lançados em breve, explica Fernando Monteiro.

A facilidade e o baixo custo de manutenção da plataforma para a Câmara Municipal tornam a ideia atraente para ser implementada em outras cidades.

"Não definimos metas. O que queremos é aprovar o maior número possível de projetos. Quanto mais forem financiados, maior será o valor criado para Lisboa e maior será o número de problemas da cidade que serão resolvidos", conclui Monteiro.

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