Dança

Os bichos sabem dançar de verdade?

Melissa Hogenboom

  • Tim Laman/National Geographic Creative

    Macho de ave-do-paraíso demora vários anos para aprender seus 'passos de dança'

    Macho de ave-do-paraíso demora vários anos para aprender seus 'passos de dança'

Se você assistir à bela demonstração de uma ave-do-paraíso macho cortejando uma possível parceira, é difícil não chamá-la de dança. Para tornar seus movimentos ainda mais atraentes ao olhar, o macho chega até a retirar obstáculos da frente, para que qualquer fêmea curiosa possa vê-lo em todo o seu esplendor.

Outros animais também parecem dançar. Você já deve ter ouvido falar de Snowball, a famosa cacatua dançante, ou do leão marinho que se move ao som de Thriller, de Michael Jackson. Claro, não são piruetas e adágios de balé clássico. Mas como nós, esses animais podem levar anos para apresentar movimentos sofisticados de dança.

Apesar das habilidades mostradas por esses bichos, há um debate em curso para saber se a capacidade de dançar é exclusiva dos humanos, ou se é algo enraizado em nossa história comum de evolução com o reino animal.

Hoje, há duas teorias mais aceitas sobre a origem da dança - mas não está claro se elas conseguem explicar tudo sozinhas.

Não há apenas uma maneira de definir o que é dança. Isso torna mais difícil comparar nossos tangos e sambas aos movimentos dos animais. Mas quando você divide a dança em partes separadas, fica mais fácil perceber semelhanças.

Há algumas capacidades básicas envolvidas. Uma delas é se mover no ritmo, o que humanos normalmente fazem diante de alguma música ou batida. Outra é sincronizar movimentos com outro indivíduo. Imitar os outros também é fundamental, pois permite aos dançarinos aprender passos mais complexos.

Mas até esses comportamentos isolados dependem de várias coisas ao mesmo tempo. Por exemplo: o som é processado pela porção auditiva do cérebro, enquanto o movimento envolve o córtex motor.

De qualquer maneira, está ficando mais fácil estudar esses componentes da dança no reino animal. Isso levou pesquisadores a investigar como a dança pode ter evoluído.

Getty Images
Papagaios são espécies com capacidade de aprendizado vocal

'Dançarinos' do reino animal

Quando um vídeo da cacatua Snowball apareceu na internet em 2007, pesquisadores ficaram surpresos. Um animal aparentemente dançava em sintonia com uma batida, algo que até então se pensava ser um dom apenas humano.

Eles concluíram que Snowball podia dançar porque essa ave é uma espécie de expressão vocal. Essa habilidade ajudaria a perceber as batidas.

Em artigo publicado em 2016, que analisou a última década de estudos sobre o assunto, pesquisadores sugerem que a capacidade de imitação é um componente fundamental da dança.

"Os casos mais significativos de imitação motora em animais vêm de humanos fazendo coisas como balé e dança contemporânea. Você não tem apenas que copiar a imagem, mas traduzi-la em seu corpo. A chave são os movimentos precisos", afirma Nicky Clayton, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Uma das autoras do estudo de 2016, ela estuda pássaros e também é dançarina.

Por isso, Clayton e seus colegas argumentam que o aprendizado vocal, que requer capacidade de aprender músicas ou falas usando a imitação, tem ligação direta com nossa habilidade de dançar. Essa é a chamada "hipótese do aprendizado vocal", que surgiu em 2006.

Essa teoria propõe que apenas outros animais com capacidade de aprendizado vocal podem "se mover em sincronia rítmica com uma batida musical".

Um estudo de 2008 do cérebro de pássaros ajuda a entender a possível razão disso. Áreas do cérebro relacionadas ao movimento e aprendizado local são vizinhas, e a última se desenvolveu como uma "especialização de um caminho pré-existente" das funções de movimento.

Se essa hipótese estiver correta, a habilidade de se mover com uma pulsação rítmica seria limitada à maioria de espécies de expressão vocal, como papagaios e pássaros cantores; cetáceos, como baleias e golfinhos; e pinípedes, como leões marinhos e morsas.

Em outras palavras, concluem Clayton e seus colegas, a dança seria apenas um subproduto da imitação.

Hipóteses para a dança dos bichos

Há, contudo, outras ideias sobre como a dança pode ter evoluído.

Peter Cook, do New College of Florida (EUA), e Andrea Ravignani, da Universidade de Bruxelas (Bélgica), dizem acreditar que a hipótese do aprendizado vocal não conta toda a história.

Contrariando a teoria de Clayton, eles afirmam, em um artigo publicado em outubro de 2016, que a imitação é um fator importante, mas a dança vai além disso.

Para iniciantes, a habilidade em bater o pé no ritmo pode ser aprendida sem imitar ninguém.

O mesmo pode ocorrer ao inventar um novo movimento de dança, como dançarinos que improvisam normalmente fazem.

Para Cook, as "mudanças no cérebro que permitiram aos humanos dançar" devem ter vindo de uma capacidade básica de "acompanhar o ritmo em um contexto social".

Essa habilidade - "não a dança por si, mas a capacidade de perceber o ritmo e usá-lo socialmente" - está amplamente presente no reino animal.

O criador da teoria da Evolução, Charles Darwin, pensou algo parecido.

Em seu livro de 1871  "A Origem do Homem", ele escreveu que "a percepção de cadências musicais e de ritmo provavelmente é comum a todos os animais e sem dúvida depende da natureza fisiológica comum de seus sistemas nervosos."

Agora começam a surgir provas de que Darwin estava no caminho certo nesse tema.

Em artigo de 2013, Cook relatou o caso de um leão marinho da Califórnia que mostrava habilidades rítmicas mesmo sem aprender vocalizações. Também se tratava de um ótimo dançarino, que podia mexer a cabeça em diferentes ritmos, mais do que simplesmente copiar um treinador.

Entre nossos parentes mais próximos, os primatas, diversas espécies apresentam habilidades rítmicas. Macacos conseguem batucar em pedaços de madeira, e também gritam juntos.

Até animais bem diferentes possuem habilidades rítmicas inatas, como certas espécies de caranguejo, que balançam as patas em coreografias conjuntas, e sapos que balançam os pés com cadência.

Cook afirma que esses e muitos outros animais usam o ritmo para vários tipos de comportamento que pouco têm a ver com dança.

"Pode ser um comportamento de acasalamento, ou rituais de competição por parceiros", afirma ele. "Existe essa habilidade básica de ser sensível ao ritmo no ambiente e de empregá-lo de modo social", completa.

Para o pesquisador, o ritmo é a capacidade básica necessária para dançar, e está espalhado pelo reino animal.

Ocorre apenas que diferentes animais usam o ritmo de formas diferentes, para o que é mais importante para cada um.

Sintetizando as ideias

É uma ideia fascinante, mas evidências acumuladas nos últimos anos mostram que provavelmente nenhuma hipótese tem todas as respostas.

David J. Phillip/AP
Percepção de ritmo dos macacos não costuma ser boa


Ocorre, por exemplo, que alguns animais bons em aprendizado vocal são surpreendentemente ruins de ritmo. Isso enfraquece a hipótese do aprendizado vocal, e também parece contradizer a ideia de Cook de que o ritmo é universal.

Um estudo de 2016, por exemplo, descobriu que mandarins (Taeniopygia guttata) ? uma espécie de pássaro nativa da Austrália ? têm dificuldade para detectar padrões rítmicos e que não conseguem diferenciar ritmos simples.

"Muitos animais podem se mover de forma coordenada e rítmica, mas isso não significa que tenham sensibilidade a ritmos em geral, ou que consigam sincronizar outros comportamentos com um ritmo externo", afirma Carel ten Cate, da Universidade de Leiden, na Holanda.

Os macacos-rhesus (Macaca mulatta), por exemplo, são muito mais parecidos conosco do que os mandarins. Mas não chegam nem perto dos humanos ao identificar uma batida, de acordo com um estudo sobre seus cérebros publicado em 2012.

Como explicar, portanto, esses "ritmos atravessados"?

Uma possibilidade é que não tenhamos desenvolvido os experimentos certos para estudar as capacidades desses animais. Macacos apresentam algumas habilidades rítmicas, mas talvez não reconheçam as batidas como nós.

Dançar também requer movimentos bem controlados do corpo, e humanos possuem cérebros bem maiores do que os dos primatas para lidar com isso. Talvez as ligações entre os sistemas motores e auditivos dos macacos sejam mais fracas do que as nossas, afirma Henkjan Honing, da Universidade de Amsterdã.

Chimpanzés, nossos parentes próximos, têm performance melhor. Uma pesquisa em curso sobre suas capacidades rítmicas indicou em 2015 que eles conseguem acompanhar o ritmo de uma pessoa batendo o dedo.

Há ainda uma última possibilidade. Talvez a dança humana e do resto dos animais não seja tão parecida como pensamos inicialmente.

Em humanos, a dança está mesclada com a música. Alguns pesquisadores até sugerem que uma coisa quase não ocorre sem a outra; algumas culturas humanas possuem apenas uma palavra para os dois conceitos.

Mas isso não é verdade, por exemplo, para todos os pássaros que dançam. Muitas espécies de aves-do-paraíso apresentam suas performances sem cantar, enquanto outros cantam e dançam. Outras espécies, como o Lyre Bird australiano, dançam sem cantar e cantam sem dançar.

Isso mostra que música e dança são atos voluntários, afirma Anastasia Dalziell, da Universidade Cornell (EUA), cuja pesquisa identificou uma "desconexão entre manifestações vocais e de dança em pássaros".

No caso dos pássaros estudados, música e dança não pareceram estar mesclados como são para nós. Isso sugere que as bases neurais da dança são diferentes em pássaros e em humanos.

Considerando as amplas diferenças entre humanos e aves, isso não é surpresa. Mas é uma pista de que a dança pode evoluir de distintas maneiras, possivelmente a partir de vários pontos de partida. Talvez algumas espécies comecem com ritmo e adicionem outros elementos depois, enquanto outras partem de uma facilidade para imitação e sigam a partir dali.

Em outras palavras, talvez não haja uma única explicação para a dança dos animais. Em vez disso, as razões pelas quais animais dançam podem ser tão diversas como as danças criadas pelos humanos.

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