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'Foi assédio sexual em sua expressão máxima', diz executiva envolvida em novo escândalo no Vale do Silício

Zoe Kleinman - Repórter de Tecnologia da BBC

07/07/2017 17h31

As revelações da empresária malasiana Cheryl Yeoh, que denunciou por assédio sexual um dos maiores investidores do Vale do Silício, se converteram em um escândalo de grandes proporções no principal polo mundial de empresas de tecnologia.

Dave McClure renunciou ao cargo de diretor-executivo da empresa 500 Startups, que ele mesmo fundou, após as declarações de uma ex-funcionária - o que estimulou Yeoh a contar sua história de assédio, mais grave, em um blog.

Em sua primeira entrevista exclusiva, à BBC, ela explicou por que decidiu falar sobre o incidente, que ocorreu em 2014. "Fiquei chateada e ferida, mas também surpresa ao perceber que isso não era algo fora do comum e é considerado normal no mundo das startups, da tecnologia."

"Agora percebo que isso não é normal e que é parte do problema, Por isso precisamos falar alto e claramente e começar um debate sobre como mudar essa dinâmica e sua narrativa", afirma.

Na semana passada, uma das mulheres que tentou emprego na empresa de McClure contou, em uma reportagem no New York Times, como havia sido assediada por ele durante o processo de contratação e, ao rejeitá-lo, deixou de ser contatada pela empresa.

Em um texto publicado no site Medium, McClure reconheceu que havia passado dos limites "com muitas mulheres em situações relacionadas ao trabalho, nas quais claramente tive comportamento inapropriado". Ele também anunciou que renunciaria ao cargo.

Receio

Segundo a empresária, a falta de conhecimento sobre as leis da Malásia a respeito de abuso sexual e sua posição como diretora-executiva de uma empresa de US$ 30 milhões também a impediram de denunciar. "Agora vivo nos EUA e o caso não ocorreu aqui, mas estou pesquisando o que posso fazer na Malásia."

O receio de serem julgadas, em sua opinião, impedem muitas mulheres de revelar os episódios pelos quais passam.

"É muito fácil culpar a vítima. Me perguntam: 'Por que você deixou ele entrar na sua casa? Por que vocês estavam bebendo?' Muito poucas pessoas estão dispostas a deixar que isso suje seu nome."

"No meu blog, tentei categorizar os níveis de assédio ou ataque sexual. Acho que um comentário que não é apropriado deveria ter consequências muito diferentes do que um contato físico indesejado. E acho que essas categorias diferentes podem fazer com que as pessoas se sintam melhor na hora de denunciar", diz.

"Aconselho a outras mulheres que escrevam tudo sempre que passarem por uma situação como essa e mandem por e-mail a si mesmas imediatamente, para que a data fique registrada e depois elas consigam se lembrar bem. Ou enviem a sua melhor amiga, a sua mãe ou a alguém de sua confiança. E, quando se sintam com forças, enviem à pessoa que passou dos limites para que ele saiba que isso não é normal e como você se sentiu."

A empresária, no entanto, acredita que "as coisas estão mudando" no Vale do Silício porque "cada vez mais mulheres têm coragem de falar publicamente".

"Foi o que aconteceu em 2015, com o caso de Ellen Pao (que denunciou discriminação de gênero em uma empresa de capital de risco), e mais recentemente com (as denúncias de) discriminação na Uber. E depois outras histórias apareceram sobre (a companhia de investimentos) Binary Capital", relembra.

"Há mais pessoas conscientes disso e estão sendo criadas políticas mais transparentes para afrontá-lo. Esperemos que os perpetradores pensem duas vezes antes de voltar a agir."