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A impressionante cabeça de lobo gigante de 30 mil anos encontrada com cérebro e presas intactos

Albert Protopopov
Cabeça tem 40 cm de largura e é muito maior que a de um lobo atual Imagem: Albert Protopopov

2019-06-13T05:04:38

13/06/2019 05h04

Item encontrado em território gelado da Sibéria, o permafrost, por caçadores, pode dar pistas sobre passado evolutivo de espécies como cães e lobos modernos.

Como um mensageiro da Era do Gelo, a cabeça de um lobo gigante encontrada na Sibéria tem sido estudada por cientistas da Rússia, Suécia e Japão como testemunho precioso do Pleistoceno.

Ela tem mais de 30 mil anos de idade, inclui presas e até mesmo um cérebro incrivelmente preservados. Trata-se da primeira cabeça intacta de um lobo adulto da Era do Gelo. Outro atributo importante é seu comprimento, de 40 cm - muito maior que a de um lobo atual, que mede entre 23 e 28 cm.

Os cientistas esperam que os restos ajudem a decifrar o que aconteceu com esse grande predador que vivia na Europa e na Ásia e com outras espécies, como o mamute-lanoso.

A cabeça foi apresentada ao público em uma exposição no Museu Nacional de Ciência e Inovação, em Tóquio.

Como foi a cabeça encontrada?

À medida que partes do permafrost (como é chamado a grande faixa de solo congelado de rocha e terra) da Sibéria derretem devido às mudanças climáticas, mais e mais vestígios extraordinários do passado estão sendo descobertos.

Uma das descobertas mais conhecidas é a de Yuka, um mamute-lanoso bebê perfeitamente preservado encontrado em 2011, e que viveu há 28 mil anos na região de Yakutia.

A cabeça do lobo foi encontrada no ano passado na mesma região, no rio Tirekhtyakh, por caçadores locais de presas de mamute.

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Yuka, um bebê mamute, foi achado em perfeito estado em 2011 por caçadores locais Imagem: Getty Images

Depois que a China proibiu o comércio de estatuetas e outros produtos de marfim feitos com presas de elefantes, os caçadores de presas no permafrost siberiano viram a oportunidade de um negócio lucrativo.

Foi assim que encontraram a cabeça do lobo - entregue por eles a Albert Protopopov, chefe do departamento de estudos sobre mamutes da Academia de Ciências de Yakutia.

Como a idade dos restos mortais foi determinada?

Protopopov não sabia a idade da cabeça, e contatou especialistas na Suécia.

David Stanton, pesquisador em paleogenética evolutiva do Museu de História Natural da Ciência na Suécia, foi um dos cientistas que ajudou a definir a idade.

"Fizemos datação por radiocarbono de um pedaço de tecido com uma empresa norte-americana chamada Beta Analytic", explicou Stanton à BBC News Mundo.

"A idade que determinamos foi entre 32.560 anos e 31.480 anos (com precisão de 95%). Outra equipe independente chegou ao valor de 32.705 a 31.690 anos, então podemos dizer com confiança que o espécime tem 32.000 anos, com uma margem de erro não superior a 500 anos ".

DNA

Protopopov também colaborou com a escola de medicina da Universidade de Jikei, em Tóquio, onde uma tomografia computadorizada da cabeça foi realizada para revelar os detalhes dos tecidos.

Os cientistas agora estudarão o DNA do animal, para compará-lo com o dos atuais lobos.

O lobo encontrado na Sibéria tinha presas mais poderosas do que as espécies modernas e acredita-se que ele podia caçar animais grandes, como bisões e cavalos.

"O próximo passo é tentar extrair o DNA dos restos mortais do lobo. A dificuldade é que o DNA em tais espécimes antigos está frequentemente danificado", explica Stanton.

"Tentamos extrair DNA sem muito sucesso da pele, então agora vamos tentar extraí-lo dos dentes. Se conseguirmos DNA de boa qualidade, tentaremos sequenciar o genoma do lobo, e isso nos permitirá procurar responder a diferentes perguntas".

Albert Protopopov
Acredita-se que o animal era capaz de caçar espécies grandes, como bisões e até cavalos Imagem: Albert Protopopov

"Por exemplo, qual é a relação entre esses lobos extintos e os atuais? Eles têm genes em comum? Podemos encontrar no genoma as razões por que eles foram extintos?"

Stanton destaca que uma possibilidade é que os lobos tenham se extinguido por razões meteorológicas.

"Se for este o caso, uma melhor compreensão dessas extinções pode nos ajudar a prever e prevenir futuras extinções devido às mudanças climáticas."

Os pesquisadores esperam que os restos também ofereçam pistas sobre a fauna do Pleistoceno.

A cabeça também poderia ajudar a entender o passado evolutivo de espécies como os cães e os lobos atuais - acredita-se que estes tenham se separado a partir de um ancestral comum há pelo menos 27 mil anos.

"É muito raro encontrar espécimes com este nível de preservação, então esta cabeça é muito valiosa. Acreditamos que é um espécime de um 'lobo das estepes do Pleistoceno', uma linhagem de lobos que se tornou extinta provavelmente entre 20.000 e 30.000 anos."

"Espécimes extraordinários como este podem nos dar informações sobre por que essa linhagem foi extinta quando os lobos modernos sobreviveram."

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