Filhos perdidos da Guerra do Vietnã não desistem de encontrar seus pais

Eric San Juan.

Ho Chi Minh (Vietnã), 1 jan (EFE).- Após anos de desânimo e de frequentes discriminações por seu aspecto físico, os filhos perdidos dos soldados americanos na Guerra do Vietnã passaram a utilizar os testes de DNA para encontrar seus progenitores.

"Nos últimos anos surgiram várias empresas que oferecem estes serviços e permitem rastrear as origens das famílias", declarou à Agência Efe Brian Hjort, fundador da organização Fatherfounded, que ajudou a reunir cerca de 30 vietnamitas com seus familiares nos Estados Unidos.

"É um grande avanço, hoje é possível fazer o teste por US$ 100", destacou.

Os testes de DNA permitiram a Hjort confirmar vários casos que eram dados como perdidos e deram esperança a vietnamitas de pais americanos que consideravam sua busca uma missão impossível.

Vo Than Hien, nascido em 1969, só sabe que seu pai se chama Al, ou talvez Earl, que era um homem alto, brincalhão, que conduzia um caminhão e que conheceu sua mãe na base militar de Quy Nhon, no litoral do centro do Vietnã.

Sua mãe, Vo Thi Vinh, de 73 anos, conservou durante algum tempo uma foto dela junto com seu namorado americano, mas a destruiu no fim da guerra por medo de represálias do regime comunista.

"Ele viajou aos EUA, falou com seus pais sobre mim e voltou com dois anéis, um para cada um. Eu estava grávida e íamos juntos para os EUA, mas ele se teve que ir primeiro e não pôde voltar, não pudemos nos comunicar. Não sei seu sobrenome e perdi seu endereço", contou Vinh em sua casa em Ho Chi Minh (antiga Saigon).

Cerca de 50 mil crianças de casais mistos ficaram no Vietnã após o fim da guerra em 1975, e quase 30 mil delas puderam emigrar para os Estados Unidos graças a um programa de amparo promovido por Washington e pela ONU nos anos 80.

Hien preencheu sua solicitação em 1995, mas na época as condições tinham endurecido, e os casos de fraude motivaram as autoridades americanas a pedir testes que ele não podia pagar.

Nestas duas décadas foi perdendo a esperança, se casou, formou sua própria família, e já não esperava nada demais quando Hjort viajou para o Vietnã em 2013 com um kit de teste de DNA para ele.

Com a ajuda das bases de dados digitais de várias empresas especializadas, Hjort refinou a busca, confirmou a origem hispânica que suspeitava, encontrou um primo distante nos EUA chamado Randolph Maestas e um antepassado comum: Juan Maestas, um homem que nasceu em Astúrias em 1635 e emigrou para a América anos depois.

"Agora conhecemos sua relação com um sobrenome, sua origem hispânica, um parente distante e que seu pai provavelmente vive no Novo México, caso ainda esteja vivo. Sabemos que Hien tem um antepassado espanhol", detalhou Hjort.

O tempo não está do lado destas crianças esquecidas da guerra: os veteranos americanos mais jovens já passaram dos 60 anos e uma média de 400 morre por dia.

Embora tenha a pele um pouco mais clara e os olhos menos apertados que a maior parte de seus compatriotas, Hien quase não se distingue dos demais vietnamitas, talvez pela provável origem latina.

Ao contrário de outros que têm traços europeus ou afro-americanos, ele não sofreu muitas humilhações e conseguiu escapar da miséria que espreita centenas de americanos-vietnamitas que não puderam viajar para os EUA.

"Quando era pequeno muitas crianças riam de mim, me insultavam, me chamavam de filho do inimigo e brigávamos muito. Em meu bairro todo mundo sabia que mim pai era norte-americano e eu soube quando tinha nove anos. Sempre tive orgulho disso. Desde os 15 anos não tive problemas por minha origem e pude estudar e ganhar a vida", desabafou.

Com um negócio de venda de madeira que permite alimentar sua família e sem saber uma palavra de inglês, Hien já não pensa mais no 'sonho americano', mas quer preencher um vazio e achar resposta para uma pergunta que o persegue desde a infância.

"Não quero sair do Vietnã, não quero dinheiro, só quero saber quem é meu pai, permitir que meus filhos conheçam seu avô, e cuidar dele caso precise", finalizou.

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