Expedição na Patagônia estuda ligação entre América do Sul e Antártida

Gérard Soler.

Cerro Guido (Chile), 10 mar (EFE).- Uma expedição científica na Patagônia chilena trabalha com a hipótese de que a América do Sul e a Antártida já foram ligadas por terra no fim da era dos dinossauros, há cerca de 68 milhões de anos, quando o continente gelado ainda não era coberto por gelo, mas por florestas.

Os pesquisadores, coordenados pelo Instituto Antártico Chileno (Inach), buscam evidências dessa conexão na tundra de Cerro Guido, mais de 340 quilômetros a nordeste da cidade chilena de Punta Arenas e perto da fronteira com a Argentina.

O paleobotânico Marcelo Leppe, chefe do departamento científico do Inach e líder da expedição, explicou à Agência Efe que o mais provável é que no final do período Cretáceo, pouco antes da extinção em massa dos dinossauros, uma queda dos níveis de dióxido de carbono tenha provocado uma queda na temperatura e no nível do mar, o que deixou descoberta a conexão terrestre entre os dois continentes.

Essa ligação permitiu que diversas espécies de animais e plantas se deslocassem de um lado para o outro em uma etapa da história caracterizada pelas altas temperaturas em todo o planeta.

"Durante os dois últimos anos encontramos evidências concretas na Antártida e na América do Sul, e esta parte da Patagônia é um dos lugares determinantes", analisou Leppe.

Para os pesquisadores, as provas da ligação são contundentes. Em 2014 foram encontradas em Cerro Guido as primeiras folhas fossilizadas de Nothofagus, um gênero de vegetação que se encontrava confinado na Antártida e que só pode se propagar por via terrestre.

Também houve espécies animais que fizeram o caminho inverso, como os hadrossauros, dinossauros herbívoros naturais do hemisfério norte que posteriormente se deslocaram à América do Sul e cujos restos foram descobertos na Antártida.

"Todos estes resultados indicam uma relação direta entre a fauna que temos na América do Sul neste ponto sul e a que há na Antártida, além de uma conexão terrestre no fim do Cretáceo", disse Sergio Soto, paleontólogo da Universidad de Chile.

A comunidade científica já chegou à conclusão de que existiu uma ligação terrestre entre os dois continentes há mais de 85 milhões de anos, o que permitiu a evolução de algumas espécies de marsupiais e plantas. No entanto, a confirmação de que a conexão aconteceu posteriormente, há 68 milhões de anos, representa um novo capítulo na teoria da evolução.

De acordo com Marcelo Leppe, do Inach, a teoria clássica da biologia evolutiva afirma que a força causadora da mudança é a fragmentação dos continentes, que propicia a evolução de espécies de plantas e animais.

Mas os achados na Patagônia e na Antártida acrescentam o fator climático (a queda da temperatura diminui o nível do mar e deixa pontes terrestres descobertas) aos elementos que conduziram a evolução.

"O fato de o nível do mar comandado pelo clima ter sido uma das forças causadoras da mudança é algo novo, não estava muito bem provado", considerou Leppe.

O fenômeno também ajuda a compreender a "herança antártica" de países como Chile, Argentina e Nova Zelândia, onde algumas paisagens reproduzem com muita precisão o clima e a fauna que havia na Antártida há milhões de anos.

"Esses países têm a herança antártica. Seria fácil colocar um dinossauro antártico em um parque nacional do sul do Chile, estaria em seu ambiente", afirmou o especialista.

A hipótese da conexão terrestre contribui para o conhecimento sobre a transformação da Antártida, um continente que com a passagem dos anos passou de um clima quente para polar e que teve muitas florestas até se separar definitivamente da América, há cerca de 13 milhões de anos.

"Essas descobertas nos aproxima de entender a Antártida como um continente que foi fonte de vida e evolução de espécies, e a considerar que esta condição branca da Antártida é relativamente recente", afirmou o paleobotânico.

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