O pequeno restaurante que mudou o rumo da Guerra do Vietnã

Eric San Juan.

Ho Chi Minh (Vietnã), 11 mai (EFE).- À primeira vista, o humilde restaurante Pho Binh parece mais um entre as centenas de locais onde tomar sopa vietnamita em Ho Chi Minh (a antiga Saigon), mas este estabelecimento abriga um segredo: ali foi planejada parte da Ofensiva do Tet, um dos episódios mais decisivos da Guerra do Vietnã.

Se não fosse por uma placa que lembra o fato e um ou outro recorte de jornal decorando as paredes, custaria imaginar que este local de apenas cinco metros de largura foi durante anos o quartel-general de uma célula de elite da insurgência comunista da Frente Nacional para a Libertação do Vietnã (cujos combatentes eram também chamados vietcongues) na então Saigon.

"As reuniões aconteciam no andar de cima. Ninguém poderia suspeitar que aqui estavam preparando o ataque, ainda mais porque era uma área cheia de (norte)americanos", contou à Agência Efe Ngo Van Lap, filho de Ngo Toai, fundador do restaurante e dirigente vietcongue em Saigon.

Na época uma criança de nove anos, Lap lembra de sua missão durante os encontros de seu pai com outros colaboradores: ele era responsável por vigiar no restaurante e avisá-los se vinha alguém ou se havia algo suspeito.

"Não tinha medo, simplesmente fazia o que meu pai pedia. Eu não sabia de que falavam nas reuniões. Também tinha que garantir que quem quisesse ver meu pai deveria dizer a senha correta logo após chegar", contou.

Anos mais tarde Lap entendeu que o edifício onde sua família vivia e tinha o restaurante era também a base de operações da unidade F100 da Frente Nacional para a Libertação do Vietnã.

Entre 1965 e 1968, o comandante Ngo Toai, morto em 2006, organizou a distribuição de armas e soldados que chegavam a Saigon de forma clandestina, e organizou em 1968 a Ofensiva do Tet na cidade, um dos maiores ataques das forças comunistas contra o Vietnã do Sul e seus aliados americanos.

Quando, na meia-noite de 31 de janeiro de 1968, explodiram os fogos de artifício que celebravam o Ano Novo Lunar, as forças vietcongues em Saigon lançaram uma grande ofensiva.

Foi um ataque coordenado pelo célebre general Vo Nguyen Giap em mais de 100 cidades e povoados de todo o país, com mais de 70 mil soldados das forças comunistas mobilizados.

Embora não tenham alcançado seus alvos militares, o episódio é considerado como um ponto de inflexão no conflito pelo grande número de baixas americanas (mais de quatro mil), o que multiplicou a rejeição à guerra nos EUA e influenciou na retirada progressiva das tropas norte-americanas a partir daí.

Estreitas escadas conduzem ao segundo andar, onde Ngo Van Lap e sua família montaram um pequeno museu com fotos dos protagonistas e parte da mobília da sala em que a estratégia militar era planejada.

"Os soldados vindos do norte passavam por aqui e ficavam escondidos vários dias, só desciam ao restaurante para comer sopa de macarrão. Nas semanas antes do ataque do Tet não havia muito espaço, lembro que chegou a ter 80 ou 90 pessoas em casa", relatou Lap.

Embora a ofensiva tenha conseguido semear o caos e debilitar o inimigo na cidade, as forças do Vietnã do Sul conseguiram retomar o controle, e dias depois vários policiais invadiram o restaurante.

"Meu pai e meu cunhado foram detidos e um de seus colaboradores foi morto na hora com um tiro na cabeça", rememorou Lap.

Seu pai teve mais sorte, conseguiu esconder sua verdadeira categoria na Frente Nacional para a Libertação do Vietnã e evitou a pena de morte subornando as autoridades, até ser libertado em 1974, na fase final da guerra.

O que foi tempo suficiente para voltar à ação em uma base próxima a Saigon, desta vez junto de seu filho Lap, então um rapaz de apenas 16 anos.

Após a vitória definitiva do Vietnã do Norte e a posterior reunificação do país, ele retomou o negócio familiar e conseguiu mantê-lo vivo durante a dura época do pós-guerra.

Em seus últimos anos de vida, o velho dirigente guerrilheiro viu como Pho Binh (os macarrões da paz em vietnamita) ganhava popularidade entre os turistas estrangeiros, muitos deles americanos.

Mais de quatro décadas depois, esta presença não incomoda Lap, que ressaltou que o conflito está esquecido e que todo mundo é bem-vindo: "Gostamos de receber estrangeiros de todos os países e do fato de que este lugar sirva para conhecer melhor o passado".

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