Ilha "da luz do fim do mundo", a nova reserva natural da Argentina

Nerea González.

Buenos Aires, 25 set (EFE).- Como se um pedaço de terra tivesse escapado da Argentina, no Atlântico Sul emerge a Ilha dos Estados, uma aparição de florestas e riscos sobre o mar sempre presente em romances, uma Alcatraz do sul e última luz no fim do mundo que, recentemente, foi declarada reserva nacional.

Além de sua história atravessada por lendas, a ilha abriga grandes colônias de espécies em estado de conservação vulnerável, como o pinguim de penacho amarelo e o lobo-marinho de dois pelos, além de outras comuns da região.

"É uma ilha tipicamente subantártica, de penhascos abruptos, com duas áreas bem diferenciadas", explicou à Agência Efe Andrea Raya Rey, pesquisadora do estatal Centro Austral de Pesquisas Científicas (Cadic).

Separada por 24 quilômetros do extremo da Terra do Fogo pelo estreito de Le Maire, a costa oriental tem pastagens e o resto da ilha é "composto por florestas de guindo e canela" que "chegam até o mar", acrescentou o especialista.

Apesar de ao longo do século XX a região ter gozado de várias categorias de proteção, neste agosto o presidente da Argentina, Mauricio Macri, ordenou dar maior status ao transformá-la em reserva nacional. Junto à própria Ilha dos Estados também ficam protegidas outras próximas menores.

"O principal problema da ilha são os animais introduzidos pela perda de habitat para as espécies autóctones", explicou Andrea.

Apesar da declaração como reserva nacional ajudar a divulgar a ilha e seus problemas, o Cadic quer conscientizar também sobre como seria importante protejer as águas, onde se alimentam aves e mamíferos marítimos, já que, segundo Andrea, "os grandes perigos para estas espécies estão no mar".

Os 48 mil hectares alimentaram lendas ao longo dos séculos, a ponto de chamar a atenção de Charles Darwin até Julio Verne, que ambientou lá seu "O farol do fim do mundo" (1905), embora nenhum dos dois tenha pisado lá.

Quando o romance foi publicado, o farol da Ilha dos Estados, chamado farol de San Juan de Salvamento, já não funcionava. Era apenas uma palhoça de sete metros de altura, sobre um planalto 66 metros acima do nível do mar, com quatro janelas que destilavam a luz de sete lâmpadas a óleo.

Sua pouca potência, em vez de alertar os navios, provocava encalhamentos, como fosse manuseado por piratas.

Para substituí-lo foi construído outro em uma ilha próxima e, embora anos depois tenha se reinstalado em uma reconstrução doada pela França, os restos do original podem ser visitados hoje em Ushuaia (capital da província da Terra do Fogo).

Atualmente, na ilha só vivem soldados da Marinha que passam lá 45 dias, segundo explicou à Efe o capitão Marcelo Davis, da Área Naval Austral. Mas, no final do século XIX, no farol do fim do mundo viviam permanentemente cinco encarregados, em condições dignas de pesadelo.

"Muitas vezes paravam os navios que passavam perto ou disparavam seu canhão de sinalização para pedir comida", explicou Carlos Vairo, diretor do Museu Marítimo e do Presídio de Ushuaia.

Além de ser a luz do fim do mundo, a ilha dos Estados funcionou por um tempo como presídio militar, um tipo de Alcatraz do sul com condições ainda mais "desumanas", na opinião de Vairo.

Em seu início, em 1884, havia apenas 20 presos condenados por crimes não muito graves - como deserção ou não prestar o serviço militar obrigatório -, dedicados a trabalhos de carpintaria ou construção. Por volta de 1905, ano no qual a ilha deixou de ser usada como prisão, já eram dezenas. Alguns, inclusive, viviam com suas esposas, prática comum na época.

"Entre todos esses crimes menores havia um ou outro assassino, mas se havia cem presos, dos assassinos seriam 10 ou 11", disse Vairo.

Quase nada além de embarcações da Marinha chegam atualmente à Ilha dos Estados, que permanece como um cantinho entre o desconhecido e o mítico para a maioria dos argentinos.

A declaração como reserva nacional busca aproximá-la do continente, redescobri-la, mas também devolvê-la a seu estado mais natural.

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