Contar "mentirinhas" pode eliminar o sentimento de culpa, aponta estudo

Londres, 24 out (EFE).- Cientistas no Reino Unido constataram que quando algumas pessoas começam a contar repetidamente "pequenas mentiras" o cérebro pode chegar a anular o sentimento de culpa e levá-las a dizer mentiras mais graves, segundo revela um estudo publicado nesta segunda-feira pela revista "Nature".

A pesquisa, desenvolvida pelo University College London (UCL), representa a primeira "evidência empírica" em relação aos processos mentais que o ser humano segue quando diz uma "mentirinha" para atender interesses pessoais, destacam os autores em comunicado.

Para este estudo, os especialistas escanearam a atividade do cérebro de 80 voluntários com idades entre os 18 e 65 anos, enquanto participavam de uma série de testes nos quais podiam mentir para obter um benefício pessoal.

Foi descoberto que a amídala, uma parte do cérebro associada às emoções, apresentava um maior nível de atividade quando os participantes contavam pela primeira vez uma dessas mentiras.

No entanto, a reação da amídala diminuía à medida que se repetiam as mentiras e aumentava sua "magnitude", e foi percebido que uma "pronunciada queda em sua atividade" predizia que a pessoa ia "contar no futuro uma grande mentira".

"Quando mentimos para conseguir um benefício pessoal, nossa amídala gera sentimentos negativos que limitam até que ponto estamos dispostos a mentir", explicou Tali Sharot, do departamento de Psicologia Experimental da universidade.

No entanto, essa resposta, condicionada por um sentimento de culpa, vai perdendo força se seguirmos mentindo e, em consequência, "quanto mais cai, maiores ficam as mentiras".

Este fenômeno do comportamento pode situar a pessoa perante o que os cientistas denominaram uma "pendente escorregadia", na qual os "pequenos e repetidos atos de desonestidade" podem acarretar "mentiras maiores".

"É provável que a abrupta resposta do cérebro aos repetidos atos de desonestidade reflita uma redução da resposta emocional a estes atos", disse Neil Garrett, outro dos autores da pesquisa.

Segundo o especialista, o princípio de reação da amídala perante as mentiras pode servir para estudar desde este mesmo ponto de vista à evolução de outros comportamentos, como "a escalada da violência" ou o das pessoas que assumem riscos.

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