Site ensina história da Jerusalém dividida em 1948 a palestinos

María Sevilhano.

Jerusalém, 26 nov (EFE).- O projeto virtual "Jerusalém, aqui estamos" oferece em um site visitas guiadas através do tempo e do espaço que percorrem a parte ocidental da cidade deixada para trás pelos palestinos em 1948, e tenta recuperar sua memória coletiva.

"Se as casas, as ruas, os bairros e as cidades pudessem nos contar histórias, quais seriam? O presente domina nosso sentido do espaço, mas o passado sempre permanece sob a superfície, inclusive quando se esconde social, política e economicamente", diz a apresentação da iniciativa audiovisual recém-lançada e focada no bairro de Qatamon.

O objetivo de "jerusalemwearehere" é fazer com que os visitantes palestinos e seus descendentes rastreiem o passado de suas famílias e "se envolvam com o doloroso presente" de seus três promotores: o israelense Dorit Naaman, o palestino Anwar Ben Badis e a palestino-americano Mona Halaby.

Com apenas um clique é possível acessar detalhes e informações de uma realidade que se perdeu e começou a desvanecer em 1948, quando, com a criação de Israel, Jerusalém ficou dividida entre a parte leste, anexada ao resto da Cisjordânia e sob controle jordaniano, e a oeste, dentro do novo Estado.

"Como israelense, me surpreendeu o quão misturada era a cidade. Para mim, é importante contar a história da vizinhança porque era uma vida unida, entre árabes e judeus. Havia amizades, inimizades, negócios, escolas. Não falamos disto em Israel, não o suficiente", refletiu Naaman, no Canadá, em entrevista à Agência Efe.

São estas as lembranças que o site quer resgatar com os passeios virtuais pelos arredores do Mosteiro de São Simão, onde o palestino Youssef Jarayseh localiza a casa da família que foi perdida para o grupo paramilitar Haganah; o pequeno hotel Semiramis, um dos centros culturais onde morreram 27 pessoas em um bombardeio em 1948; e o lugar do assassinato do nobre sueco Folke Bernadotte, enviado da ONU para mediar o conflito entre israelenses e palestinos.

Estes e outros lugares estão incluídos em um mapa que faz um traçado diferente da cidade com poemas e explicações de historiadores.

"Eu me incomodava com o fato de conhecermos as casas de celebridades, mas não sabermos de quem são as casas das pessoas normais", explicou Naaman.

Nos confrontos entre grupos armados judeus e árabes durante a guerra de 1948, e até mesmo antes, cerca de 30 mil palestinos fugiram ou foram expulsos de seus lares na Cidade Nova, segundo um relatório do centro para os direitos dos refugiados Badil e do Instituto de Pesquisas de Jerusalém, ficando esquecida a história e identidade forjadas na cidade durante o Mandato Britânico.

Alguns desses deslocados eram residentes de Qatamon, uma área residencial entre a Cidade Antiga e Belém onde a classe média-alta palestina tinha se desenvolvido até que as milícias judaicas da Haganah puseram fim a sua presença.

A artista audiovisual considera necessário discutir o que houve com os palestinos que viviam na cidade e na terra que passou a ser israelense, com as mais de 700 mil pessoas que se tornaram refugiadas e que não puderam retornar, insiste que é preciso existir o direito ao retorno para elas.

"Nunca haverá uma solução política para este problema enquanto não o debatermos. Isto é algo muito pessoal, mas esta é minha contribuição mediante a arte para mudar a ideia de espaço, do que foi e do que pode ser", contou Naaman.

No vídeo de divulgação do projeto, Halaby, outra das criadoras, explica que muitos israelenses transitam pelas ruas diariamente "sem fazer ideia que caminham pelos mesmos lugares por onde os palestinos iam ao trabalho, às compras ou visitar os avós", e diz que os edifícios são "vestígios" desse passado.

"São coisas que passam despercebidas e o as pessoas não se dão conta de que havia uma vida aqui. Uma vida rica, não só socioeconômica, mas cultural e intelectualmente", declarou.

O desejo de Naaman é "que as pessoas pensem nos espaços em que vivem ao mesmo tempo em que se humaniza o povo".

"O discurso israelense, no geral, desumaniza. E não consigo acreditar que as pessoas não possam reconhecer outro ser humano que sofre, com o qual pode ter empatia", comentou.

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