Equador tenta resgatar terrenos úmidos feridos pelo homem aos pés de vulcão

Susana Madera.

Antisana (Equador), 10 jul (EFE).- De longe, como se tocasse o céu, aparece o imponente Antisana, um majestoso vulcão equatoriano de 5.758 metros de altitude que coroa um local ermo, guardando em suas entranhas o que antes foram terrenos úmidos e agora exibem, como cicatrizes, canais abertos pelo homem para drenar a água e facilitar o a criação de animais.

Mais de 40 canais percorrem uma área úmida de 14 hectares em uma região de conservação hídrica do Antisana no que antes eram fazendas criadoras de gado.

Mas a história se repete em 30 hectares aos pés do vulcão potencialmente ativo, situado na cordilheira equatoriana, onde o belga Bert de Bievre, secretário técnico do Fundo para a Proteção da Água (Fonag), chega ao extremo de falar de "ex-terrenos úmidos".

Devido ao peso de cavalos, vacas e a grande quantidade de ovelhas que antes pastavam na região, foi compactada a cobertura do pântano drenado, que surge agora como um espesso tapete verde, chamado por alguns de "almofada" devido à sensação de andar sobre uma.

O "sobrepastoreio brutal", como se refere Bievre, terminou há sete anos, quando a empresa de Água Potável de Quito comprou a região de fazendeiros, reduziu "drasticamente" o número de animais e encarregou o Fonag de recuperar o lugar.

Agora é possível caminhar sem qualquer sensação de estar sobre almofadas, pois durante décadas criadores de gado drenaram a água através de canais e, ainda que tenha sido possível retirar quase todo o gado, o verde e esponjoso solo ainda recebe a pressão de alguns equinos.

Apesar de a prática de criadores de gado drenar os terrenos úmidos para o gado ser conhecida, somente um sobrevoo de um drone, no final do ano passado, revelou a densidade das feridas deixadas pelo homem.

"Foi como quando voaram com pequeno avião sobre as Linhas de Nazca e viram que não havia mais nada na superfície. A partir daí, pudemos nos dar conta da densidade das drenagens", disse Bievre, parado em um dos terrenos úmidos, que agora ele pretende recuperar com uma técnica simples e barata: diques de madeira, pressão e paciência.

No meio de um vento frio e intenso, Bievre explicou que as rústicas tábuas, colocadas sob pressão, contêm parcialmente a água, pois permitem uma passagem controlada do líquido com a intenção de recuperar o lençol freático em toda a área para voltar novamente a ser um pântano inacessível em "poucos anos".

O assunto requer paciência, pois a ideia não é criar um represa, mas sim recuperar o pântano no local ermo que faz limite com a reserva ecológica Antisana, que estende seus 120 mil hectares entre as províncias de Napo e Pichincha e que abriga condores, pumas e lobos selvagens, entre outros animais.

Com 18 poços - alguns manuais e outros com sensores automáticos - é monitorada a altura do lençol freático, afirmou Paola Fuentes, técnica do Fonag, perto de um dos diques, que contém uma água preta acumulada que, à simples vista, dá a impressão de ser petróleo leve.

Porém, a cor se deve ao acúmulo de matéria orgânica no pântano, que é o ecossistema que mais armazena esse componente que pode regular a distribuição do líquido vital de maneira natural.

"O carbono é uma substância única que é armazenada no solo, mas, com o pastoreio, por exemplo, quando se levanta o solo, libera carbono através do CO2, e isso está provocando contaminação também", lamentou Fuentes.

O Fonag vai monitorar o que ocorrerá com o líquido quando forem restaurados os terrenos úmidos.

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