Russos redescobrem Lenin no centenário da Revolução

Ignacio Ortega.

Moscou, 2 out (EFE).- Sua aliança de casamento, a bala que esteve a ponto de tirar sua vida, seus artigos acadêmicos, as cartas a sua amante e sua famosa boina são alguns dos objetos de Lenin que estão sendo exibidos pela primeira vez ao público em uma mostra em Moscou às vésperas do centenário da Revolução.

"Lamentavelmente, as novas gerações de russos sabem muito pouco sobre a nossa história, em particular sobre a figura de Lenin e os fatos históricos ocorridos em 1917", disse à Agência Efe Andrei Sorokin, diretor do Arquivo Estatal da Rússia.

O Lenin mais humano, com suas virtudes e seus defeitos, é o protagonista de uma exposição histórica que começa em sua árvore genealógica, que confirma que sua família era nobre e tradicional, até os seus últimos dias em uma cadeira de rodas após sofrer uma apoplexia.

Vladimir Ulyanov (1870-1924), conhecido como Lenin, era um estudante aplicado e tinha uma memória privilegiada, embora não fosse tão bem em algumas disciplinas, como por exemplo Lógica, Física e Grego, como se pode ver nos registros de sua escola em Simbirsk (hoje Ulyanovsk).

Entre outros documentos históricos, os arquivos russos revelaram um de 19 de abril de 1887 em que o irmão de Lenin, Alexandr, foi condenado a morte por tentar de assassinar o czar Alexandre III.

Esse evento mudaria a vida do revolucionário, assim como o seu casamento com Nadezda Krupskaja, em 1898. As alianças dos noivos podem ser vistas na exposição, além de fotos do dia da cerimônia.

Lenin foi detido pela primeira vez entre o final de 1894 e o início de 1895, como se observa nos registros policiais, que incluem um interrogatório em uma delegacia de São Petersburgo.

"Não acredito que o passado deve ser enterrado. Estes documentos são a nossa memória histórica, com os seus erros, fracassos, crimes, conquistas e sucessos. Só então poderemos evitar os extremos na interpretação da história da Rússia", disse Sorokin.

Entre os objetos pessoais do líder revolucionário se destaca a sua famosa boina, que o acompanhava por toda parte, inclusive no dia em que retornou da Finlândia em um trem blindado para comandar a Revolução Russa.

Há também um relógio de bolso, uma jaqueta militar, várias medalhas, uma caixa de cigarros de ouro - embora não fumasse -, sua câmera fotográfica e um par de botas, já que Lenin era um grande fã de caminhadas pelo campo.

Outra das relíquias da mostra, que ficará aberta até o dia 19 de novembro - o centenário da Revolução será comemorado em 7 de novembro -, é a cápsula da bala com a qual a ucraniana Fanny Kaplan quase tirou sua vida em agosto de 1918.

Sua amante, Ines Armand, também tem um espaço na mostra, na qual é possível recordar seu relacionamento epistolar, quase tão apaixonado como na vida real.

Outra atração é o escritório de Lenin no Kremlin, nunca mostrado antes ao grande público e que inclui objetos originais como sua cadeira, pesos de papel, lâmpada, uma escada para subir nas estantes e um telefone.

Sem dúvida, a peça mais curiosa é uma estatueta de um macaco pensante em cima de uma montanha de livros com a frase "Darwin" talhada em sua base, um presente do empresário americano Armand Hammer.

Dando asas à imaginação, é possível se sentar na cadeira em que Lenin morreu em 1924 ou tomar chá em sua própria chaleira na mesa em que o líder soviético recebia seus familiares e entes queridos no jardim de sua residência de Gorki.

Como uma ironia do destino, justamente 94 anos antes de a Crimeia pedir sua anexação à Rússia (2014), um telegrama escrito à mão por Lenin dirigido a Stalin em 17 de março de 1920 sobre a necessidade de tomar o controle da península é outra peça exposta na mostra.

A degradação física de Lenin é perceptível em fotos e documentos gráficos que incluem alguma imagem para a história de 1922.

Sua fotografia mais recente data de setembro de 1923, apenas quatro meses antes de sua morte, uma imagem desbotada na qual se vê Lenin em uma cadeira de rodas e com o olhar perdido, quando já tinha tentado, em vão, evitar que Stalin fosse seu sucessor.

Embora sua esposa tenha deixado bem claro que Lenin queria ser enterrado, a exposição mostra que as autoridades soviéticas ignoraram seu desejo e decidiram construir um mausoléu para que todo o mundo pudesse render homenagens ao líder bolchevique.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos