Putin não quer saber da Revolução Bolchevique

Ignacio Ortega.

Moscou, 4 nov (EFE).- Embora considere que o colapso da União Soviética seja "a maior catástrofe geopolítica do século XX", o presidente da Rússia, Vladimir Putin, não quer nem ouvir falar do centenário da Revolução Bolchevique, por medo de provocar novas divisões entre os russos.

"E por que seria preciso comemorá-la? O Kremlin não tem previsto nenhum ato a este respeito", disse à imprensa Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, sobre o dia 7 de novembro.

Nem festas, nem discursos, nem recepções: o centenário da Revolução Bolchevique foi ignorado completamente pelo Kremlin desde que Putin ordenou no final de 2016 não se comemorar tal acontecimento.

"Em 1991 aconteceu uma revolução burguesa de caráter ocidental. Por isso, o atual governo liberal de Putin se comporta como tal. É lógico que não vão festejar o aniversário, já que seria contra seus princípios", comentou à Agência Efe o famoso escritor Zakhar Prilepin.

O próprio Putin, este ano, mal fez referência ao fato com pedidos de não "trazer para nossos dias as divisões, os ódios, as afrontas e a crueldade do passado".

"Por acaso não era possível progredir não por meio de uma revolução, mas através de uma evolução?", disse Putin recentemente.

Ele acusou os bolcheviques de destruir o Estado e arruinar a vida de milhões de pessoas, embora tenha acrescentado que a revolução também teve consequências "positivas" - pois encorajou outros países a lutar pela "justiça social" -, e que os seus resultados são "ambíguos".

É a mesma postura que manteve durante anos a respeito dos insistentes apelos para se retirar o corpo embalsamado e o mausoléu de Vladmir Lênin da Praça Vermelha, ao argumentar que é um tema que pode provocar uma divisão na sociedade.

Isto indignou especialmente os comunistas russos, que convocaram uma grande manifestação para o dia 7 de novembro, da qual vão participar membros de partidos comunistas do mundo todo.

"Os burgueses não querem lembrar quando foram derrotados e suas propriedades foram desapropriadas. Veem isso como uma coisa perigosa, já que falar deles é induzir o povo a se interessar pelas causas da revolução", comentou à Efe Nikolai Leonov, ex-subdiretor da KGB - a polícia política soviética - e simpatizante comunista.

Provavelmente, os nostálgicos do antigo regime soviético serão os únicos a irem para as ruas no centenário da revolução, embora entre os russos haja um genuíno interesse em voltar a esses tempos, embora através de livros e exposições.

A postura oficial ficou evidenciada quando a exposição sobre Lênin, que incluía objetos pessoais e documentos nunca antes vistos pelo público, foi mostrada na sede dos arquivos estatais e não no pavilhão de exposições em frente ao Kremlin.

Segundo as pesquisas, os russos estão divididos quase em partes iguais na sua avaliação da revolução, já que 23% a condenam e 22% a aprovam; enquanto 39% a consideraram inevitável e 42% pensam o contrário.

Os historiadores consideram que, na realidade, o Kremlin não tem uma postura oficial definida sobre o passado soviético no seu conjunto.

"Não se pode elogiar, nem condenar. É uma revolução que mudou a história moderna, mas as autoridades não querem participar do debate", opinou Nikita Petrov, historiador da organização de direitos humanos Memorial.

"O Kremlin diz que condenar o regime soviético como algo criminoso, como fizeram os alemães com o nazismo, seria como tachar 70 anos de história comum", acrescentou o historiador.

"O máximo aonde Putin chegou foi criticar Lênin, mas sempre em comentários informais, não em discursos oficiais. O argumento é que não se pode esquentar o ambiente e desestabilizá-lo. Em resumo, a postura da avestruz", disse Petrov.

Por isso o Kremlin ficou de fora da comemoração do centenário, embora às vezes um gesto valha mais do que mil palavras: Putin inaugurou na segunda-feira na Avenida Sakharov de Moscou um monumento dedicado às vítimas das repressões stalinistas.

Segundo os analistas, Putin e Kremlin sempre estiveram interessados em ressaltar outro fato histórico, o Dia da Vitória sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial, já que é um evento que une todos os russos, independentemente de suas ideias políticas, diferente da revolução.

Putin insiste que as mudanças bruscas e os tratamentos de choque não trazem nada bom, e teme mais do que tudo a explosão de uma revolução democrática patrocinada pelos seus inimigos ocidentais, parecida com o que aconteceu na Ucrânia.

O aniversário coincidirá com o começo dos preparativos das eleições presidenciais de março de 2018, nas quais Putin vai concorrer à reeleição, segundo todas as previsões.

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