Filmes feitos em Westerbork são documento "único" sobre campo de concentração

Alejandra Mahiques.

Haia, 7 nov (EFE).- Um documento "único", com elementos estéticos do cinema e estilo "menos propagandista" do que o esperado para um trabalho encomendado pelos nazistas para mostrar o dia a dia num campo de concentração. É assim que o curador do Instituto Holandês do Som e da Imagem, Hans van der Windt, resumiu à Agência Efe os filmes feitos no campo de concentração de Westerbork e que fazem parte do Registo da Memória do Mundo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Ao todo, 11 rolos são cuidadosamente preservados e guardam 70 minutos da vida neste campo nazista, no norte da Holanda. Era o campo onde ficavam os judeus holandeses que depois seriam enviados aos campos de extermínio na Polônia e na Alemanha.

Entre eles estava o fotógrafo de origem alemã Rudolf Breslauer, a quem o comandante Albert Gemmeker encomendou um filme que mostrasse o "bom funcionamento do campo" para exibir a produção aos superiores como prova de seu bom trabalho. Segundo Van der Windt, entre as cenas que retratam o cotidiano do local se escondem outras em que é possível perceber a desesperança de quem estava lá.

"São muitas imagens mostrando o que aconteceu em Westerbork. Para mim, duas das mais comoventes são a de uma menina cigana olhando fixamente para a câmera de dentro do vagão que parte para Auschwitz e a de um papel voando ao longe, quando o trem começa a andar, em uma das tantas mensagens de despedida que sabemos que aquelas pessoas lançavam para os seus entes queridos", contou.

Nas palavras de Dick Mulder, diretor do campo de Westerbork, hoje transformado em museu, aquele era "um lugar de passagem onde a ideia era que os judeus ficassem o menor tempo possível".

"Por isso, as condições não eram tão ruins quanto em outros campos e as imagens da vida cotidiana surpreendem. Vemos pessoas praticando esporte, indo ao dentista, e sabemos que era assim que acontecia por causa dos depoimentos de alguns sobreviventes", acrescentou.

De acordo com Van der Windt, o que não aparece é a angústia que sofriam pela incerteza que representava ser deportado. Segundo ele, os nomes eram lidos todas as terças-feiras.

"Eles chamavam os que deviam subir no trem a caminho de Auschwitz e de outros campos e, de alguma maneira, todos sabiam que era uma viagem sem volta", afirmou.

Apesar de produzir o documentário para o regime nazista, Rudolf Breslauer não conseguiu se salvar. No início de 1945, ele foi enviado com a família a Auschwitz, onde morreu.

Apenas Ursula, a filha mais nova, sobreviveu. Anos mais tarde, ela contou em entrevista a um canal holandês que o pai só aceitou a tarefa para poder deixar registrado o que aconteceu com judeus e ciganos durante a Segunda Guerra Mundial.

Westerbork funcionou como campo de concentração nazista de 1940 a 1945 e por lá passaram 107 mil pessoas, principalmente judeus holandeses, que foram transferidos a outros campos de extermínio e dos quais só 5 mil sobreviveram.

A jovem Ana Frank foi uma das que estiveram lá. Seu diário é outro documento que faz parte do Registo da Memória do Mundo da Unesco, criado em 1992 para preservar patrimônios de interesse mundial.

Uma coletânea que conta com 427 documentos, conforme a atualização mais recente, feita em 30 de outubro, na qual 78 novos arquivos foram anexados, entre eles os filmes feitos em Westerbork e o documentário da ativista e feminista holandesa Aletta Jacobs, que viveu no início do século XX.

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