Deuses, bens e ignorância: as razões para não fugir da erupção em Bali

Ricardo Pérez-Solero.

Karangasem (Indonésia), 2 dez (EFE).- Crenças animalistas, medo de perder os bens e o gado e o desconhecimento sobre os riscos inerentes são algumas das razões pelas quais milhares de indonésios da ilha de Bali permanecem na área de risco do vulcão Agung, apesar das erupções.

Embora o Agung expila lava e cinza de forma contínua há uma semana, "milhares de pessoas" se negam a deixar suas casas, segundo declarou à Agência Efe o diretor de informação da Agência Nacional de Gestão de Desastres (BNBP, em indonésio), Sutopo Purwo Nugroho.

No centro de evacuados de Swecapura, a cerca de 25 quilômetros do vulcão, mais de mil pessoas acomodam-se em barracas improvisadas e no interior de um ginásio que se tornou um campo de acolhida.

O criador de gado Made Sukarta, que vive a quatro quilômetros do vulcão no povoado de Sebudi e está há mais de dois meses em Swecapura, lamentou em declarações à Efe que perdeu cerca de cinco milhões de rupias (310 euros) por ter de vender sua única vaca.

"A maioria das pessoas fica pelas vacas ou pelas galinhas, não tanto pelos deuses", afirmou este indonésio que, apesar das advertências das autoridades, retornou em uma ocasião ao interior da zona de risco, estabelecida atualmente em um raio de até 10 quilômetros ao redor da cratera.

Para alguns dos locais, a atividade do Agung é um acontecimento divino e aceitam sem protestar o poder do deus do vulcão.

Muitas pessoas passam durante o dia pelos cartazes, que alertam o visitante sobre o início da área de risco por uma possível erupção, para verificar suas casas, sobretudo aqueles que residem entre a seis e dez quilômetros do vulcão.

Alguns residentes se banham nos rios, ignorando o perigo dos "lahars", como é chamado os fluxos de sedimentos piroclásticos e água que acompanham as erupções e provocam inundações.

Segundo os últimos dados oficiais, o número de evacuados em centros de acolhida ronda os quatro mil e a esta quantidade seria preciso somar o número indeterminado de indonésios que foram amparados por parentes e amigos.

A PNBP calcula que entre 90 mil e 100 mil pessoas residem dentro da zona de perigo.

O Centro de Vulcanologia e Mitigação de Perigos Geológicos mantém o alerta de erupção do vulcão no nível máximo, o quatro.

Nesta sexta-feira, por exemplo, a cratera expeliu uma coluna de cinza de cor branca de até dois quilômetros de altura.

O aeroporto internacional Ngurah Rai de Bali continua operando voos, depois de ficar fechado entre segunda-feira e quarta-feira por conta da nuvem de cinza, embora algumas companhias como a Air Asia e a Qantas tenham alertado sobre possíveis cancelamentos e atrasos.

Mais de 100 mil passageiros foram afetados pelo cancelamento de quase 900 voos durante a falta de operações do aeroporto, e milhares de turistas ficaram presos na ilha.

As autoridades aeroportuárias e de meteorologia indicaram nesta manhã que o aeroporto de Lombok reabriu após o fechamento de quinta-feira porque a nuvem de cinza do Agung tinha se deslocado a essa ilha vizinha, ao leste de Bali.

A erupção de sábado passado foi a primeira magmática em 54 anos deste vulcão situado no leste de Bali, no distrito de Karangasem, longe da maioria das atrações turísticas que permanecem seguras.

Em 1963, a erupção do Agung durou quase um ano e matou mais de 1,1 mil pessoas.

Bali é o principal destino turístico da Indonésia com uma afluência anual de cerca de 5,4 milhões de visitantes estrangeiros, segundo dados oficiais.

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