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Estudo pesquisa noções de justiça e altruísmo em vários povos

Por John Tierney

The New York Times

2010-04-14T18:36:01

14/04/2010 18h36

Pesquisadores rodaram o mundo em busca de um homem honesto – ou, mais precisamente, de pessoas que agem da mesma forma justa e altruísta em relação a todos. Se você quer aprender a seguir essa regra de ouro, qual das seguintes estratégias é a melhor?

a) Mudar-se para uma vila na Amazônia e sair para caçar com o povo indígena tsimane.

b) Mudar-se para um assentamento dolgan ou nganasan, na tundra siberiana, criar renas e se juntar à Igreja Ortodoxa Russa.

c) Visitar um monastério do Himalaia e seguir instruções para “contemplar a si mesmo” e “seguir sua glória”.

d) Juntar-se a um acampamento de caçadores hadza, compartilhando carne de girafa e mel nas savanas de Serengeti.

e) Juntar-se a uma turba de compradores do Wal-Mart em busca de mantimentos nas pradarias do Missouri.

Bem, a igreja siberiana pode transmitir algumas lições morais, mas sua melhor aposta é sair para fazer compras, ao menos pela minha leitura dos experimentos relatados na edição atual da Science.

Não precisa ser necessariamente o Wal-Mart – qualquer tipo de mercearia parece surtir efeito. O Wal-Mart simplesmente é mais popular entre os excepcionalmente justos moradores de Hamilton, uma pequena cidade rural a noroeste do Missouri. Eles obtiveram pontuações mais altas num teste de probidade em relação a estranhos do que qualquer uma das comunidades menos modernas em Fiji, Papua-Nova Guiné, África, Ásia e América Latina.

O estudo não prova a superioridade moral dos habitantes do Missouri, pois as sociedades tradicionais enfatizam virtudes diferentes, como proporcionar conforto e alimento a parentes. Os resultados, no entanto, ajudam a explicar um mistério central da civilização: como os pequenos clãs familiares evoluíram a grandes cidades e estranhos cooperativos? Por que os nova-iorquinos algumas vezes são gentis até mesmo com turistas?

Ser gentil fazia sentido evolucionário quando vivíamos em pequenas terras cercadas de parentes, pois ajudá-los seria uma forma de manter nossos genes vivos. E tínhamos um incentivo direto para sermos justos com pessoas que, mais tarde, retribuiriam a bondade ou puniriam o egoísmo. Mas por que pensar em devolver a carteira de um estranho que você encontrou num táxi? Por que deixar uma gorjeta num restaurante ao qual você nunca retornará?

Alguns psicólogos evolucionários sugeriram que nós possuímos um senso inato de justiça, restante de nossos dias em que vivíamos em pequenos clãs. Segundo essa teoria, os instintos herdados nos fazem ser gentis com estranhos mesmo quando estamos ferindo nossos interesses, assim como nosso antigo gosto por gordura e açúcar nos faz comer mais calorias do que nos faria bem.

Porém, há mais coisas envolvidas do que simplesmente um instinto herdado, diz Joseph Henrich, da Universidade da Colúmbia Britânica, que conduziu a equipe de antropólogos, psicólogos e economistas no estudo. Eles encontraram amplas variações culturais ao observar mais de duas mil pessoas, em 15 pequenas comunidades, participando de um jogo de dois participantes, chamado Ditador, com um prêmio equivalente ao salário local para um dia de trabalho.

Um dos jogadores, o ditador, recebia a autoridade de ficar com todo o prêmio ou compartilhar uma parte com o outro, um jogador cuja identidade permanecia em segredo. Junto a esse poder vinha a garantia de que a identidade do ditador também permaneceria secreta, de forma que ninguém, com exceção do pesquisador, jamais conheceria o nível de egoísmo do ditador.

A opção mais lucrativa, obviamente, era não deixar nada do prêmio ao anônimo parceiro. Mas os moradores do Missouri, em média, compartilharam mais de 45% do prêmio, e algumas outras sociedades foram quase tão generosas – como os ganenses da cidade de Accra e os pescadores de Sanquianga, na costa da Colômbia.

Contudo, a maioria dos caçadores, viajantes e agricultores de subsistência se mostraram menos inclinados a dividir. Os nômades hadza, no Serengeti, e os índios tsimane, da Amazônia, doaram apenas um quarto do prêmio. Eles também reagiram de forma distinta quando receberam uma chance, em variações do jogo, de punir o outro jogador por ficar com o prêmio completo.

O egoísmo ofendia tanto os habitantes do Missouri que eles puniam o jogador mesmo quando isso lhes custava dinheiro. Os membros das sociedades tradicionais, entretanto, mostraram pouca inclinação para punir outros às próprias custas. “Existem muitas normas, nessas sociedades de pequena escala, sobre como tratar um ao outro e compartilhar comida”, disse Henrich. “Mas essas regras não se aplicam em situações incomuns, quando você não sabe nada a respeito da proximidade ou situação da outra pessoa. Você não sente a mesma responsabilidade, e age guiado mais por interesse próprio”.

Os pesquisadores descobriram que as pessoas em pequenas comunidades, como o acampamento hadza (com aproximadamente 50 habitantes), estavam menos dispostas a infligir punições do que os integrantes de comunidades maiores, como Hamilton (cerca de 1.800). Isso tem sentido prático: quanto mais estranhos existem, maior a necessidade de evitar que eles explorem uns aos outros. Porém, o que possibilitou o crescimento inicial dessas sociedades maiores?

Henrich e seus colegas identificaram dois fatores distintos:

Pessoas pertencentes a uma “religião mundial” moderna, como a fé islâmica dos pastores de gado da tribo orma, no Quênia, ou a fé cristã dos pastores de renas do povo dolgan, na Sibéria, tendiam a compartilhar mais de seus prêmios do que os praticantes de religiões locais. Enquanto as comunidades maiores se tornavam possíveis, após a invenção da agricultura – conforme os pesquisadores escrevem na Science –, “a competição entre sociedades pode ter favorecido aqueles sistemas religiosos que galvanizam o comportamento social em comunidades mais amplas, talvez usando tanto incentivos sobrenaturais (o inferno, por exemplo) quanto rituais recorrentes que intensificam a solidariedade em grupo”.

Porém, um segundo fator pareceu ainda mais importante. Ao explicar posturas em relação à justiça, Henrich e seus colegas descobriram que o indicador mais forte era o nível de “integração de mercado” da comunidade, que era medido pela porcentagem da dieta que era comprada. As pessoas que obtinham a maior parte de seus alimentos através de caça, coleta, pesca ou plantio eram menos inclinadas a dividir igualmente um prêmio.

A compra de mantimentos pode parecer uma forma incomum de educação moral, mas os pesquisadores argumentam, na Science, que o desenvolvimento de “normas de mercado” promove níveis gerais de “confiança, justiça e cooperação” com estranhos.

“Os mercados não funcionam com muita eficiência se todos agem de maneira egoísta e acreditam que os outros farão o mesmo”, disse Henrich. “Você termina com altos custos de transação, pois precisa ter todas essas proteções para cobrir cada lacuna. Mas se você desenvolve normas para ser justo com pessoas além de sua esfera social, isso cria enormes vantagens econômicas e permite que uma sociedade cresça”.

© 2010 New York Times News Service
 

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