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Clique Ciência: pensar muito emagrece?

Tatiana Pronin

Do UOL, em São Paulo

2014-06-03T06:00:00

03/06/2014 06h00

Pensar muito cansa, sem dúvida. Mas será que resolver dilemas difíceis e fazer cálculos matemáticos são boas formas de queimar calorias? Embora o cérebro demande bastante energia, infelizmente não há evidências científicas de que um grande esforço mental seja capaz de modificar muito nosso gasto calórico no fim do dia.

Estima-se que nosso cérebro seja responsável por 20% do nosso gasto energético basal (total de energia consumida quando estamos acordados, mas em repouso). A proporção é bem razoável para um órgão que representa apenas 2% do nosso peso corporal, e não tem a obrigação de bombear sangue, por exemplo, como acontece com o coração.

O pensamento é fruto da comunicação entre os neurônios, que ocorre graças a mediadores químicos e impulsos elétricos. "Por isso, todo pensamento é um evento biológico de natureza eletroquímica, consumindo obviamente energia", explica o neurologista Leandro Teles, membro da Academia Brasileira de Neurologia.

Mas saber exatamente quantas calorias são gastas ao pensarmos muitto é algo difícil. "O valor exato desse consumo é muito difícil de mensurar e não existem trabalhos com poder científico voltados exatamente para essa medida em humanos. Até porque isso varia muito de uma pessoa para outra e a depender do que chamamos de pensamento e sua intensidade", pondera o neurologista.

Mas, considerando o gasto energético do cérebro como um todo, podemos dizer que o órgão consome aproximadamente 260 calorias por dia, para uma pessoa com gasto energético basal de 1.300 calorias (uma média comum entre sedentários). Isso equivaleria a cerca de 10,8 calorias por hora, o que é desanimador se levarmos em conta que passar sessenta minutos de pé numa fila consome cerca de 47 calorias por hora.

Fazer um grande esforço mental, segundo Teles, certamente aumenta o gasto calórico, mas de forma modesta. É algo bem diferente do que andar devagar e correr, por exemplo. Por isso, não dá para recorrer ao vestibular para perder peso. O efeito, aliás, pode até ser o inverso, pois o estresse é famoso por fazer certas pessoas comerem mais.

Comida para o cérebro

Em um pequeno estudo de 2008 realizado no Canadá, pesquisadores colocaram 14 estudantes para realizar testes de atenção e memória por 45 minutos antes de levá-las a um banquete. O resultado é que elas comeram, em média, 200 calorias a mais do que outras garotas que não tinham feito nenhum esforço mental antes de comer. O nível de glicose delas também variou em relação ao grupo-controle, mas não de forma consistente.

As meninas que fizeram os testes também apresentaram níveis mais altos de cortisol (hormônio do estresse) e relataram mais ansiedade. Para os pesquisadores, portanto, elas não comeram mais porque gastaram mais calorias com os exercícios mentais, mas porque estavam mais estressadas.

Se comer uma caixa de bombons não é garantia de melhor desempenho em uma prova, passar fome certamente não vai ajudar. Quem faz dietas que restringem a ingestão de carboidratos, como Dukan e Atkins, por exemplo, tem o metabolismo modificado para garantir o substrato essencial do cérebro, que é a glicose. "Ocorre uma sobrecarga metabólica, fígado e rins precisam trabalhar de forma diferente e o cérebro pode sentir fadiga, alteração de humor e mesmo baixa no rendimento cognitivo", acredita o neurologista.

Energia x eficiência

De acordo com um artigo publicado na Scientific American em 2012, vários estudos trazem resultados contraditórios em relação ao tema, por isso não dá para concluir que um grande filósofo gasta mais calorias que alguém que passa o dia em frente à TV. Para os especialistas, o cansaço que surge após uma prova difícil tem muito mais a ver com o estresse gerado pela atividade, algo induzido pela simples ideia de que nosso cérebro está sendo drenado.

Embora comparar o consumo calórico do pensamento com qualquer caminhada seja desmotivador para quem quer emagrecer, pensar no que o nosso cérebro pode fazer com tão pouco é de tirar o fôlego, como mostra o mesmo artigo.

Convertendo as 1.300 calorias do gasto basal para outra medida de energia (54,16 kcal/hora = 15,04 kcal/seg = 62,93 joules/segundo = 63 watts), pode-se concluir que o cérebro precisa de apenas 12,6 watts para fazer tudo o que faz o dia inteiro - bem menos que uma lâmpada de cabeceira. Em comparação com muitos eletrodomésticos, é uma eficiência e tanto.

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