Topo

Clique Ciência: sabia que o pai do Nemo deveria ter virado fêmea?

Tatiana Pronin

Do UOL, em São Paulo

2014-07-15T06:00:00

15/07/2014 06h00

"Procurando Nemo" pode ser uma bela história para crianças e adultos, mas não queira usar a animação nas aulas de zoologia. Isso porque o enredo traz algumas inverdades do ponto de vista da ciência. E não é só porque as criaturas marinhas falam.

Se, na vida real, uma família de peixes-palhaço fosse atacada por um predador que devora a matriarca, como narra o filme, o destino mais provável do pai de Nemo seria virar mulher. E o pior (não conte essa parte às crianças): é bem possível que essa nova fêmea se acasalasse com o filhote.

Como contam alguns sites e vídeos na internet destinados a ensinar (ou chocar) a criançada, os peixes-palhaço são hermafroditas, ou seja, nascem com tecido testicular e ovariano. O que determina qual sexo irá prevalecer são estímulos sociais e demográficos, como, por exemplo, o número de machos e fêmeas no cardume, assim como a idade.

O termo "hermafroditismo" veio de um deus grego, filho de Hermes e Afrodite. O primeiro representava a sexualidade masculina e ela, a feminina. De acordo com a mitologia, Hermafrodito era um deus de extrema beleza, que atraiu o amor de uma ninfa. Como ela não foi correspondida, pediu que a unissem ao ser amado, o que gerou um ser de dois sexos.

Existem basicamente dois tipos de hermafroditismo, como explica a professora Renata Guimarães Whitton, do departamento de fisiologia do Instituto de Biociências da USP (Universidade de São Paulo): o simultâneo e o sequencial, sendo o segundo presente nos peixes-palhaço.

"O hermafroditismo simultâneo apresenta indivíduos com ambos os sexos funcionais ao mesmo tempo, caracterizado pela presença de tecido feminino e masculino desde os estágios iniciais de desenvolvimento gonadal", explica a professora. É um tipo pouco comum em peixes vertebrados e está restrito a espécies marinhas que habitam recifes de coral.

Já no hermafroditismo sequencial, como o próprio nome diz, os animais trocam de sexo. "Na protandria, os indivíduos inicialmente são machos e, mais tarde, na vida adulta, transformam-se em fêmeas, sendo os testículos substituídos por ovários funcionais. Na protoginia, os indivíduos são fêmeas e, posteriormente, os ovários são substituídos por testículos", descreve Whitton.

"Em ambos os casos, a mudança de sexo nos indivíduos adultos envolve a degeneração do tecido gonadal do primeiro sexo e o crescimento e maturação do tecido do sexo oposto, em substituição ao anterior", detalha a professora.

Não é ficção

Existem cerca de 30 espécies de peixes-palhaço, sendo a Amphirion ocellaris, espécie do Nemo,  a mais conhecida. Eles são encontrados nos oceanos Índico e Pacífico Ocidental.

A animação da Pixar pelo menos é fiel em uma coisa: esses peixes vivem, mesmo, no meio das anêmonas. Os invertebrados liberam substâncias tóxicas para criaturas marinhas, mas algumas espécies, como os peixes-palhaço, não são afetados porque possuem uma camada de muco que os protege.

A relação é de troca: enquanto as anêmonas dão abrigo e protegem os peixes-palhaço de predadores, elas se alimentam dos restos deixados pelos parentes e amigos do Nemo.

Outros hermafroditas

Todas as espécies de peixes-palhaço são hermafroditas protândricos, ou seja, costumam nascer machos e, mais tarde, transformam-se em fêmeas. É por isso que os biólogos reconhecem com facilidade as "moças" do cardume: elas são maiores.

Há vários outros peixes hermafroditas, como comenta a especialista da USP: garoupas, robalos, meros e mussuns (sim, foi o peixe que deu origem ao apelido do Trapalhão e não o contrário).

Também mudam de sexo animais como certos camarões, as minhocas e alguns caracóis (estes dois últimos são hermafroditas simultâneos). Essa estratégia para manter o equilíbrio entre machos e fêmeas em uma população e garantir a perpetuação da espécie também é encontrada em algumas plantas.

Recentemente, cientistas descobriram alguns casos de peixes que se tornaram hermafroditas devido à poluição das águas. Isso foi descoberto no rio Potomac, que corta a cidade de Washington, nos EUA, por exemplo. "Ocorre que alguns poluentes são desreguladores endócrinos, ou seja, alteram a síntese e liberações de hormônios que controlam a reprodução", conta Whitton.

Se um poluente estimula a produção de estradiol, machos podem vir a apresentar ovócitos em seus testículos. Mas ela esclarece que esses animais não são, de fato, hermafroditas, já que a situação não é natural, e sim induzida por poluentes.

Vale lembrar que existe o hermafroditismo humano, que também difere do processo encontrado em animais e plantas. Os casos de indivíduos com genitais ambíguos são considerados transtornos do desenvolvimento sexual, causados por mutações genéticas ou uso de hormônios na gravidez.

Mais Ciência e Saúde