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Clique Ciência: como os pandas sobrevivem só comendo bambu?

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Imagem: Thinkstock

Tatiana Pronin

Do UOL, em São Paulo

2014-09-02T06:00:00

02/09/2014 06h00

Pandas são bichos razoavelmente grandes e rechonchudos. Adultos, eles podem ultrapassar os 150 quilos. Apesar de serem ursos, esses animais não comem carne --sua dieta é composta basicamente de bambus, algo que, em tese, seria mais apropriado a herbívoros ou vegetarianos de carteirinha. Como isso é possível?

À primeira vista, a pergunta se parece com aquela que muita gente se faz na churrascaria, ao ver uma peça completa de picanha coberta de gordura, e lembrando que as vacas só comem quantidades generosas de pasto. Na verdade, os casos são distintos. Pandas e bois têm sistemas digestivos absolutamente diferentes, o que torna a preferência dos ursos chineses por vegetais ainda mais incrível.

Bovinos são ruminantes e, por isso, têm um estômago com quatro compartimentos. "Dois deles funcionam como câmaras de fermentação", explica a professora Carla Maris Machado Bittar, do departamento de zootecnia da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). Bactérias e leveduras quebram as fibras do pasto, transformando-as em energia de uma forma otimizada. E os micro-organismos que não são mais necessários no processo acabam virando a própria fonte de proteína dos animais, acrescenta a professora.

Já os pandas são carnívoros e, como tais, possuem um estômago com apenas um compartimento e intestino mais curto. Então como é que não têm interesse pela caça? Um estudo feito pela Universidade de Michigan, nos EUA, em 2010, e divulgado na revista New Scientist dá uma pista. Segundo os pesquisadores, a causa é genética: eles teriam uma versão inativa do gene Tas1r1, que permite identificar o sabor umami, próprio das carnes.

Mas nem sempre foi assim. De acordo com a pesquisa, o gene parou de funcionar há aproximadamente 4,2 milhões de anos. Ou seja: em um passado distante, os pandas já apreciaram um bom filé, o que é condizente com o sistema digestivo até hoje moldado para receber carne. Por que eles trocaram a caça por bambus insossos ainda é um mistério, mas provavelmente tem a ver com mudanças ambientais que levaram à extinção de suas presas.

Outro estudo, publicado em julho no periódico Functional Ecology, explica um pouco o malabarismo que os pandas executam para obter todos os nutrientes de que necessitam. Eles acompanharam três machos e três fêmeas das montanhas de Quinling, na China, ao longo de seis anos. E analisaram as quantidades de nitrogênio, fósforo e cálcio que absorviam dos bambus --esses três nutrientes são essenciais para a sobrevivência dos mamíferos.

Existem duas espécies de bambu em Quinling: o madeira e o flecha, que crescem em diferentes altitudes e épocas do ano. O rastreamento dos pandas mostrou que, durante a época de acasalamento, na primavera, eles consomem os bambus madeira, que são ricos em nitrogênio e fósforo. Já em meados de junho, os brotos passam a oferecer menos nutrientes, então os animais migram para as partes mais altas das montanhas, onde encontram os bambus flecha.

Essa espécie é pobre em cálcio, o que obriga os bichos a buscarem folhas jovens, que apresentam boas quantidades do nutriente.

A alimentação dos pandas pode explicar por que essas criaturas têm alguns hábitos diferentes dos outros ursos. Para se manter, eles precisam de 20 a 40 quilos de bambu por dia, o que exige que passem o dia abocanhando vegetais. Provavelmente por isso, eles não hibernam como seus primos --a energia fornecida pela carne é suficiente para sustentá-los no período de sono prolongado.

O processo de reprodução também teve que se adaptar à dieta light dos pandas --seus embriões permanecem no útero e só depois de um tempo começam a se desenvolver. A suspeita dos autores do estudo, que pertencem às universidades de Sydney, na Austrália, do Estado do Arizona, nos EUA, e da Academia Chinesa de Ciências, é que isso só acontece quando o cálcio entra no cardápio.

Apesar das adaptações, os pandas têm um período de gestação mais curto  --de 2 ou 3 meses-- em comparação com outros ursos, cujos filhotes levam um semestre para nascer. Os pandas também são bem menores: pesam apenas 130 gramas ao nascer, enquanto seus priminhos têm três vezes mais a medida.

Por último, a preferência por bambus pode ser uma das razões pelas quais os pandas têm pouca resistência ao frio. Os nutrientes no vegetal são mais escassos no inverno, época em que a mortalidade desses animais é mais alta. Registros de Qinling mostram que, nas últimas três décadas, mais da metade dos casos de morte e doença entre pandas ocorreu nesse período do ano. 

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