Topo

Clique Ciência: embaixo de chuva, é melhor correr ou andar?

Tatiana Pronin

Do UOL, em São Paulo

2014-09-23T06:00:00

23/09/2014 06h00

Quando começa a chover, quase todo mundo tem a mesma reação: correr. Afinal, quanto mais tempo embaixo d’água, maior a chance de ficar ensopado, certo? Depende. A questão não é tão simples como pode parecer, segundo os estudiosos.

Ao longo de 30 anos, alguns pesquisadores se debruçaram sobre o tema e publicaram artigos que atestam a resposta mais óbvia: quanto mais rápido o indivíduo se mover, menos molhado ele concluirá um percurso fixo com uma chuva vertical constante.

Um dos problemas com esse modelo é que nem toda chuva é vertical, e nem constante. “Em quase todas as situações a gente se molha menos se correr”, afirma o físico Marcelo Knobel, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No caso de chuvas que caem com certo ângulo, porém, o problema se complica, segundo ele.

“Na física, frequentemente trabalhamos com modelos, que muitas vezes envolvem enormes simplificações do fenômeno ou objeto modelado”, comenta o físico Paulo Peixoto, da Universidade Federal de Pernambuco, em Caruaru. “É claro que, na elaboração de um modelo, busca-se manter o que há de essencial para o estudo do fenômeno de interesse, mas algumas vezes (e isso não é tão raro) elementos importantes escapam à análise”, continua.

Não é trivial

Junto com dois colegas, Peixoto publicou um trabalho na Revista Brasileira de Ensino de Física, no ano passado, mostrando que o dilema sobre correr ou andar na chuva não é algo trivial. Uma das principais críticas do grupo aos cinco artigos encontrados sobre o tema é que eles não consideram o problema da absorção de água. A verdade é que nem toda gota que cai é completamente absorvida por quem está tomando chuva. 

Com uma série de contas matemáticas e experimentos em laboratório que não chegaram a ser relatados no artigo, eles concluíram que, no caso de gotas de maior tamanho, uma parte de cada gota respinga ao atingir a pessoa.

“Verificamos também que, com o aumento da velocidade de percurso (considerando sempre uma chuva vertical), há um aumento da fração da massa de cada gota que é absorvida pela região frontal do indivíduo. O efeito disso pode ser o surgimento de uma velocidade ideal com a qual molha-se o mínimo possível”, explica Peixoto. Isso quer dizer que movendo-se acima ou abaixo dessa velocidade ideal - que pode corresponder a uma caminhada vigorosa ou a uma corrida lenta - o indivíduo molha-se mais.

Variáveis

Na conclusão do artigo, o trio de pesquisadores menciona vários fatores que podem interferir no resultado do problema, como a presença de vento, as características físicas da pessoa (se ela é gorda ou magra, por exemplo), o tecido da roupa e a sinuosidade do percurso. Para cada uma das variáveis, há uma conta a ser feita.

“Não quisemos cometer o mesmo equívoco presente nos artigos anteriores, propondo uma resposta universal para o problema de andar ou correr na chuva. Muito pelo contrário, buscamos destacar a complexidade do problema - complexidade essa não enxergada pelos nossos predecessores”, argumenta o físico.

Ele acredita que só uma pesquisa experimental bem planejada poderia fornecer respostas mais conclusivas, considerando todas as variáveis possíveis. Mas isso demandaria muito tempo e muitos recursos. Não valeria a pena? “Creio que não. Há coisas bem mais importantes para nos dedicarmos”, conclui.
 

Mais Ciência e Saúde