Topo

Clique Ciência: é possível ouvir o Big Bang?

Thinkstock
Big Bang: nada de teoria, basta um rádio ou televisor velho para ouvir o som da criação do Universo Imagem: Thinkstock

Tatiana Pronin

Do UOL, em São Paulo

2014-10-21T06:00:00

21/10/2014 06h00

Você pode nem se lembrar de como eram os aparelhos de rádio e TV analógicos, mas esses eletrodomésticos já foram muito usados por quem queria entrar em contato com o Cosmos. É que, ao sintonizar um canal em que não haja sinal de alguma transmissora, é possível ouvir um chiado típico que, entre outros sons, inclui os ecos do Big Bang.

Isso mesmo: qualquer pessoa pode ouvir, com ajuda desses aparelhos antigos, vestígios do evento que supostamente deu início à expansão do Universo. O nome dessa espécie de “fóssil” do Big Bang é radiação cósmica de fundo. Ela foi descoberta meio que por acaso há cerca de 50 anos, pelos cientistas Arno Penzias e Robert Wilson.

Ao utilizar uma antena para fazer experimentos com micro-ondas, Penzias e Wilson perceberam um ruído que atrapalhava suas medições e não desaparecia. Chegaram a suspeitar que os culpados fossem os pombos que usavam a antena como vaso sanitário. Mas as aves não tinham nada a ver com a história.

Os cientistas trocaram ideias com Robert Dicke, da Universidade de Princeton, que na época estava aperfeiçoando a teoria de George Gamow sobre a explosão primordial. E após os devidos estudos e medições, a radiação cósmica de fundo foi confirmada.

“Eles chegaram à conclusão que essa radiação podia ser detectada em qualquer ponto do Universo”, conta o professor Ernesto Kemp, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), diretor do Museu Exploratório de Ciências. Na Lua, na Terra ou em qualquer galáxia distante, ela apresenta um pico de frequência de 160,4 GHz e temperatura de 3° Kelvin, o equivalente a -270° Celsius.

Mas como é que o resquício de uma explosão pode ser assim tão frio? O professor da Unicamp explica: logo após o Big Bang, o Universo era como uma sopa muito quente e opaca à radiação. A radiação não conseguia se propagar, logo colidindo com as outras partículas, impedindo a formação dos átomos. Conforme o Universo se expandia, a temperatura diminuía e a radiação se propagava com mais facilidade, sem tantas colisões.

Cerca de 400 mil anos depois do instante inicial do Big Bang (lembre-se que isso é muito pouco na escala cósmica), o resfriamento foi suficiente para a radiação deixar de ser dominante e as partículas começarem a se agregar em átomos. Já se passaram mais de 13 bilhões de anos com o universo se expandindo, e a temperatura que era de aproximadamente 3000° Celsius chegou aos -270° Celsius.

Juntamente com a descoberta de Edwin Hubble sobre a expansão do Universo, a radiação cósmica de fundo constitui um dos grandes pilares da teoria do Big Bang. Tanto que Penzias e Wilson receberam o Nobel de Física em 1978.

Dos pombos aos satélites

Desde que a dupla de cientistas afastou os pombos de sua antena para encontrar os ecos do Big Bang, vários satélites foram lançados com o objetivo de estudar a radiação cósmica de fundo, como o Cobe e o WMap, da Nasa (agência espacial americana). O primeiro, inclusive, levou à descoberta, em 1992, de que essa radiação não é uniforme --ela tem variações minúsculas de temperatura.

Mas o principal instrumento de estudo é o observatório Planck, da Agência Espacial Europeia (ESA, em inglês), lançado em 2009, que conseguiu fazer um mapa detalhado da radiação cósmica de fundo.

Com ajuda do Planck, os cientistas descobriram que o Big Bang ocorreu há cerca de 13,8 bilhões de anos, ou 100 milhões de anos antes do que se acreditava anteriormente. Também a partir dos dados do observatório europeu, o professor de física John Cramer, da Universidade de Washington, conseguiu recriar uma versão do som da explosão primordial que pode ser apreciada por humanos (http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2013/04/08/cientista-reconstroi-som-do-big-bang-ouca.htm).

Em março deste ano, o radiotelescópio Bicep2, no Polo Sul, parece ter conseguido rastrear sinais das ondas gravitacionais que teriam sido geradas no Big Bang. Se os resultados forem confirmados pelo Planck, será a prova de que os cientistas conseguiram chegar ao momento em que o Universo (como o conhecemos) nasceu.
 

Mais Ciência e Saúde