Capacidade de digerir álcool começou nos primatas e nos ajudou a evoluir

Do UOL, em São Paulo

  • Christof Stache/AFP

    Visitantes disputam a primeira caneca de cerveja da Oktoberfest na Alemanha

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Chega o final do dia e tudo o que você deseja é uma bebida forte? Esse desejo de se embriagar, assim como a capacidade do seu corpo de digerir o álcool, surgiu há 10 milhões anos, segundo recente descoberta. A revelação não ajuda apenas a lançar uma luz sobre o comportamento de nossos ancestrais primatas, mas também pode explicar por que o alcoolismo, ou mesmo o desejo por uma bebida, existe.

Os cientistas já sabiam que a capacidade humana para metabolizar o álcool, permitindo que as pessoas consumissem quantidades moderadas da bebida sem ficar doentes, vinha de um conjunto de proteínas que incluía a enzima desidrogenase ADH4.

Embora todos os primatas tenham a ADH4, que realiza a primeira etapa crucial da quebra do álcool, nem todos podem metabolizá-lo. Lêmures e babuínos, por exemplo, tem uma versão da enzima que é menos eficaz do que a do homem.

Os pesquisadores ainda não sabem em quanto tempo as pessoas alcançaram a forma mais ativa da enzima, mas alguns cientistas suspeitam que isso aconteceu quando humanos começaram a consumir alimentos fermentados, há cerca de 9.000 anos.

Segundo relato na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), da Academia Nacional de Ciências, Matthew Carrigan, biólogo do Santa Fe College, em Gainesville, na Flórida (EUA), e seus colegas sequenciaram proteínas ADH4 de 19 primatas modernos e, em seguida, conseguiram localizá-las em diferentes pontos da história deste grupo específico de mamíferos. Então, eles criaram cópias das antigas proteínas e codificaram com diferentes versões de genes para testar a eficiência durante a metabolização do álcool. 

A conclusão foi que as formas mais antigas de ADH4 encontradas em primatas, já em 50 milhões de anos atrás, só quebravam pequenas quantidades de álcool e muito lentamente. Mas cerca de 10 milhões de anos atrás, um ancestral comum dos humanos (chimpanzés e gorilas) possuíam uma versão da proteína que foi 40 vezes mais eficiente na metabolização da bebida.

"Na mesma época, o planeta esfriou, fontes alimentares mudaram, e este antepassado primata começou a explorar a vida na terra", diz Carrigan. Ou seja, pela primeira vez, os primatas deixaram de comer apenas frutas colhidas e plantas e passaram a aproveitar também os frutos caídos no chão, que são expostos a bactérias e viram açúcares e álcoois.

"Se você fosse o ancestral sem essa nova mutação no ADH4, o álcool se acumularia rapidamente em seu sangue e você ficaria embriagado muito mais rápido", explica o cientista.

Esta embriaguez fácil, diz ele, teria sido uma desvantagem para os macacos sem a mutação, tornando-os vulneráveis o suficiente para que eles não pudessem defender seu território e procurar alimentos. Primatas com a nova mutação poderiam obter mais comida e sobreviver, então, o gene foi selecionado para a linhagem em humanos e chimpanzés.

Carrigan afirma que a descoberta pode explicar por que os cérebros humanos evoluíram e associam o consumo de álcool com uma fonte chave de alimento. "Não é um muito diferente dos vícios que algumas pessoas têm em relação a outras comidas", explica ele.

Os novos dados sobre quando cada versão da enzima evoluiu também pode ajudar a datar os diferentes ramos da árvore genealógica dos primatas, além de ajudar a entender como os primatas interagiam uns com os outros há 10 milhões anos.

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