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Clique Ciência: elefantes têm, mesmo, boa memória?

Thomas Mukoya/Reuters
Imagem: Thomas Mukoya/Reuters

Tatiana Pronin

Do UOL, em São Paulo

2015-06-09T06:00:00

09/06/2015 06h00

Eles são os maiores mamíferos terrestres que existem no nosso planeta, chegando a pesar sete toneladas. Não é à toa que são lembrados sempre que alguém quer enfatizar que algo é grande. Mas não é (só) por isso que, quando queremos dizer que uma pessoa não se esquece de nada, usamos a expressão  "memória de elefante".

Esses enormes animais são gregários e cada grupo de até cerca de 100 indivíduos é liderado por uma fêmea mais velha, a "matriarca". Elas são duronas e chegam a expulsar os jovens machos que atingem a maioridade sexual e deixam de respeitar a hierarquia.

Sem ajuda do "macho-alfa", a matriarca tem de arcar com muitas responsabilidades: "A fêmea que lidera o grupo tem como uma de suas obrigações memorizar os locais onde existe água nos tempos de seca e alimento, para garantir o bem-estar do grupo", conta a bióloga Flávia Taconi, da Fundação Parque Zoológico de São Paulo. É daí, segundo ela, que nasceu a expressão famosa sobre a memória desses animais.

Estudos sugerem que essa e outras informações são passadas para os outros membros do grupo por meio de infrassom, ou seja, ondas sonoras com frequência inferior a 20 hertz e, portanto, inaudíveis para os seres humanos.

"Essa habilidade de memorização espacial foi moldada ao longo do tempo pelas experiências de vida dos indivíduos, adaptando-se às condições ambientais para sobrevivência e perpetuação da espécie", continua a bióloga.

"Os elefantes acumulam e retêm o conhecimento social e ecológico , e eles se lembram por décadas dos aromas e das vozes de indivíduos de outras rotas migratórias, de lugares especiais e de habilidades apreendidas", ensina um artigo enviado a pedido do UOL por Petter Granli, da ONG ElephantVoices, voltada para a conservação desses animais.

O texto cita o exemplo de uma integrante da ONG chamada Joyce Poole, que, em meados de 1980, estabeleceu uma relação de "amizade" com um jovem elefante macho chamado Vladimir. Ao estacionar o carro, ele vinha até a janela do veículo e permitia que ela tocasse seu tronco e suas presas. Eles fizeram isso diversas vezes ao longo de cinco anos. Por uma série de razões, ambos ficaram sem se encontrar por 12 anos. Depois desse período, Poole reencontrou o animal, mas ficou na dúvida se aquele macho envelhecido era mesmo Vladimir. Já o elefante não teve dúvidas de que se tratava da "amiga": foi logo até o carro e se esfregou para que ela abrisse a janela e lhe tocasse.

Inteligência

Se a boa memória é algo que as pessoas comumente associam aos elefantes, quem entende desses animais não hesita, também, em destacar sua inteligência. A ElephantVoices reitera que esses mamíferos são capazes de usar e até de fabricar ferramentas - usando as protuberâncias na ponta da tromba de forma parecida com a que os primatas usam o polegar e os dedos para manipular objetos.

A tromba desses bichos, aliás, é um capítulo à parte. Fusão de nariz e lábio superior, é usada para transportar alimento, cheirar, levantar e analisar objetos, como comenta a bióloga do Zoológico de São Paulo. "Também é utilizada para beber - os elefantes chupam água por ela (até 14 litros de cada vez) e depois a despejam para dentro da boca", diz.

O apêndice também ajuda nas interações sociais - é enrolando a tromba que os elefantes conhecidos se cumprimentam, assim como seres humanos apertam as mãos. O órgão também é usado nos momentos de brincadeiras, nas carícias entre mães e filhos, e até para demonstrar força: "Uma tromba levantada pode ser sinal de aviso ou ameaça, enquanto uma caída pode ser sinal de submissão", revela a especialista.

Empatia

Estudos do córtex cerebral dos elefantes indicam que os animais possuem uma rede grande e complexa de neurônios. Eles também possuem o hipocampo e os lóbulos temporais bem desenvolvidos, o que é compatível com a boa memória que esses mamíferos demonstram ter.

Os cientistas também já identificaram diversos comportamentos dos elefantes que demonstram empatia, como a tendência a ajudar animais com dificuldade para se alimentar ou se locomover, por exemplo. Para a ONG, há indícios até de que os elefantes são capazes de compreender a morte, tanto que realizam uma série de rituais diante do corpo de um membro do grupo, como guardar e cobrir os restos mortais.

A entidade cita, inclusive, um estudo publicado na revista New Scientist, em 2005, em que pesquisadores do Kenya e do Reino Unido descrevem como elefantes ficam agitados e demonstram enorme interesse ao se deparar com caveiras de elefantes, o que não acontece quando os ossos encontrados são de outros animais. Trata-se de um comportamento bem diferente do registrado entre macacos ou leões, que parecem não dar nenhuma importância à morte de companheiros de espécie.